Dica Duca – Daytripper

…memórias póstumas de Brás (de Oliva Domingues)…

 

Esse negócio de falta de tempo e de leitura acumulada acaba gerando injustiças. Vejam o caso de Daytripper, por exemplo: comprei o meu exemplar na última Fest Comix, que aconteceu em outubro do ano passado, e só fui ler a 1ª página nas minhas férias, em abril deste ano. Não fosse esse detalhe, a obra-prima dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá certamente teria lugar no Top 3 Melhores do Ano 2011.

porque é bom

A Marvel tem uma revista chamada What If, cujas histórias no Brasil quase sempre aparecem como tapa-buraco nos mixes de super-heróis. A premissa é “O que aconteceria se…” determinado evento crucial no cânone da Casa das Ideias tivesse um desfecho diferente.

Daytripper segue mais ou menos a mesma linha. A diferença: sai o povo de colante colorido, entra a vida de Brás de Oliva Domingues. Quer dizer, entra a morte de Brás de Oliva Domingues. Não. Também não ficou bom. O que acontece, na prática: Daytripper conta o(s) último(s) dia(s) de Brás de Oliva Domingues, aquele(s) momento(s) que poderia(m) definir uma vida, se o sujeito não morresse no final.

E antes que venha me acusar de estragar o final, saiba que a estrutura (e o charme) da HQ é justamente essa: matar o protagonista ao final de cada capítulo.

Mas reduzir Daytripper a apenas isso, além de simplista, é um atentado ao lirismo que os gêmeos imprimem a cada página, a cada quadro, a cada olhar, a cada balão e a cada silêncio. Além, é claro, de suprimir um detalhe importante: Brás morre ao final de cada capítulo, para reaparecer no próximo, em outro período de sua vida, às vezes adiante no tempo, às vezes no passado, como se nada houvesse acontecido.

E é assim, em contos sequenciais que abusam da metafísica, que vamos conhecendo a vida desse garoto/homem/velho, o que foi e o que poderia ter sido, incutindo no leitor a vontade de carpe diem, aproveitar o dia e viver a vida, repensar atitudes. Porque o acaso pode ser fatal.

porque é duca

Provavelmente, esse é o melhor quadrinho nacional já feito (nacional por ter criadores brazucas, que fique claro. Afinal, a série reunida em livro é uma publicação da Vertigo, o braço “adulto” da poderosa DC Comics). E isso não é um exagero. Tudo na concepção de Daytripper conspira a favor dessa conclusão.

O desenho tão característico de Moon e , ao mesmo tempo cartunesco e realista, atinge seu ápice de expressividade. Graças, também, à belíssima colorização de Dave Stewart.

Nos extras ao final do livro, Fábio e Gabriel comentam como o tipo de história que queriam contar dependia dos momentos silenciosos, de transmitir o que os personagens sentiam e pensavam. Garotos, se um dia lerem este texto, saibam que vocês mataram a pau! O não-verbal dessas pessoas (personagens que ganham vida deixam de ser desenhos, não é?) diz mais do que qualquer balão ou recordarório é capaz, por maior que seja a habilidade com as palavras que o roteirista possa ter. Principalmente os olhos: não há ninguém no mercado dos comics hoje que faça olhos —ou um olhar— tão eloquente quanto os desenhados por esses 2 paulistas.

Ainda não conhece o estilo? Recomendo o que já li/vi deles:

  • Pixu – HQ de horror cerebral e visceral, focada no climão ao estilo d’O Exorcista, feito à 8 mãos com os gêmeos + Becky Cloonan e Vasilis Lolos.
  • Umbrella Academy – desenhos de Gabriel Bá e texto de Gerard Way –frontman do My Chemical Romance (!). História de super-heróis das mais esquisitas, mirabolantes e cativantes, merecedora fácil de uma #dicaduca num futuro próximo.
  • E a tira semanal na Ilustrada chamada “Quase Nada“, todo sábado na Folha de São Paulo, uma espécie de prima mais nova de Daytripper, senão na estrutura, na temática que transborda humanidade e reflexão.

Outro ponto alto na arte, além das pessoas, são os cenários: São Paulo, Salvador, interior paulista, Rio de Janeiro. É muito bacana poder reconhecer num gibi lugares pelos quais você já esteve, o que é raro pra quem nasceu no Brasil e consome quase que 100% material criado/vindo de fora. E ainda mais bacana é descobrir que Acemira é um vilarejo fictício no Ceará, local de catarse, cujo nome significa algo como “faz doer, doloroso” em Tupi, de acordo com a web. E também é um anagrama de Iracema, figura recorrente na história.

E se elogiar arte de brasileiro em gibi americano felizmente já virou lugar comum no século XXI, destacar roteiro ainda é incomum, o grande ponto fraco dos quadrinistas tupiniquins. Portanto, o fato de Daytripper ter ritmo, ser bem escrito e gozar de uma narrativa assombrosamente bonita, me parece uma bela desculpa para chamá-lo de duca e dar o selo de provável melhor HQ já feita por brasileiros.

Sei que essa #dicaduca parece bem mais babona do que de costume. E sei que vai ter gente que não vai enxergar nada disso em Daytripper, vai achar piegas, sentimentalóide ou sem sentido. Ou qualquer variação na composição dos três.

Mas um gibi em 10 partes que te faz chorar 10 vezes, uma a cada capítulo, falando da vida sob o prisma da morte e de forma tão pessoal, ao mesmo tempo que universal (e com um título tão bom), realmente é algo que não se vê todo dia. Pode-se dizer que é foda, como os gêmeos gostam de falar.

Dê uma chance. Especialmente se você for pai. E depois conte o que achou.

 

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