espinafrando a estreia: Ultimate Spider-Man Vol. 2 #1

Uma estreia diferente, mas ainda assim uma estreia. Saiu hoje (14/09, quando começamos a escrever este post) nos EUA a primeira edição da segunda série de Ultimate Spider-Man.

Ultimate Spiderman

Ficou perdido? Pros não iniciados, basta saber que é uma das HQs mais aguardadas dos últimos tempos. Daqueles eventos que transcendem os quadrinhos e atingem a grande mídia, com matérias nos principais jornais e TVs do mundo: a origem de Miles Morales, o novo Homem-Aranha, adolescente, negro e hispânico, substituindo o falecido Peter Parker!

pano de fundo

Peter Parker morreu? Como assim? E o que vai acontecer com os filmes do Homem-Aranha? Calma que o espinafrando explica.

Pra começo de conversa, é bom saber que a Marvel possui pelo menos 2 linhas narrativas nas revistas: o Universo Marvel tradicional (com o peso de seus mais de 70 anos) e os quadrinhos Ultimate (ou Marvel Milenium, como é chamada atualmente no Brasil).

A linha Ultimate foi criada em 2000 como forma de conquistar novos leitores, já que é bem difícil se situar na intrincada e extensa cronologia do Universo Marvel tradicional. Não é um universo paralelo ou coisa do gênero: é simplesmente uma continuidade diferente, com mais liberdade criativa e supostamente mais alinhada com os dias de hoje.

Não somos especialistas nessa linha narrativa, até por um certo preconceito. Ora, se já existem os heróis Marvel, porque começar a acompanhar tudo de novo? Lemos algumas edições por curiosidade, algumas funcionam, outras não, e não demos mais atenção (embora exista uma verdadeira obra-prima entre as séries: Os Supremos de Mark Millar e Bryan Hitch, a releitura dos Vingadores que daria o melhor filme de super-heróis da história).

Os Supremos
Os Supremos: a releitura definitiva dos Vingadores.

Voltando ao Homem-Aranha: é a versão Ultimate que traz todas as mudanças que comentamos aí em cima. Peter Parker morreu em seu último ato de heroísmo, comoção nacional. E a partir de hoje, começam as aventuras de outro moleque picado por uma aranha geneticamente modificada (aranha radioativa é coisa do Universo Marvel tradicional, coisa lá dos anos sessenta e do medo da ameaça nuclear).

Mudança que não afeta o Peter Parker tradicional, nem o vindouro filme com Andrew Garfield no papel principal. Que aliás, é baseado justamente na versão Ultimate. Mas como são pelo menos 10 anos de histórias com Peter Parker, deve demorar ainda um pouquinho para a estreia de Miles Morales nos cinemas.😉

Andrew Garfield

golpe de marketing?

Super-herói morto? Substituto politicamente correto? Isso não passa de um golpe de marketing pra vender mais gibi!

Sim e não. É óbvio que há uma grande estratégia de marketing para sacudir o mercado. Os comics passam por grande crise, com vendas cada vez menores e com uma base de leitores envelhecida e que não se renova.

Quem acompanha o pessoal da indústria no twitter, vê diariamente discussões sobre como voltar a vender, o que está sendo feito de errado e precisa mudar, os danos da pirataria, novas formas de distribuição, e por aí vai. E quem faz esses questionamentos são os próprios criadores, não os executivos.

Matar personagens é um recurso (questionável) pra chamar atenção desde antes da morte do Super-Homem nos anos 90.

A morte do Superman / O novo Lanterna Verde
HQ: reciclando ideias desde sempre

Substituir o homem por trás da máscara não é novidade. E trocar etnias também (vide o Lanterna Verde John Stewart, um dos primeiros heróis negros de destaque na DC, criado no anos 70 –e que hoje as gerações mais novas acreditam ser o Lanterna Verde original, graças ao desenho animado da Liga da Justiça).

Qual a novidade aqui? E mais importante: esse novo amigão da vizinhança funciona?

A grande diferença nesse caso responde pelo nome de Brian Michael Bendis (o mesmo autor desta Dica Duca). Além de excelente escritor, Bendis também vem a ser o criador e único roteirista do Aranha Ultimate, desde 2000. O que torna tudo um pouquinho mais consistente, digamos. E, como diz o próprio autor, não há problema nenhum em fazer um estardalhaço de marketing se a história for boa.

Miles Morales, enfim

Dizem que a morte do Peter Parker foi bem construída, e o clímax tocante. Não podemos corroborar porque não lemos.

Mas podemos dizer o que achamos dessa primeira edição da nova série, que apresenta Miles Morales.

(afinal, é o que você está esperando, se chegou até aqui)

E é bem legal, diga-se. Se tem uma coisa que Bendis sabe fazer, é montar um ponto de partida para uma história.

De cara, os novos leitores da linha Ultimate são apresentados a uma revelação bombástica que envolve a versão moderna de Norman Osborn, o eterno arqui-inimigo do Aranha original. E supomos que o “bombástica” deve servir apenas para quem está chegando agora, como o espinafrando. É uma boa forma de ligar as origens dos dois Homem-Aranhas, recompensando também os leitores fiéis.

Na sequência, somos apresentados à família Morales, muito prazer. Com poucos elementos e sem dizer diretamente, descobrimos que a vida é dura no Brooklin. Além da questão étnica (o pai é negro e a mãe latina), percebe-se que os Morales também são americanos de poucos recursos financeiros (algo como a nossa classe C ou D). Tanto que a chance de ter o filho selecionado para uma boa escola do ensino médio, num sorteio entre 700 candidatos para 40 vagas, parece ser o único raio de esperança para uma possibilidade de futuro.

A Família Morales
A Família Morales

E aqui cabe (mais um) parêntesis: esse primeiro contato com os Morales absolve Bendis de qualquer acusação de pretender ser “políticamente correto”. A questão da diversidade é usada não como um panfleto, mas como um reflexo da sociedade. E é absolutamente refrescante ler algo tão universal e ao mesmo tempo tão raro nos quadrinhos mainstream. É quase que uma volta ao estado de espírito da quebra de paradigmas que o 1º Peter Parker causou na edição 15 da revista Amazing Fantasy, no já longínquo 1962. Fecha parêntesis.

A bela arte de Sara Pichelli

Vamos falar de Miles, agora. O garoto (e é um garoto mesmo! Pelos desenhos, não parece ter mais do que 13 ou 14 anos) tem toda a pinta de ser um personagem multidimensional. Parece carregar um peso tremendo, com seu olhar triste e desesperançado. Que contrasta com os raros momentos em que se permite ser criança, quando seus olhos brilham frente a um picolé. Ponto tanto para a caracterização de Bendis quanto para a bela arte da italiana Sara Pichelli.

Miles Morales

É óbvio que temos a clássica cena da mordida da aranha. E a edição termina com um gancho que mostra que não estamos à frente de apenas uma troca de personagens, mas de um novo Homem-Aranha. Com tudo que a palavra novo carrega.

Araninha safada...
Araninha safada…

São apenas 17 páginas de história, o que torna o preço de US$ 3,99 caro para os nossos padrões (compramos via Comixology, uma espécie de iTunes para quadrinhos, que funciona tanto em desktops quanto mobile, com apps para iOS e Android). Mas o espinafrando ficou satisfeito com a narrativa e ansioso para saber o que acontecerá daqui pra frente.

E uma última curiosidade: tanto a aranha quanto a bolinha sorteada no bingo da escola, que deu a vaga à Miles, trazem o número 42. Talvez, uma referência à resposta para a Vida, o Universo e Tudo Mais dos livros do Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams.

42 é a resposta?
42 é a resposta?

 

 

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