espinafrando a estreia: A Pele Que Habito

A Pele Que Habito

Pedro Almodóvar Caballero. Um cineasta passional. Que causa amor e ódio na mesma medida, sem meios termos. A epítome do cinema ibérico. Um diretor que causa birra ao espinafrando desde a superexposição pós-Oscar no já longínquo ano 2000, com ‘Tudo Sobre Minha Mãe‘. Almodóvar cansou.

Dito isso, asseguramos que é puro preconceito. Pedro é um dos melhores Autores dos últimos 10 ou 20 anos, assim mesmo, com “A” maiúsculo. Mais do que dirigir, Almodóvar cria histórias que encantam, sempre com sua marca pessoal. Basta vencer a inércia, começar a assistir qualquer um de seus filmes e se deixar levar.

Pedro Almodóvar

E foi isso que fizemos com A Pele Que Habito. E foi bom, já que é o melhor filme do ano (isso num ano especialmente bom para a sétima arte e para todos os tipos de público: Contágio, Planeta dos Macacos: A Origem, X-Men: Primeira Classe, Amor À Toda Prova, Super 8, Cilada.Com… ops! Tem algo de errado com esse último aí).

Com roteiro e direção do espanhol e baseado no livro “Tarántula” de Thierry Jonquet (que não lemos), temos em A Pele Que Habito um grande filme de gênero. Só que o cinespectador só descobre o gênero lá pelo terço final. O twist é tremendo, daqueles de fazer corar de inveja gente como M. Night Shyamalan. E que deixa o espinafrando numa sinuca de bico: ou essa crítica ficará superficial demais para preservar a surpresa (e acredite: ela vale), ou nos aprofundaremos um pouquinho, sob risco de estragar a diversão de vocês (pelo menos, daqueles que acham que o quê é mais importante do que o como). Ainda não sabemos que caminho tomar no momento em que escrevemos esse parágrafo, mas não se preocupe: caso tomemos a 2ª opção, haverá um grande aviso do tipo “não nos responsabilizamos pelas almas daqueles que passarem desse ponto”.

Os primeiros 2/3 são o típico filme almodovariano, em que personagens são mais importantes que situações, onde a figura materna está presente com força e importância na trama e onde o estranho e o bizarro aparecem para realçar a força de caráter de alguém (além de vez ou outra trazer um estranho alívio cômico).

Acompanhamos o cirurgião plástico de vanguarda Dr. Robert Ledgard (na pele de Antonio Banderas), que aparentemente passou a dedicar a vida aos estudos de reconstrução facial e de pele de pacientes sobreviventes de incêndios, depois que sua esposa sucumbiu em um.

Dr. Robert / Antonio Banderas

Em sua mansão (que também foi clínica de luxo, hoje desativada), vive apenas com seus empregados –capitaneados por Marilia (a ótima Marisa Paredes), a figura materna– já que sua filha também é falecida.

Marilia / Marisa Paredes

O estranho fica por conta de uma bela mulher, Vera Cruz (a estonteante Elena Anaya), que vive isolada em um quarto da mansão, cercada por um sistema de câmeras internas e cujo contato com qualquer um que não seja o Doutor é feito através de interfone e de um daqueles minielevadores que levam as refeições (e outros objetos) até o quarto. Vera tem inclinações artísticas, como o quarto cheio de esculturas (e cujas paredes são forradas de textos) leva a crer. Vera é praticante de yoga. Vera está sempre vestida com uma espécie de macacão de corpo inteiro, sua segunda pele. Não fica claro, mas tudo indica que Vera deva sofrer de alguma doença de pele raríssima, já que o Doutor não poupa esforços em tratá-la. Inclusive testando os enxertos experimentais em que vem trabalhando para “fortalecer” o maior órgão do corpo humano, utilizando a técnica batizada de transgênese –que combina DNA de várias espécies para criar algo inédito na natureza– de forma que ela não sofra mais queimaduras ou cortes à toa. Técnica que causa polêmica no meio científico e que não deveria ser testada em humanos pelo bom Doutor, mas ei, o coitado perdeu a mulher esturricada num incêndio, sua obsessão vai salvar muitas vidas, etc. e tal.

Vera / Elena Anaya

O bizarro fica por conta da visita de Zeca (Roberto Álamo), el tigre, já no final do segundo ato. É o personagem catalisador, que fará com que o filme se transforme e desencadeará uma série de flashbacks que aprofundam o passado dos personagens. De brinde, fará com que seu cérebro exploda.

Zeca / Roberto Álamo

O terceiro ato é construído de forma maquiavélica. Pedro Almodóvar dará uma de Lars Von Trier em Dogville e manipulará todas as suas emoções estabelecidas nesse longo preâmbulo. Mas ao contrário do maniqueísmo de Trier, cujo único objetivo é fazer com que o cinespectador aceite sua solução final, o espanhol deixa as conclusões e principalmente a forma de como lidar com os sentimentos acerca da verdade para você. Na sessão em que estivemos, teve gente na plateia que foi acometida de riso nervoso, gente com o estômago embrulhado, gente com nó na garganta e gente com olhos carregados de lágrimas. Sem dúvida, emoções poderosas. E não é isso que buscamos num filme?

A Pele Que Habito estreia nesta sexta, 04 de novembro de 2011.

Essa foi a resenha livre de spoilers. Surpreendentemente, ficou mais sólida do que esperávamos. Tanto é que faremos apenas alguns complementos para quem não liga em descobrir qual é o gênero do filme (ou já sabe qual é). Coisas leves, que ainda preservarão muito da surpresa sobre os fatos do terço final de A Pele Que Habito.

A partir daqui, siga por sua conta e risco.

A Pele Que Habito se revela um cruel filme de terror na última parte, com altos níveis de sadismo. Mas, por ser um filme de um cineasta especial como Pedro Almodóvar, é um filme de terror especial: a agonia nunca é gráfica (não há nada de gore explícito, nenhuma víscera exposta como nos filmes de Eli Roth –essas partes ficam subentendidas em elipses), as imagens são sempre sutis e contidas e a sensação aterrorizante fica completamente no campo psicológico.

Aliás, mais do que criar um filme de terror brilhante, o espanhol Almodóvar encarna o coreano Park Chan-Wook e constrói em A Pele Que Habito uma das melhores obras do subgênero dos filmes de vingança.

Um palpite: talvez Almodóvar (ou o francês que escreveu o livro que inspirou o filme) tenha se inspirado na literatura fantástica do século XIX, particularmente Mary Shelley e Robert Louis Stevenson, para criar o personagem de Banderas, um misto de Dr. Frankenstein e O Médico e O Monstro.

Uma dica: fique atento aos belos, grandes e redondos olhos castanhos de Vera, que a câmera insiste em procurar. Se é verdade que os olhos são uma janela para a alma, são neles que estão contidas as repostas para o segredo do que habita em sua pele.

os olhos de Vera

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Espinafre!