Mudinhas de Espinafre [21.03.12]

O Mudinhas de Espinafre trata de assuntos pop (quem diria?) que marcaram o dia-a-dia do @espinafrando no formato de pílulas. Ou seja, textos curtos e sem profundidade. Vamos a elas!

Séries

Parker Lewis (can't loose)

Um seriado datado de 1990, já foi um dos meus preferidos. E aparentemente, pouca gente chegou a conhecer. O primeiro contato foi na época negra da Record, quando era a 6ª emissora mais assistida (só ganhava da CNT/Gazeta), bem longe da potência de hoje (ainda que de gosto discutível, como toda a TV Aberta).

Na época, não havia TV a cabo. Só meia dúzia de canais e, se não me falha a memória, nem a MTV em UHF já existia (pelo menos, não no interior de São Paulo). O próprio conceito de seriado como o conhecemos hoje, nesse mundo pós-Friends e pós-Seinfeld, não existia. O que tínhamos eram os “enlatados”: Super Vicky, Primo Cruzado, Alf – O E.Teimoso e afins.

Super Vicky, Primo Cruzado, Alf - O E.Teimoso

Num belo dia, com o afastamento do bispo Edir Macedo, a Record decidiu investir numa programação mais experimental, mais ágil, voltada para o público jovem. Tinha um programa de videoclipes, o Kliptonita. E muitos seriados americanos, de um tipo que nunca tivéramos contato. A vedete era o ganhador do Emmy, Picket Fences. A expectativa era o lancamento de Arquivo X, prometida para novembro de 1994. Mas o que chamou a atenção foi um tal de Parker Lewis, que estreou em 5 de junho de 1993 (obrigado, arquivo da Folha!). E não foi só a minha: depois de 3 episódios, já ganhava matéria de destaque no extinto caderno TV Folha, assinada pela Bia Abramo, então editora do Folhateen. E alcançava a 5ª maior audiência da Record (o que não queria dizer muita coisa), “o único seriado jovem a entrar na parada dos 5 mais vistos em São Paulo no período”. Isso às 21:30 dos domingos.

Parker Lewis é descendente direto de Ferris Bueller: comédia metalinguística de highschool americano, protagonista carismático e sabichão, carpe diem, amigos/asseclas com personalidade (o gatão roqueiro, o geek), uma diretora de escola/arqui-inimiga histriônica (ah, Sra. Musso!), fauna escolar variada (saudades do grandalhão Larry Kubiak e do seboso Frank Lemmer), irmã mais nova pentelha, bordões e situações recorrentes (“nota mental”, “é hora de sincronizar os relógios”). E uma linguagem televisiva bem à frente de seu tempo: gags visuais a la Looney Tunes, surrealismo, diálogos com o telespectador, autoconsciência, enquadramentos fora do padrão. E sem claque! Pense nos melhores momentos de Scrubs (que veio 10 anos depois) ou Armação Ilimitada. Agora eleve ao quadrado. E depois ao cubo. Isso era Parker Lewis.

Parker Lewis X Ferris Bueller

Foram 3 temporadas lá fora. Na Record, durou quase 1 ano e meio, sobrevivendo a mudanças de horário esdrúxulas. O último episódio transmitido foi ao ar numa sexta-feira, primeiro de novembro de 1994, às 17:00, quando o programa era exibido diariamente, depois de Jaspion e antes de Jornada nas Estrelas —ô programador doido, sô!

Uns 10 anos depois, dei de cara com a velha turma em reprises no canal Sony. E foi só. Até essa semana que passou —o que fez trazer essa relíquia à tona para essas Mudinhas. Num zapping descompromissado, (re)descobri Parker Lewis: passa todos os dias, às 17:00, num daqueles canais da TV a Cabo que você nem faz ideia de que tem, o SonySpin. Melhor do que isso: descobri que não era uma questão de memória afetiva. O Sr. Lewis, o Sr. Randall e Jerry continuam chutando bundas, mesmo 22 anos depois. O @espinafrando recomenda.

Filmes

30 Minutos ou Menos

Comédia do diretor Ruben Fleischer (do excelente Zumbilândia), que repete a dobradinha com Jesse Eisemberg (A Rede Social, Adventureland) e que saiu direto em DVD por estas bandas. É esperta e ágil e vale a pena assistir. É daqueles filmes que alimentam o paradoxo inexplicável de por que tantas comédias péssimas do Adam Sandler são lançadas em circuito e tantas pequenas pérolas como essa e os filmes de Edgar Wright ficam restritas aos home theaters.

30 Minutos ou Menos

O ex-Mark Zuckerberg é um entregador de pizzas, daqueles que precisam entregar o pedido em até 30 minutos ou o cliente não precisa pagar. Por azar, ele acaba sequestrado pelo filho maluco de um ex-fuzileiro que ficou milionário na loteria, é preso a uma bomba-relógio e ganha a missão de fazer brotar 100 mil dólares para seu captor antes que o tempo se escoe e faça kabum. O motivo: o abilolado sequestrador precisa da grana pra pagar um assassino de aluguel para matar seu pai e, com isso, conseguir meter a mão no que sobrou da herança para, enfim, conseguir montar um empreendimento duvidoso com seu amigo, um tipo levemente autista e que se especializou na montagem de arsenais caseiros através de tutoriais da internet. Felizmente, Eisemberg também possui um comparsa, o descendente de indianos Aziz Ansari, que faz parte do elenco da ótima documédia™ Parks & Recreation.

Ou seja, é besteirol puro misturado com ação, na linha dos ótimos Pineapple Express e Hot Fuzz (outros que só saíram em DVD no Brasil). O antagonista, aliás, é Danny McBride, comediante da geração e estilo de Seth Rogen, e que faz um papel engraçadíssimo em Pineapple Express.

O grande charme de 30 Minutos ou Menos é que as duas duplas em oposição pensam e agem como se a vida real fosse um filme de ação, adicionando uma dose bem-vinda de metalinguagem (olha ela aí, de novo) e de falta-de-se-levar-a-sério a esse mistão.

Não espere muito das atuações, porém, já que o elenco, escolhido a dedo, é especialista em fazer sempre o mesmo papel.

HQs by Alan Moore

The League of Extraordinary Gentlemen: Black Dossier

O volume banido d'A Liga dos Cavalheiros Extraordinários. E meu Ulysses pessoal das HQs.

Pra quem não faz ideia do que se trata: a Liga Extraordinária é uma das obras-primas do mago Alan Moore, desenhada por Kevin O'Neill. A forma mais singela de descrever é “imagine uma Liga da Justiça no século XIX, formada por personagens ilustres da literatura mundial, em tramas de espionagem, ficção científica e ação”.

Mais explicações: “banido” porque esta derradeira edição da Liga Extraordinária lançada pela DC Comics nunca será publicada fora dos EUA, devido a inúmeros problemas de direitos autorais internacionais. Derradeira, porque foi o ponto final da relação de amor e ódio entre Moore e a DC — a partir daí, as aventuras da Liga passaram a ser publicadas pela Top Shelf. A obra de James Joyce entra como referência à minha dificuldade para conseguir terminá-la. Afinal, o clichê de que ninguém consegue terminar de ler Ulysses foi verdadeiro na minha –até agora– única tentativa (embora eu credite essa mácula no currículo à tenra idade com que comecei a leitura e à tradução antiquada, com mão mais que pesada. Espero a nova edição da Cia. das Letras para uma segunda empreitada).

The League of Extraordinary Gentlemen: Black Dossier

De volta ao Black Dossier: tendo adorado os 2 primeiros volumes da liga, e tendo me certificado de que nunca sairia uma edição nacional do Dossiê Negro, resolvi investir no importado há uns 7 ou 8 meses atrás. E há 7 ou 8 meses vinha tentando acabar a leitura. Apesar dos alertas do meu fornecedor de HQs, o problema nunca foi o inglês arcaico, até porque os trechos em inglês vitoriano não cobrem nem 10% do livro (e se você já leu alguma vez a obra de Shakespeare no original, ou o Thor de Stan Lee –ou mesmo o Twitter de Stan Lee– não será esse o problema). Na real, o que pegou foi que o livro é, heresia das heresias, chato e pedante.

Ou quase isso. Mas pra você entender, precisa conhecer a estrutura desta HQ. O Black Dossier é um arquivo montado pelo Serviço de Inteligência da Rainha com todas as informações documentadas sobre as atividades das várias encarnações e formações da Liga dos Cavalheiros Extraordinários. E o gibi (ou livro, que soa mais adequado) conta justamente o que acontece quando Wilhelmina 'Mina' Murray e Allan Quatermain, depois de abandonarem o serviço secreto, começam uma missão particular para roubar o tal dossiê. Estamos nos anos finais da década de 1950, logo após o fim do governo do Big Brother (aquele mesmo, o Grande Irmão de 1984, de George Orwell), o que por si só é algo curioso, já que as aventuras anteriores da Liga se passam no fim do século XIX. Mina e Allan conseguem sucesso em seu intento, não sem antes passar por uma escaramuça envolvendo uma versão muito particular e hilariante do James Bond. A partir daí, a narrativa em quadrinhos é intercalada com o conteúdo do dossiê, sempre que o casal para pra ler.

The League of Extraordinary Gentlemen: Black Dossier

Quem já leu os outros volumes da Liga ou mesmo Watchmen, já está acostumado com os anexos que Alan Moore costuma colocar ao fim das histórias em quadrinhos, expandindo o universo e experimentando com a narrativa. A diferença aqui é que os anexos aparecem durante a história e, na verdade, são a parte principal do livro. Há sacadas boas? Sim, como a primeira Liga fundada por Próspero (protagonista de A Tempestade, peça de Willian Shakespeare); a relação entre Dean Moriarty (On The Road do Jack Kerouak) e o Professor James Moriarty, arqui-inimigo do Sherlock Holmes; as bestas de H.P. Lovecraft; a terrível verdade sobre o satânico Dr. No. Infelizmente, o dossiê em si é verdadeiramente maçante (daí a demora pra terminar o livro). É um grande exercício estilístico, com mudanças de formato e Moore emulando diversos escritores. E talvez esse seja o problema: minha expectativa era ler o melhor de Alan Moore e não Alan Moore imitando Shakespeare ou Kerouak. Se eu quisesse ler Shakespeare ou Kerouak, iria direto aos originais. Não à toa, as poucas partes em quadrinhos (muito empolgantes!) são o que salvam o livro. Os textos do dossiê dão aquela sensação de que tratam de grandes histórias, grandes aventuras, coisas verdadeiramente importantes na cronologia da Liga Extraordinária, mas acabam sendo um porre. Por mais talentoso que seja o mago inglês, tem vezes que colar uma montanha de referências não é o bastante.

A Liga Extraordinária – Século: 1910

Essa é a história seguinte ao Black Dossier, e saiu no Brasil já há um bom tempo, pela Devir. É parte de uma planejada trilogia, e acompanha o desenrolar de uma trama por quase 100 anos. Direto e reto: olhando Século: 1910 isoladamente, não funciona. Seja porque os novos personagens que compõem esta versão da Liga não possuem o mesmo carisma e apelo de um Homem-Invisível, um Capitão Nemo, ou Jekyll e Hyde, seja porque esse primeiro volume não passa de uma grande e longa introdução, e como tal, pouca coisa “acontece” pra valer. É quase pra perder a fé no mais brilhante roteirista da santíssima trindade dos anos 80/90 (além de Moore, Neil Gaiman e Frank Miller fecham o triângulo).

A Liga Extraordinária – Século: 1910

Mesmo depois de dois pontos baixos, o @espinafrando alerta: quando se trata de Alan Moore, não julgue o livro pela capa. E cuidado com julgamentos precipitados.

O que nos leva ao próximo tópico.

A Liga Extraordinária – Século: 1969

A segunda parte da trilogia Século começa de cara com um “recapitula”. E foi o que me motivou a terminar de ler o Black Dossier, pois parecia essencial para entender o que acontece aqui. Terminada a lição de casa (e não, não é essencial, mas dá pra apreciar melhor 1969) e terminado o volume do meio, dá pra dizer que tudo volta a fazer sentido. 1910 ganha uma outra conotação. O próprio Dossiê Negro acaba parecendo mais legal do que enquanto você o lê. E o 1969 propriamente dito? Uma aventura digna das melhores da Liga. Kevin O'Neill esmerilha desenhando os swinging sixties e a cultura hippie. E se Mina Murray, ex-Harker (Drácula de Bram Stoker), sempre foi protagonista, desta vez rouba completamente a cena, deixando seus coadjuvantes Allan Quatermain (As Minas do Rei Salomão) e Orlando (de Vriginia Woolf) totalmente em segundo plano. Sem dúvida, em consonância com a época retratada: anos sessenta, revolução sexual, liberação das mulheres, queima de sutiãs… Mina sempre foi uma mulher à frente de seu tempo. Talvez, e apesar da crise existencialista que a acomete, o tempo finalmente a tenha alcançado pela primeira vez.

A Liga Extraordinária – Século: 1969

A história é uma loucura só, bicho, misturando ocultismo, rock'n'roll, drogas da pesada e sexo, morô? Há investigação, há vislumbres de grandes feitos, há mistério, há misticismo. E há um final completamente desconcertante, que só perde para o epílogo niilista já nos 70, em meio ao punk inglês. Século: 1969 vale cada centavo e cada minuto. Principalmente por melhorar os volumes anteriores e por restaurar a fé no barbudo chamado de “O Maior Inglês Vivo” por Neil Gaiman. Agora é esperar pela conclusão, Século: 2009, que ainda está em produção pela dupla Moore/O'Neill.

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s