Top 3 – séries dramáticas pós-Lost

A ressaca pós-Lost acabou. Depois de um longo período sabático dos seriados dramáticos, estou colocando as temporadas em dia.

Esses são os melhores em exibição atualmente. Uma seleção do que mais me chamou a atenção na televisão e que dá pau em 90% do que está ou esteve em cartaz nos cinemas nos últimos tempos. São exemplos vívidos do novo status quo: o crème de la crème da produção audiovisual está migrando/migrou do cinema para a telinha. Sad, but true. Só não dá pra cravar o motivo. A crise de criatividade de Hollywood deu espaço para a televisão florescer, ou os talentos resolveram migrar de meio, lançando a indústria do cinema na vala comum? Bem, sempre podemos culpar os executivos dos estúdios, não é?

Mas voltemos ao ponto. Em comum, todos os 3 seriados apresentados aqui possuem produção impecável, direção segura, atuações marcantes. Se tivesse que destacar apenas uma qualidade, diria que a força dessas séries está nos roteiros. São histórias bem construídas, que fogem do lugar comum, e, pelo menos uma vez por episódio, te surpreendem como uma porrada na fuça, daquelas de te deixar babando de língua de fora. E, óbvio, te fazem refletir, repensar, questionar, extrapolar. São histórias que aguçam a curiosidade, a imaginação e o senso crítico. O que mais você pode querer de uma boa ficção?

3.Mad Men (1ª temporada – 2007)

Na superfície, uma série sobre publicitários nos anos sessenta. Mas basta um mergulho nos primeiros episódios para encontrar um verdadeiro tratado comportamental sobre a evolução da sociedade. Um verdadeiro choque pra você que sempre idealizou os anos sessenta como uma profusão de cores e sons, Beatlemania, carangas bacanas, Elvis, cabeludos, swinging sixties, pensamento livre, Woodstock, flower power e afins. Ou, pelo menos, mostra que nem tudo nos anos sessenta foi assim.

Mad Men

Mad Men é sobre o cotidiano careta de quem precisa trabalhar. É sobre o ambiente competitivo de uma agência. É sobre uma dona de casa que sofre de depressão. É sobre Don Draper (vivido pelo espetacular Jon Hamm), diretor de criação fodão, macho-mais-do-que-alfa, inteligente, conquistador, marido e pai relapso. É sobre o mistério que cerca a identidade de Don Draper. É sobre sexismo e sexo. É sobre o confronto geracional. É sobre a alvorada das mulheres conquistando o espaço de trabalho, ainda que timidamente. É um contraste absurdo e cáustico em relação aos costumes de hoje, ao mesmo tempo em que mostra que certas coisas não mudam, apenas são atenuadas: grávida fumando e bebendo, discriminação racial e de gênero, álcool no trabalho, adultério a rodo, assédio sexual e moral. Mad Men é um retrato multifacetado de uma época, com personagens e histórias cativantes, moralmente questionáveis e apimentadas. Praticamente um novelão. Só que muito bem feito.

Curiosidades: a atriz que faz a esposa de um dos personagens mais odiáveis, Trudy Campbell, é Alison Brie, conhecida como a Annie Edison de Community, possivelmente a melhor sitcom pós-Seinfeld. E a linda January Jones, que faz a angustiada Betty Draper, fez uma insossa Rainha Branca em X-Men: First Class.

2.Breaking Bad (1ª temporada – 2008)

Definitivamente, a série mais punk da TV. E dizem que a 1ª temporada é fichinha perto do que está por vir. Se existe um completo oposto pra novela, seu nome é Breaking Bad. A história: professor de química durango, que faz jornada dupla num lava-rápido para complementar a renda, que tem um filho deficiente físico e uma esposa grávida, descobre que tem câncer de pulmão. Terminal. E o coitado nem fuma!

Breaking Bad

Fodido e mal pago, Walter White —numa interpretação visceral de Bryan Cranston, que antes foi o pai pateta na sitcom Malcon in the Middle e o dentista Tim Whatley de Seinfeld— se dá conta de que não há muito o que fazer além de tentar garantir um futuro para sua família (incluindo a bebê ainda não nascida). E encontra apenas uma solução para fazer muito dinheiro e rápido, graças a um encontro fortuito com um ex-aluno: aproveitar seus conhecimentos e habilidades em química pra se tornar fornecedor e traficante de metanfetamina.

O lance de Breaking Bad é que explora de forma extrema e oposta as consequências do mantra do Demolidor, o herói cego da Marvel: “um homem sem esperança é um homem sem medo“, frase que ficou definitiva na brilhante saga A Queda de Murdock, de Frank Miller e David Mazzucchelli. Enquanto o Demolidor tira força da sua falta de esperança para fazer emergir dali um herói, White percebe que, quando não tem nada a perder, não precisa seguir as convenções autoimpostas, não precisa se rebaixar para patrões exploradores ou aguentar um playboy folgado que acha que tudo pode porque tem grana e um carrão, por exemplo. Walter White começa a se tornar, aos poucos, uma segunda encarnação de Tyler Durdeen, a persona niilista de Clube da Luta. “Apenas depois que você perder tudo é que está livre pra fazer qualquer coisa”, como bem colocou Chuck Palahniuk. E acredite, atitudes extremas é o que não falta ao seriado.

E Breaking Bad não é um samba de uma nota só. Todas as tramas paralelas são excitantes: tem o moleque parceiro no crime, filho rejeitado de uma família de comercial de margarina; o cunhado durão que trabalha para o DEA (a divisão da polícia americana especializada no combate às drogas); [a partir daqui, tem spoilers para quem não viu a 1ª temporada. Marque o texto para ler] o filho com paralisia cerebral que se vê na iminência de ficar órfão e não sabe como lidar com a situação; a cunhada cleptomaníaca; a esposa grávida sem um pingo de empatia; os ex-colegas de faculdade, incrivelmente bem sucedidos e que, aparentemente, se deram bem graças às ideias de Walter; e, lógico, os traficantes concorrentes, que aos poucos precisam se ajustar ao modus operandi de um cara que tem um jeito e um produto mais refinado, ao mesmo tempo em que é um verdadeiro porra-louca fora de esquadro. [fim dos spoilers]

O único defeito desta primeira temporada é que o grande clímax, o momento mais puta-que-o-pariu, acontece no penúltimo episódio. Não que o season finale seja ruim, mas é difícil superar o bombástico episódio que o antecede.

1.Game of Thrones (1ª temporada – 2011 + 2ª temporada, episódios 1 a 3 – 2012)

Mad Men é bom, com sua crônica de costumes. Breaking Bad é ótimo, com sua escalada de imprevisibilidade. Mas nenhum seriado dramático supera atualmente Game of Thrones (baseado nos livros que compõem As Crônica de Gelo e Fogo de George R. R. Martin). Passada num típico universo de fantasia medieval, GoT (para os íntimos) é basicamente a história da disputa pelo trono de ferro. Ãhn? Ficou perdido? Deixe-me tentar novamente.

Imagine um continente fictício. Seu nome é Westeros. É dividido em 7 feudos, mais uma parte selvagem que fica detrás de uma superlativa muralha de gelo, onde pululam uma série de ameaças (povos bárbaros, lobos monstruosos e os White Walkers, uma espécie de zumbis, que poucos acreditam existir). Os 7 feudos ficam sob a égide de uma espécie de master-rei, que governa Westeros, aboletado no tal trono de ferro. 7 feudos significam 7 famílias de lordes e toda sorte de alianças e inimizades entre si. E cada família tem suas desavenças internas. Desenferruje seus conhecimentos de matemática e pratique um pouco de análise combinatória para entender a complexidade das relações e a fragilidade do master-reino.

Game of Thrones

Digamos que a coisa só não degringola de vez numa guerra sem fim porque há uma frágil aliança que une a todos contra um inimigo em comum: o inverno. Acontece que o clima em Westeros é caprichoso: os verões podem durar décadas, mas os invernos costumam persistir por gerações. E eles são bem frios. O suficiente para ameaçar dizimar boa parte da população, seja por doenças, seja pela fome (é agricultor em Westeros? Digamos que seria uma boa investir numa profissão paralela, menos sazonal). Estamos no fim de um dos mais longos verões dos últimos tempos e esse é o panorama geral.

Algumas famílias e personagens de destaque:

  • Os Baratheon: atuais donos do trono de ferro, graças a um golpe de estado. O rei Robert (Mark Addy, do ótimo Ou Tudo, Ou Nada) assumiu, depois de assassinar o “Rei Louco”, da família Targaryen. Robert é casado com Cersei, da família Lannister.
  • Os Targaryen: praticamente extintos após a revolução que matou o Rei Louco. Sobraram apenas seu filho Viserys, um engomadinho com delírios de grandeza, e sua irmã mais nova, Daenerys. Exilados além-mar, Viserys trama recuperar o trono de ferro usando sua irmã como moeda de troca para adquirir um exército bárbaro, os Dothraki.
  • Os Stark: não, não é a família do Homem de Ferro. São os homens do norte, liderados por Eddard ‘Ned’ Stark (Sean Bean, o Boromir de O Senhor dos Anéis), amigo de Robert Baratheon e que acaba se tornando Mão do Rei (uma espécie de 1º ministro). Um povo durão, honrado e antiquado, que ainda acredita nos velhos deuses e em (algumas) criaturas quase mitológicas (mas que um dia existiram). Seu feudo fica próximo à Muralha de Gelo. São rivais dos Lannister.
  • Os Lannister: não há heróis e vilões claros em Game of Thrones. Os Lannister são a exceção. A palavra que melhor descreve a rainha Cersei (Lena Headey, a rainha Gorgo de 300) é “bitch“. Seu irmão gêmeo, Jaime, não passa de um ególatra sem escrúpulos. O filho de Cersei, o príncipe Joffrey, é odiável (mais sobre ele no próximo top 3). E o anão Tyrion, o 3º filho de Lorde Tywin Lannister, é a exceção da exceção: perspicaz e carismático, é o típico anti-herói, um dos personagens mais complexos e legais da série, com um intérprete brilhante –Peter Dinklage, protagonista do subestimado O Agente da Estação.
  • Os Arryn: o patriarca era Jon Arryn, a Mão do Rei imediatamente anterior a Ned Stark. Era, por que Jon Arryn é assassinado logo no começo da história, no que dá início a uma trama sórdida de mistérios que, em última instância, leva Westeros ao caos. Sem Lorde Arryn (além do assassinato, a Mão do Rei é obrigada a deixar seu feudo pra viver em King’s Landing, espécie de Distrito Federal de Westeros), a casa degringolou. O Vale passou a ser governado pela Lady Arryn, irmã da Senhora Stark (casada com Ned), que abraçou a loucura da viuvez e criou o mais que mimado Robin, atual Lorde do Vale e que ainda mama no peito (!) aos 7 anos de idade. Curiosidade: Lino Facioli, o ator que faz o papel de Robin, nasceu e viveu em Ribeirão Preto, até os 4 anos, quando mudou-se com a família para Londres.
  • Os Greyjoy: Theon Greyjoy é filho e herdeiro de Lorde Balon Greyjoy, senhor das Ilhas de Ferro, e líder da única casa (acho eu) que domina os mares e a navegação. Theon foi tomado refém quando criança, numa contenda envolvendo a rebelião de Lorde Balon contra o rei Robert Baratheon, e foi criado pela família Stark. Um personagem sem muita relevância na 1ª temporada (que só serviu para mostrar que ele é bastante amigo de Robb Stark, herdeiro de Ned), mas que promete participar de uma trama interessante envolvendo seu pai como peça-chave na disputa pelo trono de ferro. Ou pelo menos assim pareceu até o 3º episódio da 2ª temporada. Lorde Balon, aliás, só aparece na segunda temporada.

Daqui em diante, fica difícil explicar porque Game of Thrones merece o 1º lugar deste top 3 sem entregar detalhes e surpresas da trama. Então, vou me ater ao básico.

Game of Thrones

Sordidez. Essa talvez seja a principal marca de Game of Thrones. Num nível para deixar de cabelos em pé os mais puros de coração. Já teve de tudo até aqui: prostituição, incesto, assassinato violento, assassinato sutil e premeditado, infanticídio, crueldade com animais, pedofilia… Não que isso seja o “charme”, tampouco o foco do seriado (embora sirvam para apimentar a trama e para desromantizar o gênero. Nesse sentido, Game of Thrones está mais para o Conan de Robert E. Howard do que para O Senhor dos Anéis de Tolkien). Mas mostra que os roteiristas não fazem concessões para contar a história. E por falar em concessões, ou na falta de, GoT resgata uma característica matadora das 2 primeiras temporadas de Lost: nada e ninguém são sagrados. Qualquer personagem pode morrer a qualquer instante, não importando sua aparente importância ou protagonismo.

O grande destaque, sem dúvida, fica para as manobras políticas e a dinâmica entre as casas. Há tanta traição e agentes duplos e triplos que é praticamente impossível não ser apanhado pelo inesperado de 3 a 4 vezes por episódio, no mínimo. Há muito uso de pensamento lateral para resolver os impasses (tipo aquele lance que Alexandre, o Grande, executou quando se deparou com o enigma do Nó Górdio: inenatável, ele simplesmente o cortou com um golpe preciso de espada).

Tudo isso para dizer que, ao contrário do primeiro parágrafo deste 1º lugar, Game of Thrones é a antítese do típico. Uma série que se mostra uma joia rara na ficção áudio-visual, inteligente, e que, até agora, não subestimou o telespectador em momento nenhum. É para quem tem coração forte e destemido. E pra quem gosta de se deixar levar numa viagem pra bem longe do óbvio.

 

5 comments

    • Valeu! Pena que não estou conseguindo postar com regularidade… foi praticamente um parágrafo por dia😦

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