L.O.A.S. – Armação Ilimitada

armações sem limitações de censura

Muita gente acusa a década de 80 de buraco negro da produção cultural, uma espécie de limbo. Mas uma coisa esse povo não pode negar: foi uma época efervescente para a Globo. Talvez tão efervescente que teve efeito de Sonrisal para os anos seguintes, acabando com toda a acidez da Vênus Platinada.

Nas primeiras Mudas, falei de como deve ser difícil para a geração atual entender que o Chacrinha passava na Globo. Pois o mesmo se aplica a dois ótimos programas da época: Armação Ilimitada e TV Pirata (cujo pitaco fica pra uma outra vez).

Armação Ilimitada

Outro dia li uma entrevista do Marcelo Tas na Folha que matou a charada. O tema era o humor e o politicamente correto. A frase chave era algo do tipo: com o fim da ditadura e as Diretas Já, a censura virou tabu. Assim, tudo podia porque ninguém tinha coragem de podar.

Talvez, isso tenha facilitado a concepção das aventuras do Juba, Lula, Bacana, Zelda e cia.

Que agora são reprisadas no Canal Viva, o que é uma ótima chance de espanar a memória afetiva de guri e descobrir do que se tratava na real.

E quer saber? O nome do programa casa como uma luva. Pela ótica pasteurizada de hoje, certamente não passaria do piloto.

Bolsonaros encontrariam as seguintes contravenções:
• corrupção de menores;
• incentivos a crianças fugirem de casa;
• sexo, violência e afins num programa para jovens (tá certo que passava tarde da noite, mas todas as crianças ficavam acordadas pra ver);
• bigamia;
• mais sensualidade e violência gratuita;
• incentivo à obesidade e atentados contra a educação alimentar (alô Ronalda!);
• deturpação de valores morais da liga católica;
• e diversão desmedida, o maior dos pecados.

Incrível que o seriado continue como um dos programas mais inovadores da TV brasileira, considerando que foi lançado há 26 anos. O que diz muito sobre a política e os critérios de direção aplicados às produções nacionais.

Mesmo a “continuação” em 89 (‘Juba e Lula’, quem se lembra?), misto de gincana com aventuras curtas infantilizadas, já perdera a pegada.

Essa pegada era composta de muita liberdade nos temas e roteiros, que abusavam de surrealismo e metalinguagem, num ritmo ora alucinado, ora lento o suficiente para desenvolver a história e recuperar o fôlego para a próxima cena.

Metáforas deixavam de ser figuras de linguagem para ganhar vida a cada cena. Principalmente naquelas entre a jornalista moderninha Zelda Scot e o Chefe, interpretado de forma magistral pelo Francisco Milani, meio que um Steve Carrell do bananal.

Agilidade era palavra de ordem, seja nas cenas de ação e acrobacias (muitas vezes realizadas sem dublê), seja na edição.

Outra palavra que define o programa é ousadia. Por exemplo: não me lembro de outra ficção pop que teve a coragem de matar um dos heróis logo no 1º episódio. E de negar tudo logo em seguida, num epílogo narrado por uma DJ chamada Black Boy.

Ah, estava me esquecendo da sinopse obrigatória! Segue então, sem compromisso com a realidade: 2 heróis (Juba e Lula) vivem com um guri espertalhão (Bacana) num galpão que é sede duma “empresa de ação e esportes radicais” (Armação Ilimitada – seja lá o que isso signifique), namoram uma gatinha que morou em Londres (Zelda) e que trabalha num jornal com um chefe esquizofrênico (Chefe). Ah, a jornalista gatinha tem uma amiga abilolada (Ronalda Cristina). E não se sabe porque, mas as aventuras sofrem intervenções de uma radialista cujo nome de guerra é masculino (Black Boy) e que às vezes explica e às vezes complica, mas que atua de fora da realidade da ficção.

Juba, Lula, Zelda e Bacana

Enfim, Armação continua excelente, quase 3 décadas depois. E continua tão inovador que só dá pra perceber que não foi feito hoje por causa de detalhes como os figurinos bubblegum, os carros pré-abertura da economia, as marcas finadas como os Postos Atlantic e as motocas Agrale. E, claro, as referências à inflação galopante, como no final do episódio que passou neste domingo: nossos heróis botam a mão num tesouro submarino – 10.000 notas de 1 cruzeiro – que já valia apenas 1 dólar.

Disso, o espinafrando não tem saudades. Ou como diria o Bacana: ai, meu saquinho!

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