espinafrando a estreia: Amor à Toda Prova

O espinafrando é da opinião de que é preciso ter muita sensibilidade para ser um bom comediante. Não à toa, sempre que um dos bons faz um papel dramático, acaba como o destaque (mesmo que como coadjuvante). Três exemplos:
☺ Bill Murray em ‘Encontros e Desencontros’;
☺ Jim Carrey em ‘O Mundo de Andy’;
☺ Steve Carell em ‘Pequena Miss Sunshine’.

Nada original a tese, hein? Mas esse preâmbulo todo foi só pra poder ilustrar o texto com esses tuítes de dois excelentes comediantes, sobre ‘Amor à Toda Prova‘ (‘Crazy, Stupid Love‘ no original):

Alec Baldwin

Alec Baldwin

Seinfeld

Se Jerome Seinfeld te manda ver um filme, já é suficiente, certo?

De certa maneira, sim. Exceto por 2 detalhes:
1) este é um espaço pra vocês conhecerem a opinião do espinafrando.
2) o título em português e o trailer podem te desencorajar, pois não transmitem o tom geral do filme, 1º trabalho da produtora de Steve Carell.

Não se engane: ‘Amor à Toda Prova‘ não é mais uma comédia romântica da semana. Na verdade, o filme é difícil de classificar: tem momentos de comédia sofisticada e pastelão, tem drama, tem romance, é sentimental sem ser sentimentalóide, é pra gente de 13 a 50 anos e não é da Disney.

Não sabemos a definição exata de feel good movie, mas definitivamente nos fez bem. É tocante e complexo como a vida nos seus melhores (e piores) momentos.

Amor à Toda Prova

A história de ‘Amor à Toda Prova’ é puxada por Cal Weaver (Steve Carell, ótimo), um quarentão que já perdeu todo o gás e vê sua zona de conforto ruir de uma hora pra outra quando a esposa e amor da adolescência pede o divórcio e anuncia (na verdade, tagarela) que corneou o maridão com David Lindhagen (Kevin Bacon), um colega do trabalho.

Após alguns dias de autocomiseração no aparentemente único bar da cidade –e depois de encher o saco de todo mundo com sua história–, é abordado por Jacob Palmer (Ryan Gosling), o garanhão e assíduo frequentador do local, com uma proposta irrecusável (que não envolve cabeças de cavalo, isso não é ‘O Poderoso Chefão’): torná-lo uma versão mais velha de si mesmo, para que possa recuperar a dignidade, dar o troco na esposa e, principalmente, parar de atazanar a vida de todos à sua volta. Dito dessa maneira, parece estranho e improvável, mas o roteiro tem seus motivos e as atuações te levam à suspensão da descrença.

Steve Carrell, Juliane Moore e Ryan Gosling em Crazy, Stupid Love
Primeiros momentos de Crazy, Stupid Love

Em paralelo, seguem as vidas de todos que, de uma maneira ou outra, orbitam o círculo social de Cal:

♠ O filho pré-adolescente que é apaixonado pela babá adolescente, que nutre tesão e paixão por Cal.

O filho, a babá, a ex-esposa e David Lindhagen
O filho, a babá, a ex-esposa e David Lindhagen

♦ A ex-esposa Emily (Julianne Moore) que, apesar de assertiva na hora de declarar o fim do casamento, está mais perdida que quem assiste Crepúsculo (2 vezes!).

♣ O famigerado David Lindhagen (vilão sem ser vilão) e o casal de amigos do ex-casal (pais da babá e que têm que escolher um lado), acabam envolvidos no emaranhado não por vontade própria, mas com um quase-final porrada.

Crazy, Stupid Love
Quarteto Fantástico?

♥ E, por fim, Hannah, a adorável CDF que quer ser advogada, vivida por Emma Stone. A princípio, apenas uma reta que cruza as outras e segue caminho próprio: a única moça que não caiu nos truques de Jacob.

Ryan Gosling e Emma Stone
Manequins com conteúdo

Roteiro, direção e atuação impecáveis conduzem a trama, em que parece que você conhece todos os personagens de longa data, mas sem parecer datado. Em nenhum momento te dá aquela sensação de obviedade, em que você já sabe o que vai acontecer na cena seguinte. A história respeita tanto o cinespectador, que até no clássico momento em que o personagem principal é abandonado por tudo e por todos na chuva, Carell dá o choque de realidade: “Isso é tão clichê!”

Funciona como se fosse uma tese sobre o amor e relacionamentos, em seus vários estágios e acontecendo ao mesmo tempo, com pessoas diferentes.

Ryan Gosling está ótimo como o macho-alfa conquistador e vazio, interpretando um papel que é uma espécie de oposto de seu personagem no ótimo, estranho e subestimado ‘A Garota Ideal‘, embora com o mesmo problema: o medo de se relacionar.

Uma sacada genial (entre várias) é o paralelo entre o treinamento de Jacob e Karate Kid, quando Cal percebe que aprendeu a arte da conquista por absorção e exclama: “You did the Miyagi thing!”

O mesmo vale para a comparação feita pela amiga de Hannah, dizendo que a colega (que busca segurança acima de tudo) vive sua vida como se fosse um filme PG-13 (censura 14 anos, no Brasil). Detalhe: o filme É PG-13. O que prova que nem tudo que não é proibido para maiores precisa ser necessariamente imaturo.

Uma dupla promissora esses Glen Ficarra e John Requa, considerando que é apenas o segundo trabalho deles na direção de longas (antes, fizeram ‘I Love You, Phillip Morris’, com Jim Carrey e Rodrigo Santoro. Mas o espinafrando ainda não assistiu esse).

Crazy, Stupid Love‘ faz com que a expressão filme familiar ganhe um novo sentido, bem mais humano (com tudo que há de bom e de ruim embutido nessa palavra). Não tem absolutamente nada a ver, mas não sabemos porque, lembrou ao espinafrando a ‘Comédia dos Erros’ de Shakespeare.

Não temos um “A” pra falar mal. Mas se nossas pobres habilidades com a escrita não conseguiram transmitir o quanto esse filme é sensacional e não te convenceram, siga a dica do Jerry: apenas vá e veja! Estreia nessa sexta, 26/08.

E um conselho para os casados: nunca peça o Crème Brûlée.

 

4 comments

  1. Ótima critica sobre o filme… com alguns spoillers para quem ainda não viu, mas muito boa e completa! E o final, com a dica para os casado, fechou em alto estilo!!! =D

    Abraços

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