Dica Duca – Lilyhammer

…o gângster que saiu de uma fria (e foi para frio)…

Lillehammer. Uma cidadezinha com menos de 27.000 habitantes do sul da Noruega, cuja temperatura costuma variar entre -12ºC em janeiro e 19ºC em julho. Foi palco das Olimpíadas de Inverno em 1994 e de um incidente internacional em 1973 envolvendo o Mossad (um garçom marroquino morto por engano, confundido com o líder do Setembro Negro, responsável pelo Massacre de Munique). Em 174 anos, foi o que aconteceu de mais emocionante na vida dos lillehamrings (como são denominados os nascidos na cidade). Isso, claro, até o final de 2011.

2012 chegou, e Lillehammer entra definitivamente para o vocabulário da cultura pop. Mesmo que em forma de corruptela. Não faz ideia do que estou falando? É porque ainda não foi apresentado à Lilyhammer, ou como estamos chamando aqui em casa, “a surpresa mais divertida na categoria ‘séries de TV’ do ano”.

Lilyhammer

Lilyhammer é a primeira série original produzida pelo Netflix. Estreou num canal da Noruega em 25 de janeiro deste ano e entrou para o catálogo mundial do Netflix em 6 de fevereiro.

[se ainda não aderiu ao serviço de vídeo on demand por streaming, ou se não faz ideia do que isso significa, leia esse artigo primeiro]

A história: Frank “The Fixer” Tagliano —ou Frank “do Jeitinho”, na ótima tradução das legendas— o protótipo do mafioso ítalo-americano das antigas, entra para o programa de proteção a testemunhas do FBI graças a uma delação premiada, após a morte de seu chefão e a ascensão do irmão rival à liderança da famiglia. Ele vira Giovanni “Johnny” Henriksen, imigrante “norueguês-americano” e vai estabelecer residência em Lillehammer, cidade pela qual se apaixonou vendo as olimpíadas de inverno pela TV. A mudança de ortografia no título do seriado é uma tentativa de reproduzir o sotaque carregado de Frank/Johnny.

 

porque é bom

Óbvio que a novidade despertou a curiosidade do @espinafrando assim que a notícia foi divulgada. Nem tanto pelo plot, que não tem nada de mais à primeira vista. Mais pelo ineditismo da situação: a empresa que é rotulada como ameaça às emissoras de TV por transmitir conteúdo quando e onde o espectador quiser, agora passa a produzir (!) conteúdo. Um passo a mais para o futuro livre do oligopólio da TV a cabo?

E logo no primeiro episódio (de 8, na primeira temporada), fui arrebatado. Não que seja a coisa mais genial que já vi na telinha (interessante como as expressões jocosas para designar o aparelho de televisão estejam ameaçadas de extinção com o avanço da tecnologia: caixa de fazer loucos, tubo e mesmo referências ao tamanho da tela começam a perder o sentido com os aparelhos modernos, cada vez mais finos, grandes e tubeless), mas o seriado é carregado de um frescor, um senso de humor negro e um enredo tão cativante que é praticamente obrigatório construir aquela relação de intimidade com os personagens, marcando um encontro toda noite para acompanhar o que diabos acontecerá nesse cafundó cercado pelas belas montanhas da Noruega.

[e o dia e o horário desse encontro é você quem escolhe, não precisa ficar preso a nenhuma grade de programação]

São pelo menos dois pontos que chamam a atenção de cara: a qualidade da produção, que lembra muito o estilo HBO de se fazer séries, e o carisma do protagonista, interpretado por Steven Van Zandt (que já fez Sopranos, aclamada série de mafiosos da HBO, e, surpresa!, é um roqueiro respeitadíssimo na vida real, membro da E-street Band de Bruce Springsteen).

As várias facetas de Steve Van Zandt

Mas Lilyhammer tem mais a oferecer.

porque é duca

A trama explora de maneira bem-humorada a questão das diferenças culturais. De um lado, você tem o típico gângster, acostumado a passar por cima da lei e de todos que ficam em seu caminho. De outro, uma cidade (e um país) que é sinônimo de correção e civilidade —pelo menos, em sua fachada. Primeiro vem o choque, quando Johnny descobre que o comportamento óbvio de NY é completamente alienígena em Lillehammer. Na sequência, invariavelmente, vemos o carcamano americano dobrar a civilidade norueguesa em algo mais a seu gosto, quase sempre com resultados hilariantes. E isso acontece o tempo todo, principalmente em atividades corriqueiras, como tirar uma carta de motorista.

Tirando o fator diversão, o seriado também suscita alguma reflexão: será que o homem é o lobo do homem, a maçã podre contamina o cesto et cetera ou a corrupção é parte intrínseca do ser humano, não importa a cultura ou o credo, e a única diferença é o quanto ela é aparente? Aposto que muitos de vocês que assistirem a série acharão familiares os métodos de Giovanni Henriksen: tudo a ver com o “jeitinho brasileiro” (daí o brilhantismo na tradução de The Fixer).

O elenco de coadjuvantes noruegueses é espetacular: destaques para Trond Fausa Aurvaag (que interpreta o idiota Torgeir, parceiro de Johnny) e Kyrre Hellum (o irmão gêmeo perdido de Steve Buscemi e um dos melhores personagens da série —o policial Geir Tvedt, que adoraria viver na realidade do seriado 24 Horas e que é cover do Elvis Presley nas horas vagas).

Steve, Trond, Steve e Kyrre

E as paisagens, filmadas in loco, são deslumbrantes.

Os 8 episódios são deliciosos, com uma estrutura narrativa que diverte e prende. Uma pitada de ação aqui, outra de mistério ali, muita comédia de erros, muita linguagem “inapropriada” (incluindo a melhor cena de reação pós-notícia-de-gravidez da história) e, principalmente, muita engenhosidade. Ingredientes que fazem essa série obrigatória para quem gosta de televisão. O único ponto que deixa a desejar é o continuísta, que se perde na passagem de tempo entre um episódio e outro. Mas, ei, é um deslize tão pequeno que não incomoda. Dá pra relevar com um jeitinho.😉

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