Dica Duca – Y: O Último Homem

…ser a última bolacha do pacote pode ser um pesadelo…

O espinafrando já teve sua fase de consumir todo e qualquer gibi publicado no Brasil. Felizmente, a oferta era relativamente escassa na época (ou a falência múltipla de contas seria certeira).

Imagino que todo consumidor de cultura pop passe pela necessidade de trocar quantidade por qualidade. E nesse caso, nada melhor que descobrir os autores favoritos, os manda-chuvas, os caras que sabem do riscado.

Brian K. Vaughan é um deles. E é multimídia, vejam só: trabalha com HQs e séries de TV. Dizem que tenta se aventurar pelo cinema.

O cara é tão bom que sou capaz de ver até uma biografia do Justin Bieber protagonizada por babuínos se ele for responsável pelo roteiro.

A diferença entre um criador competente e um criador genial fica evidente quando uma premissa clichê e totalmente batida é trabalhada a ponto de virar uma obra-prima. Esse é o caso desse Brian e de suas criações, particularmente de Y.

Yorick Brown & Ampersand

Mas antes de falar de Y, vamos dar uma espiadela na carreira do moço:

a) seu 2º trabalho de destaque foi na Marvel, com ‘Fugitivos’.
•Premissa: adolescentes descobrem que são filhos de superbandidões do mal, fogem de casa e se unem para impedir os planos do mal dos pais.
•Toque de espinafre: cheguei tarde nesse aqui. Só li as passagens de Joss Whedon (que está nesse momento filmando ‘Os Vingadores’) e do Terry Moore (quadrinhista indie, do bom ‘Estranhos no Paraíso’) pelos roteiros. Não garanto, mas vale dar uma olhada. Personagens bem divertidos e fora do lugar comum.

b) ‘Ex Machina’, sua 2ª obra-prima.
•Premissa: o que aconteceria se realmente existisse um super-herói no mundo real?
•Toque de espinafre: aqui, o super-herói tem o poder de falar com as máquinas e salva uma das Torres no 11 de Setembro. E consegue se eleger prefeito de Nova York. A narrativa vai e volta no tempo, sempre consegue te deixar obcecado para saber como a história continua e sempre tem um pé fincado na realidade, com bastante reflexão social e política. Três características marcantes do escritor.

Ex-Machina

c) ‘LOST’ (isso mesmo, a série ame-ou-odeie de TV).
•Premissa: o que aconteceria se você caísse de avião em uma ilha misteriosa.
•Toque de espinafre: a bem da verdade, Vaughan não criou LOST: entrou como produtor executivo de história (o que quer que isso signifique) e um dos roteiristas a partir de meados da 3ª temporada, virou co-produtor na quarta e produtor na quinta, abandonando o barco (ou a ilha) antes da sexta e última temporada. E não dá pra medir exatamente o quanto a influenciou/alterou. Já tinha começado a ler Y quando percebi seu nome nos créditos de LOST (a propósito, o espinafrando é da turma que ama o seriado, inclusive o final) e, coincidência ou não, foi justamente quando começou uma virada espetacular na trama, quando a qualidade da série começava a perder o fôlego. E BOOM!! No 2º episódio com seu nome nos créditos, jazia Rodrigo Santoro (episódio que tinha a participação especialíssima do Lando Calrissian).

Lost

d) a 3ª obra-prima, ‘Leões de Bagdá’
•Premissa 1: fábula moral com bichos sobre o valor da liberdade.
•Premissa 2: romantização ficcional de fatos reais.
•Toque de espinafre: não vou falar nada além de que me debulho em lágrimas toda vez que leio. E tem mais: se você é preguiçoso(a), ‘Leões de Bagdá’ é a sua chance – história fechada, uma só edição. E depois que ler, vamos falar de Y.

Os Leões de Bagdá

Ainda por aqui? Então vamos falar da 1ª obra-prima.

TÃM-tãm-TÃM: senhoras e senhores, ‘Y – O Último Homem‘.

Y: O Último Homem

porque é bom
Premissa: o que aconteceria se todos os animais com o cromossomo Y morressem de uma vez, de forma misteriosa, e sobrassem apenas 1 homem e 1 macaquinho?

A resposta: o espinafrando ainda está descobrindo, mas até aqui, tem sido embasbacante.

Publicada pela DC/Vertigo nos EUA entre 2002 e 2008, Y começou a sair no Brasil em 2006, em edições encadernadas pela Opera Graphica (2 no total). Depois de um longo hiato, a Panini retomou a publicação a partir do volume 1 em 2009 e vem lançando novos volumes regularmente desde então (nesse momento, acabei de ler o 5º).

Y se destaca em várias frentes:
• Personagens imbuídos de verossimilhança até o talo;
• A arte simples e impactante de Pia Guerra, uma das raras mulheres que trabalha no meio;
• O único elemento fantástico (no sentido de fora da realidade) é o generocídio, pelo menos até agora. [essa foi para satisfazer os céticos];
• E principalmente, a narrativa.

Assim como em Ex Machina e, por que não?, em LOST, a forma como Vaughan conta a história é tão importante quanto a história em si. Idas e vindas no tempo e reviravoltas, que hoje em dia meio que viraram lugar comum, são tratados com maestria aqui.

Mais do que isso, o que impressiona realmente é o ritmo e o uso dos ganchos. O autor sabe te manipular e você se vê forçado (e com gosto) a jogar seu jogo: tem a hora de injetar adrenalina, de fazer sorrir, de fazer chorar, de te deixar respirar… E cada arco de histórias sempre termina te deixando de queixo no chão. É inevitável.

Também levanta ótimas questões que permeiam nosso dia-a-dia e que só vêm à tona em momentos extremos: quantas mulheres pilotam boeings? Ou são mecânicas? Ou estão no governo? Ou são peoas de obra?

E mais: como viveriam as mulheres do mundo islâmico nessa nova realidade? Se você fosse o último homem, seria fiel à sua namorada? O mundo político seria de esquerda? Como seria a aceitação do homossexualismo? E o rock’n’roll, como é que fica se a esmagadora maioria das bandas é formada por homens?

Um mundo sem homens pode ser algo assustador. Ainda mais se você for o último. Porque, afinal, a idiotice, a patifaria e o extremismo não são exclusividade do cromossomo Y, mas do Homo Sapiens.

Y: The Last Man

porque é duca
É uma mistura de semi-apocalipse, espionagem, misticismo, conspirações, política, economia, romantismo, totalitarismo, sexo, sexismo, psicologia, sociologia, cotidiano, genética, astronautas, geopolítica, machismo, feminismo, comédia e ninjas.

E o melhor é que essa salada com gosto de picanha, sorvete e lasanha funciona que é uma beleza.

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