Dica Duca – X-Men: First Class

…vamos descobrir com quantos mutantes se faz uma canoa. Ou algo assim…

Tem uma coisa que particularmente odeio: quando vejo algo muito, mas MUITO legal, e quero contar pra alguém, simplesmente travo.

Porque sei de cara que qualquer coisa que eu diga ficará aquém do nível de “legalidade” da coisa. Simplesmente não fará jus. É o famoso “fiquei sem palavras”.

Meu medo é que a pessoa não consiga captar o quanto a coisa é entusiasmante e acabe a deixando de lado, perdendo uma oportunidade única de diversão.

Bem bizarro para um espaço cuja proposta é justamente opinar sobre coisas bacanas, tentando espalhar a semente e convencer o máximo de gente possível a dar uma chance pra algo que o espinafrando considere joia, hein?

Felizmente, acredito que escrevo melhor do que falo (e se um dos meus três leitores porventura achar que escrevo mal, aí danou-se!). E quando o bloqueio é forte, sempre uso a técnica de enrolar até pegar inércia. Portanto, se chegou até aqui sem pegar no sono ou apertar o X no alto de seu navegador, prepare-se para conhecer o que o espinafrando achou de ‘X-Men: Primeira Classe’.

X-Men

Mas antes, vamos botar um pouco de perspectiva histórica aqui, já que a memória (seletiva por natureza) costuma pregar peças. Se quiser, pule direto para o tradicional porque é bom mais pra baixo. Ou continue por conta e risco.

perspectiva

O que é o gênero super-heróis no cinema?
☹ Desde a década de 40 até o fim da década de 70, os super-heróis já frequentavam as telonas, com produções serializadas do Batman, Superman, Flash Gordon, Capitão Marvel e heróis pulp como o Besouro Verde. Obviamente, a falta de recursos e o direcionamento quase sempre à plateia infantil não resultou em nada memorável.

☺ Em 78, Richard Donner e Christopher Reeve fazem o mundo acreditar que o homem pode voar, num dos melhores filmes do gênero até hoje (o que é bastante significativo), com uma história emocionante e uma das melhores trilhas de todos os tempos, by John Williams, o Beethoven do século XX.

☹ Corta pros anos 80: uma série de 3 sequencias ruins enterram o Superman e os filmes de superheróis por quase uma década.

☺ Em 89, o Batman de Tim Burton ressuscita a febre. Produção bem cuidada, bons atores, roteiro bem feitinho e outra trilha bacanuda, dessa vez do Danny Elfman.

☹ Hollywood trata de dar um antitérmico e passa a década de 90 matando o gênero novamente, seja com as terríveis e pobres incursões da Marvel (Hulk, Capitão América), seja com os Batman do Joel Schumacher ou com os heróis vintage (Fantasma, o Sombra).

☺ Chega 2000 e a Era Marvel é inaugurada com o 1º filme dos mutantes. Que também ressuscita o gênero HQ, com nova tecnologia. Pontos altos: X-men 1 e 2 do Bryan Singer, Homem-Aranha 1 e 2 do Sam Raimi, Hulk do Ang Lee (é, acho uma pérola subestimada), Homem de Ferro 1 e 2 do Jon Favreau, Hellboy 1 e 2 do Guillermo Del Toro, 300 do Zack Snyder, Sin City do Robert Rodriguez, Transformers 1 do Michael Bay, Batman Begins e The Dark Knight do Chris Nolan, Estrada pra Perdição do Sam Mendes, Kick-Ass e Stardust do Matthew Vaughn (também diretor do First Class, objeto dessa Dica Duca. Calma que já voltamos a ele).

☹ Mesmo na renascença, também tivemos filmes médios (Thor, Incrível Hulk, Blade, Constantine, Watchmen) e verdadeiras bombas (Quarteto Fantástico 1 e 2, Motoqueiro Fantasma, Demolidor, Elektra, Spirit, o vindouro Lanterna Verde, Superman Returns, Homem-Aranha 3, X3, Wolverine, Transformers 2), como não podia deixar de ser.

Ou seja nos primeiros 60 anos, tivemos 2 filmes bons. Nos últimos 12 anos, pelo menos 17 filmes legais, 12 ruins e 5 passáveis.

Sem dúvida, o fã de quadrinhos ficou mal acostumado, mimado até. Não precisamos nos contentar com pouco, a oferta é vasta. E o nível de exigência subiu à ionosfera.

Quando começaram a sair pílulas de informação e as primeiras fotos de ‘X-men: Primeira Classe’, todos os fãs dedicados torceram o nariz, espinafrando incluso.

Uniformes amarelos e azuis? Personagens secundários ou terciários na equipe? Desrespeito à cronologia? Xavier novinho e com cabelo? Diretor novato? Vão acabar de enterrar a franquia depois de X3 e Wolverine. Foram meses de má publicidade baseada na pura especulação, que crescia na internet como a bolha assassina.

Aí saíram dezenas de clipes e trailers e comerciais de TV que começaram a reverter a expectativa. Parece que não será tão ruim, afinal.

Como perdi o fim de semana de estreia, ainda pude ler as críticas mais variadas de gente que sabe do riscado. O Érico Borgo fez um dos textos mais longos e dos melhores da história do Omelete, cravando 5 ovos de 5 (leia aqui). O Registro Dissonante gostou, mas levantou uma série de problemas que deixam o filme no meio do caminho, ganhando um sorriso amarelo (leia aqui). O Cinema em Cena, com a abordagem mais técnica do Pablo Villaça, levanta a bola do filme, sem quantificar (leia aqui). O André Forastieri não escreveu uma crítica (pelo menos, não ainda) mas espinafrou (hehe) o filme no twitter.

E aí, chega o espinafrando atrasado como sempre e eloquente como nunca, construindo sua própria opinião depois de uma sessão de cinema.

porque é bom

‘X-Men: Primeira Classe’ é o melhor filme dos X-men de todos os tempos. Ponto. E melhor: é Cinema com X, quer dizer, com C maiúsculo.

O ponto alto da franquia até aqui era X2. Basicamente, porque foi o 1º filme dos mutantes a desenvolver os personagens com o “espírito” das HQs (destaque para o Wolverine matador), com as devidas adaptações.

Primeira Classe se destaca não pelos personagens (na maioria, desconhecidos do grande público) ou pela fidelidade aos quadrinhos (coisa que passa longe), mas pela história desenvolvida com maestria. E essa é uma lição que todos os criadores e fãs deveriam já ter aprendido.

X-men: Primeira Classe

Se deixarmos o olhar de fã e a memória seletiva de lado, veremos que qualquer obra ficcional que dure tanto quanto os X-men (48 anos e contando) nunca poderá ser coesa.

Não amamos os personagens, porque suas próprias personalidades variam conforme os anos e os criadores passam por eles.

Também não amamos os criadores das histórias, porque nem sempre acertam o alvo e as vezes perdem a mão (vide Chris Claremont ou o próprio Stan Lee – dois roteiristas icônicos das HQs que hoje são pastiches de si mesmos).

O que amamos são algumas histórias, as melhores, aquelas que nos emocionam tanto que acabam eclipsando toda a papagaiada que vem antes e depois. E que acabamos tomando por cânone que representa toda a série, passado, presente e futuro.

Mas o fato é que não existe esse cânone, capaz de rotular se a franquia é absolutamente boa ou não. E como não existe, não precisa ser “respeitado”. Se tiver que mudar tudo pra contar uma boa história, vai lá e manda ver! Só vai dar errado se a história for ruim.

É a lição que Matthew Vaughn nos ensina de novo. E que fazemos questão de esquecer sempre. Afinal, na própria história da arte isso sempre acontece: todo movimento nasce esculhambando o imediatamente anterior, abalando estruturas, até virar mainstream, se acomodar e ser demolido pelo novo.

Voltando ao filme, quando digo que a história é desenvolvida com maestria é porquê acerta em quase tudo. Argumento, roteiro, elenco, atuações, trilha e edição estão em perfeita sincronia. Tem ação quando deve ter e muito bem executada. Empolga mesmo. Tem drama, romance, ficção científica, suspense, intriga, violência, sociologia, ideologia e comédia nas doses certas. Você fica arrepiado, emocionado, aliviado, tenso, triste e feliz ao longo do filme. Tudo o que você deveria ter quando embarca numa boa sessão de cinema ou vê uma boa história.

O único ponto fraco é Emma Frost, a Rainha Branca. Porque quem lê as revistas sabe do potencial que a personagem tem quando bem trabalhada. Particularmente nas fases de Grant Morrison e Joss Whedon. Mas, de novo, estamos falando de histórias específicas. E essa “falha” nem de longe afeta o resultado do filme.

porque é duca

Se Primeira Classe merece uma das alcunhas que os X-men têm nas HQs, essa é “Surpreendente”.

Afinal, quem iria imaginar que o sisudo e onipotente Charles Xavier poderia ser tão bacana?

Que o inteligente e maquiavélico Magneto poderia ser fodão como Bond, Bourne ou mesmo o Wolverine?

Que a crise dos mísseis de Cuba seria um estratagema cheio de manipulação de Sebastian Shawn?

Que finalmente veríamos um filme de equipe e não um monte de coadjuvantes para o Wolverine de Hugh Jackman?

Que o Grande Garoto Nicholas Hoult cresceu tanto e daria um Fera tão bom? (aliás, a primeira vez que o vi na tela pensei: é o Clark Kent escrito. Deve ser filho bastardo do Christopher Reeve)

Que uma suposta “Crepuscularização”, já que o filme estaria coalhado de crises adolescentes, daria numa obra tão adulta em termos de debate sobre preconceito e formação de caráter?

Que seria o único filme de 2011 a figurar no Top 250 da história do cinema no IMDb, de acordo com o público?

Que McAvoy (Xavier) confirmaria que é um dos grandes de sua geração? E Fassbender (Magneto) e Jennifer Lawrence (Mística) seriam ótimas surpresas que merecem ser seguidas com atenção daqui pra frente?

Que ambientar o filme nos swinging sixties, com pano de fundo histórico, seria uma opção tão acertada?

Que mesmo sendo um reboot, o produtor Bryan Singer não iria ignorar os filmes anteriores, trazendo duas participações especiais em cenas de arrepiar?

Poderia continuar com isso por mais uns 60 parágrafos, mas acho que já deu pra passar a ideia.

E falando em reboot, ‘Primeira Classe’ está para ‘X3’ e ‘Wolverine’ assim como ‘Batman Begins’ está para os ‘Batman’ de Joel Schumacher. Com uma diferença: o homem-morcego-com-mamilos conseguiu queimar o filme MUITO mais que X3. E a nova aventura dos mutantes consegue superar MUITO o 1º Batman do Nolan (mas não o ‘Cavaleiro das Trevas’).

Enfim, ‘X-men: Primeira Classe’ é um filmaço. O espinafrando está ansioso para ver como a história continua.

Vá ver, sem preconceitos, e forme sua própria opinião – esperamos que não seja tão longa quanto essa😉

6 comments

  1. Gostei de todo o conteúdo…Parabéns ao pessoal do Espinafrando, mas discordo quando vocês chamam de “bomba” filmes como HOMEM-ARANHA 3 (é o melhor filme de ação do Homem Aranha!), Quarteto Fantástico e Transformers 2…Vi no cinema e são demais!!!!!

    • Valeu pelos parabéns! E é isso aí, cada um tem que formar a própria opinião (esse era o espírito do post e esse espaço é aberto e incentiva o debate).

      O espinafrando mesmo acha o Hulk do Ang Lee excelente, enquanto 90% detesta.

  2. Parabéns ao pessoal do Espinafrando!
    To lendo o Fables, achei aqui na biblioteca, eh um Dica Duca mesmo!
    To achando melhor que o Sandman, acho o N Gaiman foda pra kraleo e sem o Sandman nos 90 talvez nunca Vertigo aprovaria o Fables, mas pra mim eh melhor
    Valeu pessoal do Espinafrando!

    • Fico feliz que gostou! Estamos aqui pra isso, fiel leitor!

      Gaiman é foda! Sem a semente que Sandman e o Monstro do Pântano do Alan Moore plantaram, a Vertigo não existiria.

  3. Post excelente!!! Ótimas referências, mandou bem elencando os super heróis por aí.
    E pois é, quem diria que faríamos exatamente a mesma comparação com os Batmen da vida? rs
    Mandou bem, ganhou mais um fã hoje.

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