rúcula X agrião: Hellboy

Neste artigo especial, a ideia é explorar as diferenças entre as encarnações de Hellboy, a mais famosa cria de Mike Mignola, em diferentes mídias.

Em 3, para ser mais preciso: a origem de tudo nas histórias em quadrinhos; os filmes de Guillermo Del Toro; as animações lançadas direto para o mercado de vídeo.

Hellboy nas HQs

Se você só conhece o vermelhão dos filmes, vai tomar um choque ao ler o material de origem. Tudo é diferente: o tom, as personalidades dos personagens, os enredos, a ação, os relacionamentos, o humor.

Senão, vejamos:

  • Nos quadrinhos, o Bureau de Pesquisa e Defesa Paranormal é menos uma versão Homens de Preto para monstros e mais um centro de investigação e catalogação de fênomenos.
  • Hellboy é menos um Hulk com arma e faz mais juz ao aspecto de detetive do sobrenatural.
  • O próprio protagonismo do dono do título é, por vezes, deixado de lado em favor de uma postura mais testemunhal nas histórias.
  • E, principalmente, Hellboy não se comporta como uma versão adolescente do Homem-aranha presa num corpo monstruoso —esqueça a tagarelice e a profusão de piadinhas (elas até existem, principalmente nas primeiras histórias, mas não na quantidade dos filmes).

Hellboy é um sujeito caladão, introspectivo, meio brutamontes mas com tutano, e absolutamente sem frescura (nesse sentido, bem mais próximo do Goon, como personagem).

Mesmo a trupe de coadjuvantes tem suas diferenças gritantes, a começar pela Liz Sherman, que não tem um pingo da emice (adjetivo; neologismo; “da qualidade de quem é emo”) da bela Selma Blair —que a interpreta nos filmes. Tampouco existe qualquer referência a uma possível paixão, mesmo que platônica, entre a pirocinética personagem e a besta do apocalipse pop. Quanto ao célebre Abe Sapien, Del Toro agrega ao personagem um poder inexistente nos quadrinhos, tornando-o um sensitivo nas telonas.

Poderia continuar apontando as discrepâncias, mas acho que mais do que já deu pra pegar o espírito da coisa. Tudo isso é só pra mostrar como meios diferentes exigem abordagens diferenciadas. Então, vamos voltar ao cerne da questão: o que faz de Hellboy nos quadrinhos algo único e que vale a pena ser descoberto?

Hellboy

Se tivesse que apostar em apenas um aspecto, colocaria todas as fichas nos enredos que exploram o folclore mundial.

Praticamente toda história de Hellboy, ou pelo menos toda história relevante, é resultado de extenso trabalho de pesquisa de Mike Mignola sobre lendas, mitologia e crendices populares de lugares como a Irlanda, Escandinávia, Rússia, Japão… —que acabam virando os casos sobrenaturais investigados pela trupe. E acredite: há muita coisa bizarra espalhada pelo mundo.

O bom é que todos os volumes publicados pela Devir por aqui vêm comentados, às vezes pelo próprio Mignola, a maioria pela editor Fernando Bertacchini, com as referências que só enriquecem as histórias.

Enaltecer a arte de Hellboy já é lugar comum na mídia especializada. O minimalismo brilhante de Mignola, com traços simples que ressaltam formas geométricas e sempre estão carregados de alto contraste e tons sombrios (são poucos os artistas que trabalham tão bem as sombras, criando uma estética próxima do expressionismo alemão) já são lendários —assim como o ritmo lento de seu trabalho, que o fez escalar o quase tão bom Duncan Fegredo para substituí-lo no lápis com mais assiduidade, a partir do 7º volume (O Clamor das Trevas).

Então, temos casos estranhos complementados por desenhos sombrios, o cenário ideal para histórias de horror. E é basicamente isso que Hellboy em quadrinhos oferece: horror ao estilo H.P. Lovecraft —não confundir com terror frenético baseado em suspense. O tema aqui é o peso do desconhecido, a sombra agourenta que paira ameaçadora sobre o destino e que tais, desenvolvido de forma lenta e inexorável.

Hellboy no cinema

A grande característica dos filmes de Guillermo Del Toro é… Bem… É que são filmes de Del Toro. Para o bem e para o mal.

O mexicano é um cineasta autoral. Mesmo quando trabalha sobre material de autoria de terceiros.

Em Hellboy e Hellboy: O Exército Dourado a coisa não funciona de modo diferente. Os eventos da origem nos quadrinhos estão lá, os personagens principais também, mas sob ótica e tom completamente distintos.

Não que isso seja algo ruim. Se parar pra pensar, até faz sentido: as histórias originais tem ritmo demasiado “lento” pra se fazer um filme. O tempo está do lado do leitor, não do espectador.

Numa HQ ou livro, há espaço para contemplação e reflexão. Pode-se estender a narrativa ou criar elipses entre uma cena e outra para a imaginação do leitor complementar como bem entender. É você quem decide acelerar ou pisar no freio. E, mais importante, não há limite orçamentário e tampouco obrigação de lucro absurdo na estreia, como bem apontou Warren Ellis na introdução de Channel Zero. Esse aspecto mais marginal dessa forma de arte permite mais liberdade criativa, principalmente quando os direitos pertencem ao autor.

No cinema, a coisa muda completamente de figura. Só pra produção ganhar sinal verde, são meses e gastos com planejamento, orçamento, pré-produção, etc. Há a pressão e os pitacos do estúdio, que invariavelmente falha em compreender os personagens e histórias adaptados. Você tem que pensar em audiências maiores para ter retorno financeiro. Consequentemente, públicos menos restritos. Fazer um filme com tema obscuro, e ainda por cima “parado”, é pedir para fracassar, considerando o público médio.

Daí que a opção em ressaltar a ação e humor, além de dar um viés de polícia pro B.P.R.D. em detrimento do aspecto detetivesco, são acertadas. Altera-se a essência de Hellboy nas tramas e personagens, mas mantém-se toques na construção das situações. E com um trabalho cheio de personalidade do subestimado Ron Pearlman.

Um grande exemplo é a abordagem para Rasputim e Kroenen: se nos quadrinhos o antagonista russo tem ares de ameaça velada e recorrente (servindo mais como inspiração para outros do que pondo a mão na massa), e o nazista mascarado é um eloquente cientista, no 1º filme cabe aos dois o papel de supervilões, completamente ativos e mortais. E Kroenen se transforma num exímio lutador lacônico.

Em Hellboy: O Exército Dourado temos um interessante paradoxo: embora muito mais deltoresco nos designs e com uma história inédita nas HQs —e ainda com ação desenfreada e dando sequência às personalidades apresentadas no 1º filme—, acaba se aproximando mais do material de Mignola enquanto exploração de lendas fantasiosas/fantásticas. Vide fadas-do-dente e o goblin aleijado.

Moral da história: não se engane e não exija fidelidade irrestrita em adaptações para mídias diferentes. Com todas as diferenças, Hellboy no cinema continua sendo um programão. É mais do que viável ser fã dos quadrinhos e gostar dos filmes, embora o contrário possa não ser verdade absoluta.

Hellboy nos desenhos animados

A 3ª e última encarnação do demônio é uma mescla das duas anteriores.

São dois DVDs, A Espada das Tempestades e Sangue e Ferro, que basicamente, simplificam as histórias publicadas em quadrinhos, injetando uma dose de diversão e suavizando o lado sombrio (mas não muito).

Um ótimo passatempo, recomendado para quem já é fã desse universo, mas que não traz nada de novo.

O elenco principal do filme dubla seus personagens nas animações —incluindo o mímico Doug Jones, repetindo seu papel como Abe Sapien. O curioso é que no 1º filme, Jones “só” interpreta o lado físico do híbrido de humano e peixe —a voz é dublada por David Hyde Pierce, famoso por interpretar o irmão do Dr. Frasier Crane na série derivada de Cheers. Pierce, no entanto, refutou aparecer nos créditos, pois considerou que o personagem foi criação de Jones.

Após o bom trabalho nas animações, Jones “ganhou” de Del Toro o direito de também fazer a voz de Abe no 2º filme.

***

Veredicto: não há um vencedor claro entre gibis, filmes e desenhos animados. Cada um parece atingir um público diferente, e todos se mostram passíveis de agradar quem gosta de Hellboy. A escolha vai depender do seu estado de espírito.

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s