nem na metade… [A Guerra dos Tronos]

Livro: A Guerra dos Tronos

Depois de assistir às duas primeiras temporadas de Game of Thrones na HBO (e adorar), decidi tirar o atraso e encarar o primeiro livro d'As Crônicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin.

Como se pode notar pela categoria do post, ainda não cheguei à metade das 592 páginas de A Guerra dos Tronos (quando comecei a escrever, estava na 194). Mas já li o suficiente pra dar os primeiros pitacos.

A Guerra dos Tronos
Só um pouco atrasado na leitura: o livro é de 1996, lançado no Brasil em 2010, comprado pelo @espinafrando em 2011 e iniciado em 2012.

Pra começo de conversa, a tão badalada estrutura do livro: cada capítulo (não numerado) é a visão intercalada de um dos personagens principais sobre determinada passagem das Crônicas. O que deveria significar perspectivas bem pessoais sobre os acontecimentos. Deveria, porque o narrador onisciente em 3ª pessoa tira muito do impacto. Não há mudança significativa na linguagem e sobram poucos pensamentos dos personagens divididos com o leitor.

Se pelo menos houvesse um toque de circularidade na narrativa, como em Pulp Fiction, a badalação em torno dos capítulos-personagens poderia se justificar: algo como se a história avançasse sob determinado ponto-de-vista (de um Stark, por exemplo) e depois retrocedesse para ser contada sob o olhar de outro (um rival Lannister). Até aqui, no entanto, tudo tem corrido em ordem direta e cronológica —e não há indícios de que isso vá mudar. São sequências de Eddard, Bran, Tyrion, Jon, Catelyn, Daenerys, sempre com um fato adiante (mesmo que ocorrendo em outro cenário).

Já que toquei nas questões de linguagem e de estilo, sigamos por esse caminho. Duas coisas saltam aos olhos de cara: a insistência de George R. R. Martin em emular o estilo de J. R. R. Tolkien (o cabra faz isso até na abreviação do próprio nome!) e as escolhas questionáveis da tradução em português.

O primeiro tópico é mais latente nos primeiros capítulos, com as detalhadas descrições Tolkienianas. Só que Martin não tem a técnica nem a verve do linguista de Oxford e acaba soando como literatura barata. Felizmente, depois de algumas dezenas de páginas, ou a coisa melhora ou você acaba se acostumando.

Talvez isso seja culpa da tradução, mas não posso afirmar com certeza. Sei que me arrependi muito de não pegar pra ler no original. E sei também que a Editora Leya deu uma tunga: pegou a tradução portuguesa de Jorge Candeias (que dizem ser ótima) e deu uma abrasileirada à revelia do tradutor (inclusive trocando alguns termos que deixam de fazer sentido, como o próprio Jorge esclarece neste post).

Uma das escolhas que mais me desagradou até aqui é um mero detalhe: o uso de “Sor” para designar os nobres (como em “Sor Rodrik”). Incrivelmente, não é culpa da Leya. E tampouco de Jorge Candeias. Sem conhecer o texto original, imaginei que fosse uma corruptela de “Senhor” utilizada em Portugal, o equivalente ao “Sir” inglês. Para mitigar a dúvida, entrei em contato com o tradutor, que veio com uma justificativa pra lá de coerente. Com a palavra, Sor Candeias:

Nem uma coisa, nem outra.

Nem sor é de uso comum em Portugal nem é fruto das intervenções da Leya. Nem sequer é o equivalente a sir em inglês. A coisa é mais complexa que isso.

Acontece que o Martin, nas Crónicas, inventou um título honorífico. Ele não usa “sir”. Usa “ser”, que foneticamente, em inglês, pode ser muito semelhante e é uma clara derivação do título existente.

Ao começar a tradução, tive de decidir o que fazer com esse “ser”. Deixar no original podia levantar problemas dado nós termos em português o verbo “ser”. Fingir que o Martin tinha usado “sir” e não “ser” não me pareceu apropriado. Era desrespeitar a opção do autor. Portanto optei por adaptar a coisa, através, sim, de uma corruptela de senhor.

Ou seja: nisso, a culpa é inteiramente minha.

É engraçado como contexto faz toda a diferença! A partir dessa explicação, Sor deixou de me incomodar e Candeias ganhou minha absolvição.

(mas Martin ainda está no banco dos réus. Pelo menos, até que eu leia a continuação em inglês)

Retomando o raciocínio: mesmo que A Guerra dos Tronos não chegue aos pés de um Garcia Marquez ou Machado de Assis ou Joyce, em termos literários, não é essa a sua proposta. E nem é a do gênero literatura de fantasia, com raríssimas exceções (Shakespeare?). Sua qualidade está na invenção de mundos e histórias. Nisso, Martin acerta. E com mão cheia.

A última coisa que tenho a dizer neste nem na metade… é sobre a (ausência de) diferença entre a 1ª temporada da série de tv e o 1º livro. A adaptação pras telas foi praticamente ipsis literis —pelo menos até a página 194. A única mudança que realmente se faz notar é a respeito da idade dos personagens: no livro, Eddard Stark (interpretado pelo cinquentão Sean Bean) está na casa dos 30. Seu filho mais velho (Richard Madden na tv, 26), considerado homem feito, tem 15 anos. E isso é MUITO legal, considerando que a expectativa de vida num simulacro de Idade Média não deve passar dos 50.

Eddard & Rob Stark
No livro, o tio da esquerda é balzaquiano e o tio da direita é debutante.

Resumindo: A Guerra dos Tronos está sendo um livro supimpa pela trama, nem tanto pelo texto. Se você ler bem em inglês, pegue o livro gringo. Tenha paciência com os primeiros capítulos: é só vencer a inércia que o negócio começa a ficar bão. Recomendo pra quem curte uma fantasia medieval ou já é fã do seriado da HBO ou simplesmente está afim de uma boa história regada a sexo, violência, intrigas e traição.

 

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