espinafrando a estreia: Drive

E eis que o @espinafrando conseguiu uma babá de última hora e foi conferir nos cinemas, antes depois de quase todo mundo, Drive —o filme que ficou de fora do Oscar.

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Desde seu lançamento na gringa, há quase 6 meses atrás, tudo o que ouvi é que Drive é fantástico, o tipo de filme para adultos que não se faz mais, que ecoa o cinema 70/80 de Michael Mann, Steve McQueen, William Friedkin, Clint Eastwood, Martin Scorcese e afins. E ainda foi vencedor do prêmio de melhor direção no último festival de Cannes.

Mas, quando o filme passou em festivais aqui no Brasil, a crítica foi praticamente unânime em apontar que apenas a primeira metade era sublime, com a construção do clima. E que a segunda metade, o desenrolar do clímax, jogava tudo pro alto e não passava de um banho de sangue.

Foi com essas expectativas conflitantes que aguardei pela entrada do filme em circuito comercial. E foi acompanhado delas (e da Sra. Espinafrando) que embarquei na penúltima sessão do último sábado, completamente lotada. O que nos obrigou a sentar na primeiríssima fileira. Um desafio a mais para Drive: tinha que ser bom o suficiente para agradar e superar um torcicolo anunciado.

[aliás, já passou da hora dos cinemas interditarem as primeiras fileiras. É um disparate para o consumidor sentar num lugar em que dificilmente consegue apreciar o filme, como aquelas cadeiras em teatros e casas de show que dão de frente para um pilar. Alô, Procon?]

O que encontrei?

  • Um filme muito do interessante, bem acima da média, daqueles que merecem ser vistos pelo menos uma vez por ano.
  • Mais uma bola dentro do Ryan Gosling, que esteve ótimo em Amor à Toda Prova e fora-de-série em A Garota Ideal. Dizem que está supimpa no mais recente Tudo Pelo Poder, mas esse ainda não conferi.
  • Um diretor dinamarquês de mão firme que ainda não conhecia (Nicolas Winding Refn) e que tem um ou dois ases na manga.
  • Um noir moderno, apoiado em clichês, mas que entrega uma história sólida e original. E que poderia muito bem ser uma grande adaptação cinematográfica para um arco inexistente da hq Criminal, de Ed Brubaker e Sean Philips.

Drive é o clássico conto do anti-herói sem nome, um faroeste urbano. Gosling faz o papel do “Piloto”, homem misterioso, sem passado e sem futuro. Trabalha de dia como mecânico e dublê de filmes de ação, graças a suas habilidades na direção. À noite, vez ou outra e de forma independente, comanda o carro da fuga para bandos de criminosos. E tem tutano: sabe quando acelerar, quando usar habilidade e quando a melhor pedida é simplesmente não chamar a atenção. Não é ligado à ninguém e tem suas regras bem claras. Bem ao estilo de Leo, protagonista do primeiro arco de histórias da já citada Criminal.

Drive

Aqui, Ryan Gosling assume definitivamente o papel de “Tom Cruise” melhorado de sua geração —o ator cool, desejado pelas meninas e invejado pelos caras. Mas aprimorado, pois tem mais recursos que o ídolo d’antes. Apesar da montanha de clichês que soterra o personagem, temos que convir que alguém menos preparado poderia facilmente descambar para a paródia ou para a comédia involuntária. O “Piloto” é daqueles sujeitos lacônicos, fechados, que se comunicam 70% do tempo apenas com o olhar ou com aquele sorriso discreto de canto de boca, sem mostrar os dentes. Daria um bom jogador de pôquer: pode parecer afável, frio, poderoso e aterrorizante num piscar de olhos, sem nunca entregar o que realmente se passa em seu íntimo.

Se o “Piloto” é a máquina que conduz a trama, os coadjuvantes são o combustível que a alimenta. E todos, sem exceção, contribuem para que Drive tenha aquele algo a mais.

De um lado, temos o núcleo “redenção”, formado por Irene (Carey Mulligan, o pitéu de A Educação) e seu filho Benicio (o guri Kaden Leos). Vizinhos de apartamento, são a clássica família disfuncional (o pai está passando uma temporada na prisão) que oferece ao “Piloto” a estrada tortuosa para o romance, a chance de assumir a figura paterna para um quase órfão e o desenvolvimento do instinto de proteção da matilha do macho-alfa. Não que Irene e Benicio sejam os coitadinhos, longe disso. Dignidade não falta aos personagens e às atuações de Mulligan e Leos. Mas funcionam como aquela peça de quebra-cabeça com encaixe perfeito.

Drive

De outro, temos o núcleo “porta da esperança”. Um cara que dirige tão bem merece uma chance de sucesso como piloto profissional, não? Imagine o quanto não conquistaria, fama, dinheiro, mulheres, blá-blá-blá… O dono da ideia é Shannon (Bryan Cranston, de Breaking Bad e Contágio), o mecânico e ex-dublê que acolheu o “Piloto” e enxerga nele aquilo que não conseguiu ser. Como dono de oficina sem cacife, Shannon tem de recorrer ao patrocínio. Como bom noir, o patrocínio só pode vir do crime organizado. É aí que entra a dupla Bernie e Nino, vividos pelos elogiados Albert Brooks (Taxi Driver, Um Visto para o Céu) e Ron Pearlman (Hellboy). Bernie é o cérebro, o gângster modelo, que lidera e sabe quando ser violento. Nino é o judeu porra-louca, violento e inconsequente.

O cruzamento dessas duas vias, óbvio e inevitável, levará à estrada para a perdição. Que tem mão única e é sem saída. O momento em que o protagonista tem que mostrar do que é feito e fazer o que tem que ser feito, sem questionar e sem dúvidas. O catalisador? Não poderia deixar de ser o marido de Irene, o único, além do “Piloto”, com trânsito nas duas esferas.

Drive: Ryan Gosling, Albert Brooks, Bryan Cranston e Ron Pearlman

A trama é convencional para o genêro. O que torna Drive algo diferente é sua execução, particularmente a direção. O clima é construído meticulosamente, sem pressa. Em grande parte, graças à atuação contida de Gosling, explorada em cenas que abusam do plano/contraplano quando em diálogo com seus coadjuvantes (especialmente quando a conversa é com Carey Mulligan), ou em tomadas inventivas durante os passeios das carangas, que destacam a comunhão entre o motorista, a cidade e as máquinas através de reflexos nos vidros ou no retrovisor (grande trabalho de iluminação/fotografia!).

As imagens são icônicas, acompanhando a trama (note como o piloto está 90% do tempo nos extremos do enquadramento, reforçando seu caráter de indivíduo à margem do convencional).

Falando em estilo, é digno de nota a breguice calculada da direção de arte. Começando pela tipografia utilizada nos créditos iniciais e o casamento perfeito com a música estilão anos 80. Passa pelo figurino, com suas jaquetas jeans, culminando com o “uniforme de guerra” do piloto: a infame jaqueta branca de material sintético com um enorme escorpião amarelo nas costas. Talvez, o único traço de humanidade aparente do Driver, um quê de soberba (a dica de que ele se acha um super-herói fodão, o que justifica em parte suas decisões). O uso do branco na vestimenta é muito feliz, acentuando visualmente o contraste entre o início e o final.

Drive: Ryan Gosling e Carey Mulligan

Quanto ao propalado banho de sangue, não foi bem isso que encontrei. Ou pelo menos não é essa a expressão que usaria, já que remete a uma espécie de massacre desmiolado ao pior estilo Sexta-feira 13. A violência existe e é graficamente impressionante, pelo realismo. Me lembrou muito A Outra História Americana, filme pesadaço e muito bom sobre o neonazismo, estrelado pelo Edward Norton. Principalmente, não achei que a metade final trouxe ruptura ao clima do início. Ao contrário, faz parte do crescendo, da espiral, enfim, do que o arquétipo pede.

Drive tem apenas 2 pontos negativos: a falta de equilíbrio no uso dos coadjuvantes (tem Mulligan demais para Brooks e Pearlman de menos, completamente subaproveitados em face do peso de seus personagens e atuações) e uma última cena que, apesar de reforçar uma piada recorrente, poderia perder seus últimos segundos, deixando a conclusão em aberto para o cinespectador.

Enfim, se você ficou minimamente interessado pelo filme depois desse longo artigo, o espinafrando.com recomenda que vá ao cinema no máximo nesse fim de semana. Tudo indica que, a despeito de suas qualidades, Drive deve ficar pouco tempo em cartaz.

 

4 comments

  1. Finalmente assisti Drive, realmente só está passando em um cinema. Deveria passar em outros também, porque vale e a pena. Puta filme!!!
    Concordo com muitas partes da sua crítica. Mas confesso que da metade pro final o filme dá uma acelerada… Ryan está espetacular. Adorei a fotografia, iluminação e trilha sonora. Detalhe do palitinho no canto da boca..

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