jornada dupla: Tropa de Elite

Oscar. Assim como a medalha de ouro olímpica para o futebol, o prêmio de melhor filme estrangeiro também é uma obsessão para o Brasil.

O Oscar

Isso, claro, quando não podemos torcer por um Oscar verde e amarelo nas categorias principais, como aconteceu apenas 3 vezes em 84 edições (já inclusa a de 2012):
O Beijo da Mulher Aranha, uma co-produção estadunidense-brasileira, concorreu com 3 americanos (roteiro adaptado, melhor ator e melhor filme) e um argentino nascido no Brasil (Hector Babenco, melhor diretor).
Central do Brasil, que além de concorrer como melhor filme estrangeiro, emplacou uma indicação à melhor atriz para Fernanda Montenegro.
Cidade de Deus. Aí sim, o melhor filme que essa nação já produziu e que concorreu com 4 brasileiros legítimos (fotografia, edição, roteiro adaptado e diretor).

O Beijo da Mulher Aranha, Central do Brasil e Cidade de Deus
Rompendo a barreira de Melhor Filme Estrangeiro

Ironicamente, a única estatueta que “ganhamos”, em 1959, foi para a França, com o filme falado em português e filmado no Brasil Orfeu Negro –só que dirigido pelo francês Marcel Camus.

Aproveitando que acabou de sair o indicado brasileiro desse ano para concorrer a uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro, o espinafrando encarou uma sessão dupla de Tropa de Elite 1 e 2 para poder responder quais as chances do país tropical em 2012 (isso, claro, se Tropa 2 realmente receber a indicação para o Oscar. Por enquanto, só passou pelo crivo do governo).

Tropa de Elite

Tropa de Elite

Rever Tropa de Elite antes da continuação foi uma experiência deveras interessante. E com todo o hype que teve na época de seu lançamento, o espinafrando se sente desobrigado de explicar o enredo e pede licença pra partir direto pras suas opiniões. Licença.

Como filme, é bastante irregular. Apesar de se afastar do padrão televisivo Globo Filmes (o que já é um passo enorme), ainda está longe de um Cidade de Deus (esse sim, cinema puro). Entre os defeitos, os mais gritantes são o abuso da narração em off –recurso que deveria ser restrito à literatura, vide Blade Runner antes e depois da(s) versão(ões) do diretor–, os palavrões forçados típicos do cinema brasileiro dos quais já falamos aqui (não são todos, mas principalmente os da primeira metade) e as atuações dos coadjuvantes de menor importância.

Capitão Nascimento e Aspirante Matias
Capitão Nascimento e Aspirante Matias

Os trunfos, como não poderiam deixar de ser, são as atuações do mestre e discípulo, a la Star Wars (bem, ao menos se você conseguir enxergar um Guerra nas Estrelas violento ao extremo, que se passe no Rio de Janeiro, sem naves espaciais e sabres de luz… –talvez seja melhor esquecer esta comparação). Capitão Nascimento virou ícone porque Wagner Moura é um tremendo ator. Mesmo quem já assistiu antes acaba se surpreendendo com a transformação que o baiano bonachão da vida real sofre, virando um dos maiores fodões do cinema mundial. E o André Matias do André Ramiro é simplesmente o personagem mais humano do filme.

Tropa de Elite

O terço final é o que separa Tropa de Elite da vala comum. [spoiler pesado] E o final aberto e abrupto é a cereja do sundae: o Luke Skywalker Matias é seduzido pelo lado negro do BOPE e atira ou não? (olha aí a saga do George Lucas de novo!) [fim do spoiler pesado]

O que mais surpreendeu o espinafrando nessa revisão foi o quão injusta é a pecha de fascista que o filme do José Padilha carrega desde que vazou nos camelôs antes da estreia.

Tropa de Elite é niilista em sua essência. Todos os seus personagens estão errados, uns mais que outros, mas ninguém se salva. É a materialização da tese do Coringa n’A Piada Mortal do mago Alan Moore (uma das melhores histórias do Batman e uma das melhores histórias das histórias em quadrinhos, pra quem não conhece. E se não conhece, vá ler que vale a pena): as ações de todos são reflexos de suas experiências de vida. Basta um dia ruim para justificar a loucura, que seria a única resposta sã para um mundo insano.

A Piada Mortal

E o Capitão Nascimento (e o Matias, e o Baiano, e o Neto, e o Capitão Fábio…) tem uma vida inteira de dias ruins. É o Eliot Ness que deu errado. Um herói manco, que se rende à violência para consertar o que precisa ser consertado. Um Batman que mata. E que sabe estar errado, mesmo não vendo outra solução. Os fins justificam os meios, etc. Se fascista fosse (e por conseguinte, totalitarista), em nenhum momento daria a liberdade de escolha para seus comandados. [spoiler] Não existiria o pede para sair nem a janela para quem não concordasse com tortura dos moradores da favela descer o morro.[fim do spoiler]

Eliot Ness e seus Intocáveis
Eliot Ness e seus Intocáveis

E se o filme é a visão do Capitão Nascimento, como pode ser fascista?

Tropa de Elite 2: o inimigo agora outro

Depois de todo zunzunzum, maior bilheteria do Brasil e tudo o mais, o espinafrando finalmente assistiu Tropa 2. E dubiedade foi o sentimento-chave em relação à continuação. Mas antes da análise e por ser mais recente, uma breve sinopse.

Como o título brega deixa claro (na ânsia por nos aproximarmos de Hollywood, já temos o nosso Rambo II: a Missão), o inimigo agora é outro. A busca por um sucessor não vingou, o Capitão Nascimento continuou no BOPE, ganhou um divórcio, virou coronel e depois de ganhar a mídia e virar herói pra população, foi promovido à Secretaria de Segurança Pública do RJ. Onde obviamente descobre que o buraco era bem mais embaixo, que os policiais corruptos eram fichinha perto dos políticos e que o Sistema era mais vilão que os traficantes. E decide levar sua cruzada adiante metralhando toda Brasília. (essa última parte é de mentirinha)😉

A primeira coisa que chamou nossa atenção foi o rumo tomado pela história. Matias, afinal, não era Darth Vader nem Luke Skywalker. Era apenas mais um, usado pra contar a história de Roberto Nascimento. Uma pena, já que ambos os Andrés (Matias, o personagem; Ramiro, o ator) pareciam promissores o suficiente para protagonizar a continuação.

Coronel Nascimento e Capitão Matias
Coronel Nascimento e Capitão Matias

A segunda coisa (e aqui começa a dubiedade) é que, apesar de atuações, direção e roteiro evidentemente mais seguros que o primeiro (mas ainda longe de Cidade de Deus), Tropa 2 é ao mesmo tempo melhor e pior que o original. Melhor porque surpreende e pior por que entrega mais do mesmo, mas sem o mesmo impacto.

Esse não é niilista, muito menos fascista. Parece uma reposta do diretor às críticas que recebeu. E é engraçado que, enquanto no 1º o espinafrando torcia para o final feliz (para que Matias continuasse honrado), no segundo esperava por um final bem mais dramático do que o apresentado.

O principal problema: a estrutura idêntica ao primeiro (começa no fim da história com a temível narração, corta para o início, desenvolve até o ponto de corte e segue até o fim). Isso enfraquece a sequência, fica episódico, mais parecendo um seriado do que um filme. Ou novela (embora com temática bem mais violenta).

De resto, o filme funciona a contento. Só tem um momento em que falha a suspensão da descrença: quando o povo começa a aplaudir o Coronel Nascimento no restaurante.

Convenhamos: ninguém na vida real grava o nome de qualquer policial que aparece no noticiário, quanto mais o rosto, não importando a dimensão do feito. E isso não é menosprezar a polícia, pelo contrário: é uma crítica à fugacidade da informação e da nossa memória. Se nem dos casos terríveis de corrupção nos lembramos, já que os mesmos escroques de sempre continuam se elegendo…

Voltando ao filme: um ponto que achamos curioso é o Datena cover. No começo, ficamos intrigados em como é que uma produção da Globo Filmes colocava um concorrente tão claramente retratado e com certo destaque na história. Porém, o que parecia ousadia ou desleixo acabou ficando claro rapidamente. E o mais engraçado (pra não dizer trágico) pra quem assiste pela primeira vez um ano após a estreia é constatar o tanto que essa parte em especial foi profética (quem não entendeu, mande sua cartinha para espinafrando@espinafrando.com ou contate via twitter que explicamos).

Fortunato e Datena: ficção x vida real
Fortunato e Datena: ficção x vida real

O grande mérito dos dois Tropas é, a despeito de seus defeitos, tornar todas as tramas críveis. É fácil e tentador tomar tudo como verdade absoluta. E é isso que torna a produção um marco e um paradoxo, se você parar pra pensar que tem dinheiro estatal e Global financiando um filme que ataca justamente o poder constituído.

Encerrando a análise, gostaríamos de chamar a atenção para a trajetória do personagem de Milhem Cortaz, o corrupto pé-de-chinelo. Depois da humilhação sofrida no 1º filme, quando ainda era capitão, o agora Coronel Fábio passa a sequência toda margeando a ação principal.

Fábio, em dois momentos
Fábio, em dois momentos

Quando finalmente atinge o topo do sistema de propinas do tráfico, a hora do lucro já passou e existe o novo sistema das milícias. Não é respeitado por ninguém. E ainda guarda rancor do Nascimento.

Nascimento versus Fábio
Nascimento versus Fábio

Repararam como eles sempre tiveram as mesmas patentes? E como estiveram em lados opostos do tabuleiro? E lembram da referência à Piada Mortal que fizemos na análise do 1º filme? Bem, no livro do Alan Moore, dá-se a entender que o Coringa era um pé-rapado antes de ser o Coringa. E que uma soma infeliz de coincidências fez com que chegasse ao limite do suportável. A gota d’água, completamente ao acaso, foi derramada pelo Batman e deu no que deu.

O Coringa

Se você já ligou os pontinhos e viu a reviravolta do personagem no final de Tropa de Elite 2: o inimigo agora é outro, já sacou que, se houver um 3º filme, tudo indica que Fábio será o nêmesis do Morcegão, digo, do ex-Capitão Nascimento.

E aí, espinafrando, Tropa 2 leva o Oscar ou não leva?

Depois dessa verborragia toda, qual é nosso veredicto? É: não, não leva. Por mais que tenha muitas qualidades e esteja acima da média do cinema tupiniquim, o espinafrando lembra que o filme não é perfeito e que essa média é baixa.

Esqueça a obsessão pelo Oscar (não é sempre injusto, afinal?) e aproveite esses filmes que são bem aproveitáveis. Vale mais a pena.

5 comments

  1. Acho que o cinema Brasileiro é o Real Madrid se esforçando muito contra o Cinema Argentino (Barça), que a cada 5 disputas leva quatro, pelo menos (e sem grandes esforços).

    Curiosa critica onde ao invés de se buscar os Arquétipos de mitos e figuras constituidas, busca-se nos quadrinhos e no cinema cult😉

    Por fim, gostei de ambos os filmes por serem bem acima da média (dos filmes em geral, que dirá do cinema nacional). Mas como não faço idéia e dificilmente verei os concorrentes estrangeiros, não dá para julgar.

    Filmes como o Japonês (A Partida, que levou o Oscar de filme estrangeiro há uns 2 ou 3 anos) dão um banho de sensibilidade que o cinema brasileiro jamais terá, com seus estereótipos de novela e teatro.

    • Calma lá, o 2 não é ruim não, é bem interessante até. Só não achamos que é a oitava maravilha que estão pintando com ufanismo.

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