espinafrando a estreia (2/2): Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge

A crítica e as impressões – SEM SPOILERS

Grandioso. É o adjetivo que melhor descreve o fechamento da trilogia de Christopher Nolan sobre o órfão bilionário que decide encarnar o medo para trazer esperança à população de uma metrópole.

Em The Dark Knight Rises, ou TDKR, Nolan repete o feito da 1ª sequência de Batman Begins e entrega uma vez mais o filme do ano.

De novo: O. Filme. Do. Ano.

(e, veja bem, ainda estamos em julho)

Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge
Batman poseur

A diferença é que tudo está numa escala muito maior, a ponto de fazer com que este filme suplante o excelente Batman – O Cavaleiro das Trevas. E falo isso com a maior frieza possível: a de quem terminou de rever a 2ª parte da trilogia há apenas 9 horas antes de se sentar em frente à enorme tela IMAX para ver a sequência.

Sem dúvida, superar o anterior não foi uma tarefa fácil, principalmente se levarmos em consideração o impacto da atuação marcante de Heath Ledger e seu Coringa, e o trágico desfecho que se seguiu na vida real.

Nolan tinha em mãos o famoso desafio autoimposto, o de superar a própria excelência, o mal que aflige quase todas as terceiras partes de trilogias. Nesse rol, já naufragaram franquias como O Poderoso Chefão, X-men e Homem-Aranha. Passaram raspando Alien, De Volta para o Futuro, Indiana Jones e Guerra nas Estrelas (para a maioria. Eu gosto deveras d'O Retorno de Jedi). Tiveram sucesso O Senhor dos Anéis e Toy Story.

E agora, Batman entra para o clube das exceções. Porque teve a coragem de fazer mais do que o esperado. De investir em história e roteiro. De criar cenas memoráveis dentro de um contexto que faz sentido. De desenvolver personagens ao limite, novos e antigos, principais e coadjuvantes. De aproveitar grandes passagens e conceitos de diversas HQs e de jogar fora o peso morto, o que não funcionou nem no papel e o que funciona no papel. De apostar num elenco surreal, que não se resume a nomes fortes apenas nas posições de protagonistas e antagonistas. E de conseguir arrancar atuações soberbas de praticamente quase todos os atores —é difícil apontar destaques, mas se fosse obrigado, citaria Michael Caine, brilhante, que te faz chegar às lagrimas na poltrona com suas lágrimas na tela.

(o pior é que agora me sinto em débito* com os outros atores. Se quiser, tem uma listinha ao final do post com um comentário sobre cada um, uma espécie de “extras”)

Chris Nolan e grande elenco
Olha aí o Nolan e a turma já fazendo bullying com o Michael Caine. Ninguém chamou o Alfred pra festa😦

A trilha sonora de Hans Zimmer merece um parágrafo à parte. Apesar de não ter uma melodia marcante como as marchas de John Williams, ou mesmo a espetacular trilha de Danny Elfman para o Batman de Tim Burton, é envolvente e empolgante. A sobreposição de tubas, trompas e tímpanos, pesada, opressiva e quase palpável a ponto de fazer tremer o cinema, é parte orgânica do filme, tão responsável pelo clima quanto as imagens poderosas.

E que imagens! Cada cena parece ter sido meticulosamente planejada para entregar e arrancar o máximo de emoção. A direção de arte merece parabéns.

Sobre o enredo, o quanto menos você souber, melhor. É um daqueles filmes em que é melhor ver para crer. A vontade é descrever e analisar passo a passo o roteiro para poder desfiar uma tonelada de referências pop, acredite, mas dessa vez vou me limitar a comentar apenas sobre a escolha do vilão principal.

Bane. Não é um arqui-inimigo clássico. Foi criado na década de 90 nos quadrinhos, por Chuck Dixon e Graham Nolan (até onde sei, nenhum parentesco com Christopher), com um único objetivo: quebrar o Cruzado Embuçado, primeiro o espírito, depois o corpo, numa trama longa que culminou com a saga A Queda do Morcego, da qual li parte e fiquei um tanto decepcionado, apesar de ter alguns bons momentos. Bane é basicamente o nêmesis do Batman, com intelecto e físico no mínimo equiparáveis aos de Bruce Wayne. Não é um estranho na telona, por ter participado de forma execrável do execrável Batman & Robin de Joel Schumacher (aquele dos bat-mamilos, com George Clooney no papel principal). O outro Nolan, o mentor dessa trilogia nos cinemas, reinventa Bane ao seu bel prazer, através de um irreconhecível Tom Hardy (que já tinha trabalhado com o diretor anteriormente em Inception). O resultado? Uma figura absolutamente assustadora e um personagem inesquecível, um desafio à altura do Coringa de Ledger e que, se não supera a atuação daquele, supera em vilania.

Bane
E aí, Bátima! Tudo em riba? Vem cá me dar um uta!

Outra coisa a que me permitirei comentar é sobre o uso do tempo. O Cavaleiro das Trevas Ressurge começa 8 anos após o último e se desenvolve por quase um semestre (!), ao longo de 2 horas e 44 minutos. E praticamente todas as cenas tem sua razão de existir. Mesmo que alguma pareça supérflua num primeiro momento, será importante para o avançar da história. A boa notícia é que as quase 3 horas passam voando. Eu, particularmente, saí com a sensação de que poderia assistir mais 2 horas de filme tranquilamente. A notícia que pode não ser tão boa para alguns é que há bastante recapitulação, algo bastante característico do diretor. Foi assim em Inception e O Grande Truque, e às vezes me pergunto se Christopher Nolan não deveria “perder” um pouco do controle e deixar o cinespectador mais livre para interpretar o que vê.

O filme é perfeito? Claro que não. Existem (poucas) falhas, algumas de edição, outras de roteiro ou de escolhas. Mas nada gritante ou que interfira no resultado final. Que, não custa ressaltar, é grandioso. E, se você não curte super-heróis, vale também o lembrete de que esse universo de Nolan, por mais que tenha uma pegada realista, ainda exige um certo nível de suspensão da descrença. Não faça como um amigo meu, que saiu do cinema em 1989 após assistir ao 1º filme do Homem-morcego de Tim Burton, exclamando: “não acredito que o Batman fez aquilo! É muito fora da realidade!”

(ao que respondi: “é lógico que é fora da realidade. É O BATMAN, pelamor! O que você esperava?”)

Batman e Mulher-gato brincando de Tron
Batman e Mulher-gato brincando de Tron

Por fim, não vou reabrir aqui a velha discussão sobre “é bom porque é sombrio”, até porque acho essa premissa uma idiotice dos marqueteiros de Hollywood. The Dark Knight Rises (e abro um último parêntesis para meu velho e batido mantra de que o título original, “O Cavaleiro das Trevas se Ergue“, é muito mais carregado de sentido do que a tradução brasileira) e o anterior The Dark Knight são fora-de-série porque ousaram ser mais do que uma grande aventura, como Os Vingadores —que continua sendo excelente. São fora-de-série porque se propuseram a, acima de tudo, fazer bom cinema com um bom cineasta. Uma lição para todas as adaptações de quadrinhos e, por que não?, para filmes em geral.

Extras

1) Dicas para aproveitar melhor a experiência:

  • Compre seu ingresso com antecedência pela internet.
  • Faça questão de ver em IMAX. E me agradeça depois. São várias sequências filmadas no formato, muito mais imersivo e espetacular que o 3D.
  • Se tiver a oportunidade, assista antes Batman Begins. Não é essencial, mas vais aproveitar mais.

2) *Pagando aquela dívida com o elenco:

  • Christian Bale – sai do automático e engrandece a lenda do Batman. Chega a lembrar seus melhores momentos em O Operário.
  • Gary Oldman – impecável.
  • Joseph Gordon-Levitt – o guri de 3rd Rock From the Sun virou um PUTA ator. A expressividade de seu rosto num tete-a-tete com Bruce Wayne é assombrosa. E que personagem bacana!
  • Anne Hathaway – por incrível que pareça, fez sua Mulher-gato fazer todo o sentido.
  • Marion Cotillard – fique de olho nos olhos mais doces em cartaz no século XXI. É sério: fique de olho.
  • Morgan Freeman – gênio da raça.
  • Matthew Modine – um personagem ingrato, levado com dignidade. Já passou da hora de ter sua carreira ressuscitada por Quentin Tarantino.

O grandioso elenco de The Dark Knight Rises
Tem mais 2 que eu queria citar, mas estou proibido pelo silêncio antispoiler.

 

3) O batido “separados-no-nascimento”

Joseph Gordon-Levitt / Heath Ledger
Joseph Gordon-Levitt / Heath Ledger

 

Brett Cullen (o congressista de Gotham City) / Sean Bean (o Eddard Stark de Game of Thrones)
Brett Cullen (o congressista de Gotham City) / Sean Bean (o Eddard Stark de Game of Thrones)

 

3 comments

  1. Texto excelente!!!
    Vontade danada de citar os dois atores interrogações aí em cima, como é duro ficar de boca calada!

    Parabéns pelo post🙂

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