Mudinhas de Espinafre Especial – Parte 2

O Mudinhas de Espinafre trata de assuntos pop (quem diria?) que marcaram o dia-a-dia do @espinafrando no formato de pílulas. Ou seja, textos curtos e sem profundidade não tão curtos e nem tão rasos dessa vez. A ideia é falar um pouco sobre o consumo de conteúdo pop no mundo digital. Como dá pano pra fazer mais de um casaco, o assunto será dividido em 3 posts.

Quem já leu o último Comunicado, sabe que perdi os textos originais da 2ª e 3ª parte e por isso o atraso na publicação de ambos. Paciência. Enfim, na 1ª parte falamos um pouco sobre a Apple TV e como consideramos que dispositivos de streaming são o futuro da televisão. Agora, vejamos o que a iTunes Store tem a nos oferecer.

conteúdo digital

iTunes Store

Pra quem não conhece, a iTunes Store é a lojinha virtual da Apple pra conteúdo digital. Estreou no Brasil no fim do não passado, vendendo músicas e filmes. O catálogo varia de país pra país: nos EUA, por exemplo, além de maior variedade dentro dessas categorias, também é possível comprar programas de TV (e livros, no seu anexo, a iBooks Store). Ou seja, você pode pagar por tudo aquilo que encontra de graça (*cof* pirataria *cof*) pela internet afora. Embora às vezes pintem umas promoções, como quando baixei Allen Gregory, New Girl, Pan Am e o novíssimo The Firm (o seriado que continua a história do filme baseado no livro de John Grishan, A Firma), mas divago.

Particularmente, acredito muito nesse modelo de negócio e acho que vai pegar no Brasil assim como já acontece no hemisfério norte. Mais especificamente na seara dos filmes.

Revistas, HQs e livros ainda levam vantagem no papel (é mais gostoso de ler, o aspecto táctil é importante e é legal guardar a coleção em estantes), embora a experiência de consumi-los digitalmente em um tablet não seja de modo nenhum ruim.

Música, fica no meio do caminho: ainda gosto de CDs (e os LPs estão saindo da sombra dos sebos e voltando às lojas em lançamentos importados), o aspecto coleção e os encartes são bacanas, mas é fato que não uso um aparelho para tocá-los há anos — acabo convertendo para o formato digital e escutando a partir de iCoisas. Daí pra comprar um disco digital parece ser um passo natural, que provavelmente será dado nos casos em que não “preciso” completar uma coleção ou que não existam alternativas físicas que compensem o esforço (leia-se: edições ultraespeciais com libretos e afins). Aliás, já fiz isso com os New York Dolls e não me arrependo.

iTunes Store

No caso dos filmes, não vejo vantagem na mídia física. Tirando uma ou outra exceção, as caixinhas dos DVDs e Blu-ray Discs são uma pobreza em termos de coleção. Os discos correm o risco de arranhar (principalmente se você tiver filho pequeno metido a sabe-tudo). E os fatores técnicos relativos à qualidade de imagem e som, bem, sei que necessitam de compressão de dados pra transmissão em streaming com a velocidade de conexão que temos disponível hoje, e compressão significa perda de detalhes. Mas, na prática, você não sente falta de nenhum bit quando assiste aos filmes em HD (720p) e com áudio 5.1 disponíveis na iTunes Store. Ficam devendo só os extras.

E o que falta pra venda de conteúdo digital deslanchar? Diria que 3 fatores:

  • Percepção de valor: este é sem dúvida o maior desafio, já que envolve mudança radical de cultura. Às vezes, tenho a impressão que rola uma espécie de mentalidade escravagista do século XXI, quando o povo segue o mantra “se está na internet, tenho o direito divino de baixar de graça”. Ou então é uma reedição da Lei de Gérson. É o que leva alguém que gasta mil reais e cacetada num smartphone e pirateia apps de US$0,99. Será que é tão difícil assim chegar à conclusão de que alguém investiu tempo e conhecimento para criar aquele negócio que te diverte e traz satisfação e que é justo pagar por isso? Atire a primeira pedra aquele que nuca pirateou, etc. etc. Não estou posando de santo aqui. Já baixei coisas de graça? Sim, há muito tempo atrás, numa galáxia nem um pouco distante. Mas mudei meu jeito de pensar, virei “otário”. Prefiro pagar por aquilo que me trouxe satisfação, mesmo sabendo que às vezes existem alguns intermediários na transação e que apenas uma pequena parcela chega ao bolso do criador. É uma espécie de contrato social particular que fecho com ele: “ei, valeu por criar esse disco/filme/seriado/livro/HQ/app! Aqui está a sua parte. Espero que faça algo tão legal quanto da próxima vez. E logo!”
  • Percepção de custo: aqui, o negócio pega é com a indústria. 92% das pessoas que não se importam em pagar por conteúdo digital acreditam que os preços deveriam ser menores do que os produtos físicos (só faltou um “aponta estudo” nessa frase. Não, não é uma pesquisa séria, apenas inferência sobre o que ouço por aí). Afinal, os custos de uma operação virtual são muito menores do que o varejo tradicional: mão de obra, aluguel, condomínio, logística, merchandising… e quer saber? Tendo a concordar com essa lógica. O aluguel de um lançamento em HD na iTunes Store, por exemplo, sai por US$4,99 (cerca de R$ 8,90 + IOF), o preço de uma Blockbuster da vida. E se na vida real já dá pra considerar que é caro pagar um aluguel por 48 horas que custa 1/4 do valor de compra em definitivo, no mundo virtual parece que é forçar demais a amizade. Por outro lado, pagar US$5,99 por um disco com exatas 50 músicas do Ray Charles ou do Nat King Cole não me parece um mau negócio (ambos disponíveis na iTunes Store nacional). É isso que a indústria do entretenimento precisa sacar, a boa e velha Lei da Oferta e Procura. Não adianta ofertar conteúdo digital pelo mesmo preço do produto físico se não houver procura de gente disposta a pagar por ele. Agora, se o aluguel de filmes fosse ligeiramente mais barato, digamos, uns US$ 2,00, a brincadeira começa a parecer mas divertida.
  • Percepção de conveniência: esse é o ponto onde a turma do olho de vidro e perna de pau leva a maior vantagem. Vamos definir conveniência como a soma de velocidade, variedade e facilidade. Velocidade em disponibilizar é mais um paradigma que a indústria do entretenimento precisa quebrar e onde os piratas nadam de braçada: enquanto qualquer seriado que passa na TV americana aparece nos torrents horas depois de ir ao ar (inclusive os arquivos com legenda em português), temos pouco mais de um mês de iTunes Store e nesse período entraram uns 4 ou 5 filmes novos no catálogo. O que nos leva ao segundo ponto, a variedade: não é que o catálogo inicial da loja da Apple seja espetacular — na verdade, é bem capenga e ainda não justifica o investimento em uma Apple TV. Dos alegados 1.000 filmes na estreia, apenas 3 me chamaram a atenção. Desolador. Pras duas coisas, porém, ainda há esperanças se tomarmos por base a farta seleção da loja americana, que tem coisas novas toda semana. A chave da conveniência está na facilidade, e nesse quesito, a iTunes Store finalmente marca um ponto importante: a experiência de compra é espetacular! É muito fácil encontrar o que você procura e também o que não procura, ou seja, as opções estão ali na sua cara e te impactam para valer (leia-se: cuidado com as compras por impulso). E é bom lembrar que bastam dois cliques, login e senha e pronto: você pode começar a desfrutar em minutos, enquanto o arquivo é baixado. E com qualidade assegurada. Bem legal, né?

iTunes Store US

[se você se interessa pela mercado digital, recomendo a leitura deste ótimo artigo (em inglês). É sobre HQ digital, mas vale pra filme, livro, seriado, música e revista]

Finda a palestra, voltemos ao assunto principal. Mesmo com todos esses pontos negativos, a iTunes Store ainda tem potencial pra ser um sucesso. A interface é realmente boa e intuitiva. Todos os produtos trazem descrições, um botão para degustar alguns minutos (em filmes) ou segundos (músicas) e críticas de quem já comprou. Como num vídeo convencional, você pode dar pausa, avançar e retroceder. E o mais importante, se parar no meio, volta do ponto onde você deixou.

O aluguel funciona de um jeito bem interessante: você tem 30 dias para começar a assistir e, a partir do momento em que der play, são 48 horas pra ver e rever quantas vezes quiser. Terminado o prazo, o arquivo é apagado automaticamente. Um ponto relativamente ruim é que, ao contrário da compra, o aluguel só pode ser desfrutado no dispositivo em que você o efetuou (até dá pra burlar isso, alugando através do iTunes no computador e depois transmitir para outros dispositivos via Air Play, a tecnologia sem fio da Apple. Mas convenhamos, ninguém que tem a possibilidade de assistir na TV da sala vai querer ver num iPhone ou iPad). O principal é: você não tem que sair do sofá nem pra alugar, nem pra devolver. É como morar numa locadora, esse negócio em extinção.

Pra ficar bom mesmo, depende de melhorar o catálogo, os preços e disponibilizar lançamentos num ritmo mais acelerado. Ou seja, depende de acordos com a indústria do entretenimento e de uma estratégia comercial adaptada para nosso país. Como o Brasil é a bola da vez, não acho que seja esperar o impossível.

iTunes Store BR

[adendo: se você ficou curioso com os filmes que chamaram a minha atenção, foram Planeta dos Macacos: A Origem —meu primeiro aluguel, já que a Sra. Espinafrando ainda não havia visto. E mantenho todas as minhas opiniões vendo pela segunda vez—, o documentário do Senna —ainda não criei coragem— e a comédia Amizade Colorida, com a russinha Mila Kunis e Justin Timberlake, cujo trailer havia me chamado a atenção —meu segundo aluguel e, apesar de bobo, achei deveras divertido.]

***

Parece incrível, mas consegui reconstituir quase que 100% a 2ª parte desse especial. A 3ª talvez dê um pouco mais de trabalho (e tem outras coisas no forno pra essa semana), por isso, sem promessas. O mais provável é que saia na semana que vem. Como diria Didi (o cearense, não a ex-VJ): “aguarde e confie!”

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