L.O.A.S. – Howler

Eu vi o futuro do rock. Ao vivo. É uma banda de Minneapolis, Minnesota. O decano do conjunto tem 24 anos, depois tem um de 22 e os outros 3, incluindo o vocalista e lead guitar Jordan Gatesmith, 20 redondos. Eles são o Howler e se apresentaram no domingo aqui em São Paulo (avisei nessas Mudinhas de Espinafre aqui, com a minirresenha do disco. Não viu?), no Beco 203 —filial paulistana da casa de shows de rock porto-alegrense (que ainda não completou 1 ano). Mas calma que a gente chega lá. Primeiro, uma rápida espinafrada no show de abertura…

Beco 203

some community

Antes da atração principal, fomos apresentados ao Some Community, um quinteto paulistano indie que canta músicas em inglês. Ou power-pop-indie-experimental, como se autoclassificam. Muito prazer.

Liderada por uma vocalista que é a cara da Molly Ringwald (!), abriram com uma bateria marcial pesadaça (e o dono das baquetas é bom), seguida por um teclado eletrônico, um baixo ribombante e uma guitarra ardida.

Molly Ringwald X Juliana Vacaro

Além da “Molly”, o Some Community traz mais 2 garotas que se revezam entre sintetizadores (um possível moog? Não deu pra ver de onde estávamos. O outro é um Korg) e guitarras —onde ambas mandam bem melhor, diga-se.

O baixista, que parece com uma espécie de Dave Grohl/Jesus, é bom pacas! Tipo o Peter Hook dos bons e velhos Joy Division/New Order (embora toque o instrumento na altura da cintura, ao invés das canelas).

O som ora lembra Arcade Fire (com pitadas do lado ruim dos Pixies), ora passeia pela New Wave. As composições são irregulares, e com isso quero dizer não apenas entre uma música e outra, mas com variações e quebradas dentro de uma mesma canção. O que significa que consegui a proeza de achar meia-boca, adorar e detestar uma mesma peça: tudo depende do trecho.

Some Community no Beco 203

Se tivesse que apontar um destaque, seria o vocal. Infelizmente, um destaque negativo: a “Molly” desafina demais. Pense num gato sendo estripado ainda vivo pra virar churrasco.

Ao longo do show, tem uma dança das cadeiras instrumentais de que só o baterista não participa. É baixo pra cá, guitarra pra lá, uma vibe bem escravos de Jó. Uma das guitarristas/tecladistas chega a assumir as baquetas de um tambor (o que se provou um erro: ela não conseguiu manter o ritmo e atravessou a bateria). Mesmo com tudo isso, ficou nítido que a banda ainda precisa de quilometragem pra se sentir à vontade em cima do palco. À exceção da vocalista —que ainda arriscava poses e dancinhas— e do baterista (provavelmente o mais experiente), os demais membros pareciam constrangidos de estar ali. Ou talvez fosse proposital, para parecerem marrentos como os Galagher (e se foi isso, melhor pensarem em mudar a estratégia).

Eles vão tentar a sorte nos EUA semana que vem, no festival SxSW. Vão precisar de uma boa dose. Um conselho? Se livrem dos teclados e da “Molly”. E simplifiquem: menos pretensão e mais ação.

howler

Antes da atração principal subir ao palco, momentos de tensão. Rolou alguma treta que atrasou (ainda mais) o show. Meu palpite é que o Jesus Grohl perdeu algum plugue do equipamento de som durante a desmontagem do Some Community. Só sei que uns meninos (que mais tarde seriam reconhecidos como membros do Howler) pareciam francamente desesperados por não conseguirem ligar alguma coisa. E tome procure daqui, escarafunche de lá, alguém traga uma lanterna, Jesus Grohl volta ao palco, conversa com um, fala com outro, olha no chão, atrás da bateria, embaixo do teclado… Seria o cúmulo: além do adiamento do show (que deveria ter acontecido na sexta-feira, mas a banda não conseguiu decolar de Minneapolis devido a uma nevasca) e do medo inerente que o @espinafrando trazia (será que vai flopar ao vivo? E se for banda de estúdio? Pior, e se o disco espetacular for fruto da mão de um produtor dos bons e ao vivo eles não segurarem a onda? E se rolar playback?), será que o show iria pras cucuias antes mesmo de começar? Morreríamos todos na areia? Mas a tensão se dissipou em questão de minutos, quando alguém fez sinal de positivo e a garotada tomou seus lugares. E então…

Howler no Beco 203

Bem, então, senhoras e senhores, o rock’n'roll foi salvo uma vez mais. Pelo menos pra quem acha que o rock morreu ou está moribundo. Os primeiros acordes de America, uma das músicas com pegada bem surf, soaram bem aos ouvidos, preparando terreno para os vocais de Gatesmith começarem a brilhar de seguida. O moleque, que mais parece uma mistura de Butt-Head e Ian McCulloch no visual, e que tem uma voz que fica em algum lugar entre Joey Ramone, Supla (!) e Julian Cadablancas, mostrou que já está no caminho certo pra se tornar um rockstar: carisma, vozeirão, domínio de palco, atitude, loucura, senso de humor, etc.

 

E o resto da banda também funciona que é uma beleza! O conjunto é forte, e mesmo assim destaco o guitarrista Ian Nygaard e sua bela e sonora guitarra semiacústica, que adiciona um certo ar rockabilly ao som. Até então, só tinha visto um vídeo deles ao vivo, durante a turnê no Reino Unido. Me pareceu que a maratona de shows (que passou por UK e Japão antes do Brasil e que continua num ritmo de quase 1 show por dia até o final de maio, na América do Norte e Europa) deu um pouco mais de traquejo pro pessoal. Em suma, já sabem o que fazer em cima do palco. Ou então foi o Jack Daniels que rolou solto (na terra deles, quem tem menos de 21 ainda não pode beber legalmente). Seja o que for, o fato é que todos, na plateia e no palco, se divertiram deveras, e isso é o que importa em última instância. E tão importante quanto: Howler is the real deal! Tudo que você ouve no disco é reproduzido ao vivo, e com mais intensidade (e volume!).

Aliás, depois do show, fiquei louco pra cravar que, acima de todas as referências já citadas até aqui (Strokes, Ramones, Jesus & Mary Chain, Clash, Dick Dale), talvez a mais marcante seja uma diferente: The Cramps. Basta adicionar peso, velocidade e sujeira (+ personalidade própria) pra chegar num mix explosivo de The Ventures com rock garagista, parecido com o que Lux Interior e Poison Ivy faziam, e ainda sim completamente diferente. Só que não sou especialista em Cramps, e minha fonte (que é) jogou uma pá de cal na teoria. Mesmo assim, ainda cravarei mais uma, que você poderá achar a maior furada da história do espinafrando.com, mas que me sinto impelido a fazer: depois de muito ponderar, decidi que o Howler não é o novo Strokes. Porque melhor em todos os sentidos (composição, instrumental, etc.). Pelo menos, até a maldição do segundo disco se confirmar, ou não. E, por isso, já merece ser tratado individualmente, ao invés de novo isso ou aquilo.

Retomando:

  • O show, embora muito bom, foi curto. O que é de se esperar de bandas com disco único.
  • Tinha esperanças que rolasse alguma cover, até pra avaliar a pegada dos músicos, mas ficou pra uma próxima.
  • Funny moments 1: a fumaça de gelo seco descontrolada, que recobriu todos e levou a comentários do Jordan Gatesmith como “Espero que vocês tenham conseguido enxergar alguma coisa” ou “How do you say magic in Portuguese? This was mágica!”
  • Funny moments 2: como o repertório era reduzido, Gatesmith tentava esticar o show ao máximo. Em dado momento, perguntou à plateia como era o nosso hino nacional. Alguém respondeu que era longo, mas ele não se fez de rogado e pediu que cantássemos, pois ele tinha tempo o suficiente. O público começou a entoar o hino, Ian arriscou uns acordes na guitarra… E aí começou a 2ª parte, que pegou a banda desprevenida. Sem saber o que fazer, Ian e Jordan colocaram a mão sobre o peito, bateram continência, enquanto a galera continuava o momento cívico. Até que Gatesmith se tocou que a coisa ainda ia longe, interrompeu, agradeceu e disse: “Vocês tem razão. É realmente longo.” E pra não pegar mal com nenhum patriota, começou a cantar o refrão de Mary Had a Little Lamb, dizendo ser o hino americano.

 

 

  • Tenho quase 30 minutos de material bruto do show gravado em vídeo. E quando cheguei em casa, descobri que tudo virou lixo: os graves altíssimos ficaram estourados, e não tem nada que eu possa fazer pra amenizar. Felizmente, temos a mágica do YouTube. Nenhum dos vídeos nesta matéria é meu, mas pego emprestados do lucioribeiro1, rockinchair e ferlopess.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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