espinafrando a estreia: Millennium – Os Homens Que Não Amavam As Mulheres

Mais uma estreia dupla no http://espinafrando.com: desta feita, o internacional Rodrigo Arijon (@arijon), o homem que dividiu as telas de cinema com Juliane Moore em Ensaio Sobre a Cegueira, foi conferir antes de (quase) todo mundo o que o Millennium do David Fincher tem a oferecer. O filme chega aos cinemas brasileiros nesta sexta, 27/01. Com a palavra, @arijon!

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Ao dirigir a versão americana de Os Homens que Não Amavam as Mulheres, David Fincher escapa um tanto do seu perfil autoral. Por mais que seja conhecido por filmes pop, cada qual a seu modo (vide Alien 3, Clube da Luta, O Quarto do Pânico, entre outros), ele nunca deixou de demonstrar uma visão pessoal (e consequentemente, uma assinatura visual) em suas obras, deixando claro que é um cineasta singular, longe de ser um típico carpinteiro da indústria (alguém como Martin Campbell ou Joel Schumacher, que estão longe de criar um legado temático através de seus filmes).

Dito isso, é obvio que é inevitável comparar as duas versões cinematográficas do livro do sueco Stieg Larsson. Acima de tudo, ambas não escondem sua vocação de entretenimento, como o sucesso do livro claramente atesta.Ou da trinca de livros: conhecida como Trilogia Millennium, narra as aventuras do jornalista Mikael Blomkvist e da hacker Lisbeth Salander. Como toda boa dupla policial, eles são totalmente diferentes um do outro, mas – surpresa! – se complementam perfeitamente na hora da ação.

Nesta primeira história, Mikael (Daniel Craig) é um jornalista reacionário que tenta expor os podres dos poderosos do mundo capitalista, através de sua revista Millennium (alter ego do próprio Larsson, que exercia o mesmo tipo de atividade). Depois de ser processado por um magnata sob a acusação de difamação, Mikael recebe o convite de um industrial sueco (Christopher Plummer) para investigar o assassinato de sua sobrinha, ocorrido 40 anos atrás. É a chance para se recuperar financeiramente e ainda conseguir provas contra aquele que o processou perante a Justiça.

Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres

Nada de original até aqui. Até porque o grande trunfo de Larsson ainda não foi devidamente apresentado: a personagem Lisbeth Salander (Noomi Rapace no original sueco, e Rooney Mara na versão americana). Praticamente uma delinquente sob os cuidados do Estado, Lisbeth trabalha como investigadora numa empresa de segurança, levantando informações e dossiês sobre o que quer seja. Tem um talento raro com computadores. E sua figura é bizarra, completamente não-amigável: uma espécie de gótica underground, com dificuldades de relacionamento social, tímida e extremamente retraída. Lisbeth não tem aquela likeable quality óbvia, que faz com que a platéia instantaneamente caia de quatro por ela.

Noomi Rapace X Rooney Mara

Enquanto Noomi Rapace segue esse papel à risca na primeira versão, criando uma Lisbeth autêntica e pouco amigável, Rooney Mara consegue elevar o patamar na hora da comparação. Isso porque ela injeta um tanto de humanidade e fragilidade na personagem. E não logo de cara. Isso vai sendo construindo aos poucos, quando o roteiro pede que Lisbeth se exponha mais e mais.

Mara, que já trabalhou com Fincher como a namoradinha que dá o pé na bunda em Mark Zuckerberg em A Rede Social, agarra com unhas e dentes a chance de mergulhar (inclusive fisicamente) numa personagem intensa e de um estilo pouco comum no cinemão contemporâneo. E o jeito sisudo e não-cômico de Lisbeth propicia justamente o contraponto de humor no filme –mais um ponto para Mara! Acredite, não é de espantar a indicação que ela recebeu ao Oscar desse ano (já foi indicada pro Globo de Ouro, merecidamente).

O filme sueco, acima de tudo, deixa bem claro a sua vocação para as massas. É um thriller bem realizado, com um roteiro envolvente e que conduz o espectador durante toda sua duração. Não tem pretensão de ser cabeça, tampouco autoral. É entretenimento a la Hollywood, só que feito na terra do tio Bergman. Já Fincher dá o seu verniz, enfocando bem o tema da obsessão, tão caro em sua filmografia (vide Clube da Luta, Seven, A Rede Social e o espetacular e subestimado Zodíaco). Zodíaco, aliás, é o parente mais próximo: ambos tratam de uma longa investigação criminal que dura décadas e afeta drasticamente a vida dos envolvidos.

Em comparação, a versão americana é visualmente superior (pombas, é David Fincher quem está dirigindo!); a vinheta de abertura movida a Led Zeppelin é um espetáculo à parte, digna de um clip do Nine Inch Nails; a trilha de Trent Reznor e Atticus Ross combina perfeitamente com o clima gélido da história (e é um alívio ouvir uma música instrumental que não é gravada por uma orquestra, just for a change); o elenco está afiadíssimo e adequado para a proposta (impressionante como todos os atores parecem suecos de nascença nesse filme).

Mas enquanto toda a parte estética está bem resolvida (sim, incluo o elenco nesse quesito), a história ficou inexplicavelmente mais confusa na nova versão. Com mais tempo na tela, realmente não dá para entender o que aconteceu. O primeiro terço do filme exibe uma narrativa desnecessariamente acelerada, onde os acontecimentos vão se atropelando sem que sejam absorvidos de forma apropriada pelo espectador. E isso pode ser nitidamente percebido no desenvolvimento dos personagens que formam a família da menina desaparecida: é tanta gente envolvida que você não sabe mais quem é primo de fulano e sobrinho de beltrano. A mesma dinâmica acontece no exemplar sueco, só que tudo ficava claro aos olhos de quem assistia. O diretor Niels Arden Oplev não inventou moda e entregou um thriller sólido, sem pretensões de ser memorável. Já Fincher ambicionou mais, resultando num filme com altos e baixos, mas (bem) longe de ser ruim.


O grande trunfo do roteirista Steve Zaillain foi mesmo dar mais espaço para Lisbeth Salander. O filme é dela. Com isso, também consegue aprofundar mais o relacionamento entre ela e Mikael e inclusive questionar se alguém tão outsider como Lisbeth teria alguma chance de vingar na vida (seja afetiva, pessoal ou profissionalmente).

A pessoa não tem conserto, é “errada”. Será mesmo? Lisbeth é uma mulher, ou melhor, uma garota que impressiona a todos – no bom e no mau sentido.

18 comments

  1. Adorei esse post: Millennium – Os Homens Que Não Amavam As Mulheres…Muita boa a crítica, mesclando conhecimento e habilidade na escrita, envolvendo o leitor em todos os aspectos que envolvem esse filme…Parabéns ao pessoal do espinafrando!!!!

  2. eu quero quanhar esta promo! os posts são sensacionais alem de dar um previa dos filmes, o cara manja muito de musica e devices kk espinafrando a 1000kph

  3. Assisti a versão original e gostei muito. Denso, com persongens complexos, suspense na medida certa e um desfecho surpreendente! Quero assistir esta refilmagem e comparar os dois.

  4. Acabei vendo o filme antes de ler o livro, não gosto de fazer essas coisas, mas confesso que não estragou meu interesse pelo livro pelo contrário aguçou mais a vontade de ler… Gostei muito do filme, e concordo que a história se torna um pouco confusa no começo, muitos personagens … família grande do caramba… Adorei também a abertura, demais!! O Destaque fica para Rooney Mara, impressionante!!! Bom é isso até a próxima!!!Beijokass

  5. Gostei mutchooo do post.É convidativo para assistir a versão americana e a sueca. E ler os livros tb. Só vi a americana e posso dizer que é bem bacana, concordo com tudo que o Ro disse. Achei intrigante e denso, mas longo demais.

    • Que bom! Eu e o @arijon definitivamente ficamos felizes com isso. E cruze os dedos: vai que ganhas o livro? Mais uma versão pra comparar!

  6. Adorei o post, parabéns ao @Arijon (já o estou até seguindo no twitter, pois me interessam outros posts dele), descreve exatamente as duas versões e suas diferenças. Adorei o filme, intrigante e apaixonante tb. Agora é cruzar os dedos prá ganhar o livro.

  7. Parabéns ao espinafrando e @Arijon pelo comentário do filme….realmente sensacional.
    Já assisti o filme e vale muito a pena.
    Dentro desse estilo, esse filme é o melhor que assisti nos ultimos anos.

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