rúcula X agrião: The Walking Dead

rúcula X agrião traz a comparação da mesma obra em duas mídias diferentes. Na salada de hoje, o embate entre The Walking Dead (a HQ de zumbis de Robert Kirkman) e The Walking Dead (a série televisiva de zumbis produzida por Robert Kirkman). Enjoy!

A HQ

The Walking Dead, ou Os Mortos Vivos, como foi batizado no Brasil pela editora HQM, é o atual supra-sumo das histórias de horror. Kirkman é o inventivo sádico responsável pelos roteiros. Tony Moore, com seu traço limpo e definido (e um tanto cartunesco) desenhou o pontapé inicial, o primeiro volume com as 6 primeiras edições em que a primeira temporada do seriado foi baseada, quando ainda há um fiapo de esperança para o grupo de sobreviventes liderado pelo policial Ricky Grimes. Com a entrada de Charles Adlard e seu desenho sujo e estilizado a partir do segundo volume (e cuja arte potencializa estes dois atributos a cada novo arco), o drama dos sobreviventes aumenta de forma inversamente proporcional ao perigo dos zumbis. Eles continuam lá, à espreita, mas personagens e leitores ficam mais calejados, acabam se acostumando com a praga e o terrível novo mundo, e o perigo maior, cada vez mais, vem dos humanos que não foram infectados e ainda assim perderam sua humanidade.

Tony Moore

Desde George Romero (ou seja, desde sempre), toda história de zumbi que se preza traz algum tipo de crítica social embutida. Os quadrinhos de Kirkman não são exceção. Na verdade, o roteirista extrapola a sociedade ocidental e critica a própria raça humana. A tese nem um pouco sutil é que diante de situações extremas, agimos de forma extrema. Uns mais que outros, alguns têm limites mais elásticos, mas no frigir dos ovos, não há laços familiares, de amizade ou de respeito pelo próximo que resistam quando estamos à beira do abismo. De forma nietzscheana, Os Mortos Vivos provam que ao olhar para o abismo, o abismo olha pra você. A pior das pragas não é o vírus zumbi, mas outra coisa bem mais contagiosa que atende pelo nome de histeria, seja individualizada, seja coletiva (ou de massa, como preferem os ingleses).

Charlie Adlard

O pior é que é difícil negar a tese quando a verossimilhança bate à nossa porta quase que diariamente. O maior evento recente do tipo que nós brasileiros conhecemos, e em especial os paulistanos, foi o famoso dia dos ataques do PCC que parou São Paulo e transformou a grande maioria dos cidadãos em pessoas transtornadas tentando chegar às suas casas a qualquer custo. Civilidade? Pffff… O pânico é uma força muito mais poderosa. Não é preciso voltar tanto no tempo: basta lembrar das revoltas na Inglaterra há alguns meses ou da reação exagerada da polícia de Nova York anteontem, contra o movimento pacífico #OccupyWallStreet. E também não é preciso de uma escala tão grandiosa: os recentes conflitos entre punks e neonazista em Pinheiros, as brigas de torcidas de futebol e os espancamentos coletivos de gays na Av. Paulista são apenas amostras do que o medo (ou pânico) do diferente (somados ao senso de carta branca que o coletivo traz, do tipo que mata qualquer regra de vida em sociedade) podem fazer com um ser humano.

A maior força desta história em quadrinhos está justamente no drama dos personagens. Nas escolhas que se veem “obrigados” a fazer. No desespero. Na falta que coisas bobas e supérfluas como televisão, internet, livros e música, lazer e escapismo, enfim, fazem para a nossa sanidade. E claro, em como temos uma necessidade intrínseca de viver sob um conjunto de regras, sejam quais forem – se as que estamos acostumados deixam de fazer sentido, como a vida regulada pelo dinheiro, por exemplo, precisamos substituí-las. E, por fim, como paradoxalmente somos tão propensos à irracionalidade como saída mais fácil.

Por tudo isso, você que subestima a força dos zumbis ou das histórias em quadrinhos ou do horror deve reconsiderar os seus parâmetros e dar uma chance que seja a Os Mortos Vivos. Leia sem pressa, comece pelo 1º volume (já são 6 publicados – 2 esse ano. E ouvimos dizer de uma fonte confiável que o volume 7 pode pintar ainda em dezembro…). E reflita sobre o que leu. Garantimos que, além de muita diversão, você também encontrará muito subtexto e filosofia no meio.

Os Mortos Vivos

Ou então seja um zumbi e não se importe.

A SÉRIE

Pra começar, um aviso pra você que é fã da série de TV da AMC americana ou da Fox brasileira e que nunca leu o material de origem: há grandes chances de você ficar com raiva do texto a seguir. Se for o seu caso, respire fundo e lembre-se que tudo é questão de referencial. E que não é nada pessoal.

A mordida: The Walking Dead, o seriado, é uma promessa vazia. Pronto, já soltamos a bomba logo de cara. Absorva o impacto e sigamos em frente.

A assoprada: The Walking Dead, o seriado, é um sopro de ar fresco na programação da televisão. Ironicamente, já que o cheiro de carne decomposta não é dos mais agradáveis. E falamos isso com conhecimento de causa, acredite.

O episódio piloto que abre a curta primeira temporada é um primor, daqueles de te deixar de queixo caído (ou pendurado, se você for um zumbi). E é o responsável por fazer o espinafrando perder a fé na série aos pouquinhos. O grande culpado é Frank Darabont. Se o desgraçado não tivesse elevado o nível até o máximo quando dirigiu seu único episódio (nos outros, atua “somente” como produtor e roteirista, ao lado da supervisão de Robert Kirkman), certamente a expectativa do que viria a seguir seria outra, bem como o quanto apreciaríamos ou não os resultados.

Cada um dos 5 episódios seguintes baixou um pouquinho a qualidade. Não sabemos dizer se é um problema de escalação de elenco (são os atores certos pros papéis?), de atuação (falta drama e espanto) ou de direção frouxa (bem provável). O principal fator de desapontamento, no entanto, é o tratamento que os roteiros receberam. Há uma ou outra mudança nos rumos da história e adição/subtração de um ou outro personagem, mas isso é salutar para os fãs da HQ: afinal, queremos e gostamos de ser surpreendidos. O problema é mais profundo: pelo menos nessa primeira temporada (e no primeiro episódio da segunda), as histórias puseram os zumbis como maior fonte de medo, eliminando justamente o algo a mais que existe nos gibis – as pessoas e suas (re)ações.

Mas isso é um lamento de quem sabe que poderia ser muito melhor. O show não é de todo ruim (ruim foram os cortes que a Fox fez quando passou a 1ª temporada por aqui, mas isso é outra história) e definitivamente continuaremos assistindo os próximos episódios, ainda mais agora que começará o arco da fazenda, ao que tudo indica, e que pode ser o tão esperado ponto de virada. O sopro de novidade que citamos ali em cima vem justamente do fato de termos uma série de horror com tratamento bem além do digno chamando tanta atenção, um fato raro na televisão. E além disso, estamos curiosos pra saber como a produção vai lidar com o arco da prisão (provável 3ª temporada) e com o Governador (5ª? 6ª?): estão nessas duas sequências o que há de mais hardcore em The Walking Dead, e tanto a AMC quanto a Fox BR terão que ter colhões para passar.

E aí, ficaram ansiosos?

4 comments

  1. Boa Epinafrada!!! sou totalmente adepto a esta opinião minha frustração aumentou ainda mais no fim do 1º episodio da 2 temporada, com aquela chamada da (AMC) para o próximo capitulo, deu a impressão de que a seria vai acabar com 2 temporadas, Adoro sangue, vermes e ver o bicho pegar nisso eles são bons ao meu ver mais em roteiro 6.0 vamos esperar, e espero tomar uma “zumbizada” na cara e assistir algo de nota 9,9. Parabéns espinafrando blog nota 10, sempre atento e “Games of Thrones” volta?

    • É isso aí, Felipe! Visualmente, a série é muito bem feita, mas falta algo a mais no desenvolvimento da história (algo que a HQ tem de sobra). Game of Thrones volta e meu palpite é que volta com tudo!

  2. Puxa, os traços do Adlard em outros gibis é bom, em TWD é nojento de ruim. Não é questão de ser estilizado ou mais sujo, e sim questão de desenho feito as pressas sem detalhes e com problemas que isso gera, como “baixa resolução” da cena, deixando boa parte das coisas na imaginação, ausência de fundos, espaços pouco definidos, dificuldade de identificar um ou outro personagem (normalmente só pela roupa, os rostos são iguais) e outro detalhe que acho muito ruim: pararam de fazer os tons cinzas, fica só a arte final pura, o que sinceramente acho menos expressivo.

    • Opinião registrada! Acho que nunca vi outro trabalho do Adlard além de TWD, então não posso comparar.

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