Dica Duca – Asterios Polyp

…a vida como ela é…

O que é Asterios Polyp? Quem acompanha as novas sobre cultura pop já deve saber que é um dos livros mais elogiados na gringa no último ano no ano retrasado (já faz tanto tempo assim?) e que por acaso vem a ser uma graphic novel (isso mesmo, uma história em quadrinhos com nome chique, pra dar um ar respeitável e não afastar os preconceituosos). Levou o Harvey e o Eisner, que são tipo o Globo de Ouro e o Oscar das HQs. A edição brasileira saiu no mês passado, pela Cia. das Letras.

Credenciais dadas, vamos mudar a pergunta: quem é Asterios Polyp? Essa é a questão que o autor David Mazzucchelli (dá-lhe consoante dobrada, hein?) se propõe a responder, ao longo de 320 das mais inventivas páginas da história das narrativas, desde que um parente do Piteco teve a ideia de riscar a parede de uma caverna com um pedaço de pedra pontuda para contar sobre sua última caçada.

porque é bom

Tudo começa com uma tempestade. É um bom jeito de começar uma história, embora um bom começo não signifique necessariamente uma boa história. 14 páginas mudas, onde o silêncio só é quebrado por onomatopeias, servem como ponto de partida para a jornada que o homem conhecido como Asterios Polyp empreenderá, numa busca por libertação, autoconhecimento, mudança e um sentido pra vida. Dito dessa maneira, soa bem mais Paulo Coelho do que a realidade que você vai encontrar. Apesar de profunda e com várias camadas interpretativas, a história não poderia ser mais acessível. Para qualquer tipo de leitor.

Asterios é um arquiteto de meia-idade, que já alcançou certo prestígio como teórico do design e que trabalha como professor universitário. Mora num apartamento bacana e aparenta boa saúde financeira. Pode-se dizer que é bem sucedido. Asterios é culto, preza a lógica, tem uma mente brilhante e é cheio de si. Tão cheio que pode ser tomado por arrogante –isso, claro, quando ele não se deixa levar pela pura e simples arrogância. Mas não está feliz. Há um buraco em sua alma. Um buraco em forma de mulher, como não poderia deixar de ser.

Um incidente desencadeado pela tempestade é a desculpa para o personagem praticar o desapego e abandonar tudo que (não) construiu até aqui, num típico esforço para encontrar redenção através de um recomeço. É também o início de um passeio pela vida de Asterios. Momentos do passado do personagem são pinçados em flashbacks, entremeados por suas desventuras no presente em busca de uma chance de futuro. Pra completar, as escolhas deliberadas sobre o que, o quanto e quando será mostrado desse mergulho na alma de Asterios Polyp são tomadas por seu irmão gêmeo natimorto, o narrador onisciente a la Brás Cubas, porém menos cínico, menos pessimista e com zero experiência no mundo dos vivos.

Apesar de não ser a atracão principal (essa fica um pouco mais à frente, quando respondemos porque a dica é duca), a narrativa-texto é uma boa surpresa repleta de surpresas. Surpreende por ser tão boa para um dos raros trabalhos de Mazzucchelli como roteirista (é o único que conhecemos – vai ver, ele sempre foi ótimo na escrita). Os diálogos são espirituosos e cheios de humanidade. As tiradas filosóficas, coisa de gente grande. E tudo é feito com um lirismo tão descomplicado que, ao mesmo tempo em que você sente que está lendo algo poético em forma de prosa, também não ofende o macho alfa que vomita (ou quer trucidar) ao menor sinal de sensibilidade.

O ritmo do roteiro é outro ponto alto: faz com que seja uma luta ter que largar o livro no meio sem querer virar a próxima página. Nem que seja para uma pausa breve. É gancho atrás de gancho, com a história avançando e retrocedendo conforme a conveniência, embora cada capítulo seja bastante autocontido.

Pelo tempo que a obra demorou pra ficar pronta (há controvérsias, mas os números giram em torno de uma década) e pela preocupação com detalhes, dá pra perceber que houve MUITO planejamento. Cada vírgula, cada onomatopeia, cada fonte escolhida pra um diálogo e até a posição do texto na página possuem um significado. Mas ao contrário de muita obra que preza pelas teorias da semiótica, os quadrinhos de Mazzucchelli não tem nada de pretensioso ou hermético. Se você não faz a mínima ideia do que seja semiótica, por exemplo, pode ler Asterios Polyp sem grilo que a diversão é garantida. Se você se interessa por signos, significados e significantes, leia também (e releia): o negócio fica cada vez melhor.

E fica a dica para as mulheres: dê Asterios Polyp de presente para sua cara-metade. Além de fazer um cara feliz (e de quebra você pode pegar emprestado), é possível que seu relacionamento melhore, como efeito colateral da história.

porque é duca

Se a narrativa-texto é boa, a narrativa-arte é duca! É coisa séria. Pra quem conhece apenas o trabalho de David Mazzucchelli nos clássicos super-heroísticos ‘Demolidor – A Queda de Murdock‘ e ‘Batman – Ano Um‘ (acompanhado em ambos pelo texto de Frank Miller), até a capa de Asterios Polyp já é um choque. E o que dizer do recheio?

Com um estilo mezzo cartunesco/mezzo modernista ou mezzo geométrico/mezzo orgânico, o autor constrói o que talvez seja a obra mais ousada em termos de estrutura como parte fundamental de uma narrativa desde Alan Moore em Watchmen, ou Will Eisner antes dele. Cores, enquadramentos e traços, ao invés de ajudarem a contar a história, fazem parte da história. Basicamente, temos aqui o caso mais próximo de emoção em forma gráfica de que se tem notícia.

O espinafrando tem pouco mais a acrescentar sobre Asterios Polyp, além de dizer que é um livro estimulante. Num exercício de humildade, vale dizer que não temos bagagem suficiente para analisar a obra (mas quem sabe inglês, pode sair daqui e ir direto pra esse artigo fantástico do New York Times, que acrescenta muito à leitura do gibizão: é só clicar aqui). Mesmo assim, podemos dizer que o maior mérito de Mazzucchelli é justamente a simplicidade resultante de toda essa complexidade. Criar algo de apelo universal sem cair no banal é um feito raro. Fazer isso e ainda adicionar profundidade é o que se pode chamar de obra de arte. Ou obra prima.

One comment

  1. Falaí galera do Espinafrando! Sou o autor do artigo sobre esta maravilhosa graphic novel no site Cinelogin e estou aqui retribuindo a visita. Bem legal o texto de vocês, parabéns! Asterios Polyp é realmente duca!

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