Dica Duca – Transmetropolitan

…you want the truth? You can’t handle the truth!…


TRANSMETROPOLITAN ISSUE #1

Publisher:Vertigo

Transmetropolitan foi uma das melhores séries de uma tentativa da DC Comics em criar um selo de quadrinhos de ficção científica chamado Helix (mais tarde, foi absorvido pela Vertigo, o lugar para HQs com temática adulta).

Possivelmente, é a obra-prima de Warren Ellis —um dos mais prolíficos autores britânicos das últimas décadas em quadrinhos, TV, cinema e literatura.

No Brasil, já foi publicada parcialmente pela Tudo em Quadrinhos e Brainstore entre 1999 e 2003. Mais recentes são as 2 belas edições encadernadas da Panini, ainda encontráveis nas boas livrarias. E o terceiro volume, com o dobro de páginas, sai agora em outubro de 2012.

Transmetropolitan - Warren Ellis & Darick Robertson

porque é bom

Trasmetropolitan se passa num futuro distante cada vez mais próximo e trata de temas cada vez mais atuais, através dos olhos de Spider Jerusalém —ser humano escroto, egoísta e desprezível. E jornalista inigualável em busca constante pela VERDADE, doa a quem doer. Um primo distante e cyberpunk de Will McAvoy, o âncora de Newsroom.

Enquanto Newsroom tem uma visão deliberadamente otimista, um verdadeiro farol para mostrar um caminho do bem, o universo criado por Warren Ellis é cínico, povoado por gente cada vez mais autocentrada e individualista. A começar pelo próprio Jerusalém. Quando abre a boca, quase sempre é pra insultar alguém, mostrar o seu desdém, destilar paranoia e, vez ou outra, pra soltar uma pérola de sabedoria. Mas quando escreve, se transforma num agente da mudança. É para abalar estruturas de forma incisiva, um verdadeiro serviço de utilidade pública e um guia moral para a sociedade.

Sendo um apreciador contumaz de tudo o que Ellis produz, fiquei intrigado por uma possível semelhança entre personagem e criador. Seria Spider Jerusalém uma espécie de alter ego de Warren Ellis?

Warren Ellis x Spider Jerusalém
Spider Jerusalém: Tá louco? Eu não sou o punheteiro do Warren Ellis. Eu sou Alan Moore!

Com a palavra, o próprio: “Não. Eu não deixaria esse bastardo entrar em casa.”

Entrevista exclusiva com Warren Ellis

E foi assim que comecei mais uma entrevista internacional EXCLUSIVA, haha. Dessa vez, com um ícone das HQs, mestre das palavras e o mais próximo do que posso chamar de ídolo. Você, caro leitor, acompanha agora em uma tradução livre.

@espinafrando: Spider Jerusalém. Há uma pessoa em particular em quem você tenha se inspirado para criar o personagem? Em caso positivo, quem e por quê? (Hunter S. Thompson, talvez?)

Warren Ellis: Hunter Thompson certamente foi uma das principais fontes de inspiração, mas houve muitas, incluindo [H. L.] Mencken e [Tom] Wolfe.

@e: Como você vê Transmetropolitan hoje, 15 anos depois de sua publicação original? Quero dizer, dos seguintes pontos de vista: a) com os avanços da tecnologia, a internet como mídia e da forma como nós nos relacionamos com nossos smartphones, sempre conectados (acho que vivemos numa realidade a cada segundo mais próxima do futuro de Transmet); b) em termos de escrita, como você se sente olhando pra trás? Mudaria alguma coisa? Por quê?

WE: Não tenho olhado esses livros em muitos e muitos anos, então não posso responder de fato pra você. Mas, em geral, eu quero mudar tudo o que escrevi duas semanas após tê-lo feito. As pessoas vêm a mim quase semanalmente pra apontar algo no mundo e dizer “isso é igual a alguma coisa em TRANSMET” ou “isso é tudo culpa sua” ou “eu gostaria de queimá-lo agora por bruxaria.” Cada nova temporada política vomita uma figura a quem as pessoas imediatamente veem como um similar ao Sorridente. [nota do @e: The Smiler é um personagem de Transmet, um candidato à presidência que Spider vê como o menor dos males, mas quando eleito se prova um louco da ultradireita] Mas eu prefiro não me declarar um profeta ou mágico, fazendo gestos com as mãos.

@e: Você assistiu Newsroom ou The Hour? Em caso positivo, como você compara Spider Jerusalém com os personagens Will McAvoy e/ou Freddie Lyon? [nota do @e: The Hour é um seriado da BBC sobre a redação de um programa jornalístico nos anos 60, disponível no Netflix. Freddie Lyon é um personagem jornalista e idealista. Crítica em breve]

WE: Não vi The Hour, mas me sujeitei ao piloto de The Newsroom. Não há uma comparação, de fato, a ser feita entre Spider Jerusalém e Will McAvoy, eu acho, não apenas porque McAvoy é uma figura tão medíocre. Quero dizer, pode existir o caso de que a mídia da tv americana mainstream está cheia de pessoas que estão por demais amedrontadas para dizer o que pensam (e, como na figura em que McAvoy foi modelada, Keith Olbermann, pode acontecer que eles têm pouco interesse em dizê-lo mesmo quando estão *livres* pra isso). Mas isso não pareceu impedir Bill O’Reilly, não é? McAvoy é um avatar do horror “intelectual” liberal americano de que eles são vítimas da Grande Sociedade Moderna Estúpida. Na verdade, deixe-me adicionar uma outra palavra ali — “americano *velho.” Porque Newsroom é certamente também sobre o desejo de homens fortes em conduzir para a luz os tolos e maricas. Achei que a coisa toda é um pesadelo misógino fossilizado. Gosto de pensar —espero desesperadamente— que mesmo tendo sido há 15 anos atrás, quando eu era jovem e estúpido, que TRANSMET foi um livro mais bacana com pessoas que não são homens brancos.

@e: Tem algo a dizer para seus fãs brasileiros? (não, eu não quero provocar um novo #brasilgate) [nota do @e: #brasilgate foi como Warren denominou um episódio em que foi claramente mal interpretado no twitter e ganhou a ira dos trolls brasucas da internet]

WE: Estou bastante a par de que não tenho fãs no Brasil. Nem entendi muito bem o porque de você querer uma entrevista comigo.

Transmetropolitan
That’s all, f-f-folks!

(pra quem quiser, publico a íntegra em inglês ao final do post)

porque é duca

Transmet (como é carinhosamente chamada pelos fãs) é um belo de um exercício de futurologia, a ciência (?) inexata que tenta prever os rumos que a tecnologia e a sociedade tomarão nos anos por vir.

Nas matérias de Spider Jerusalém (há nome mais legal do que esse para um personagem?), desfilam temas como transgêneros, consequências da criogenia, consciência digital, preservação de sociedades históricas, racismo, o poder da mídia, o poder das corporações, o poder das religiões, os abusos do marketing, a onipresença da internet, mutações, fetiches e gadgets tecnológicos.

Tudo abordado de maneira bizarra, elevado à enésima potência e assustadoramente realista. Bem, real até o ponto em que uma história do futuro permite. Na verdade, a coisa toda é meio hiperreal, completamente caótica, como se fosse uma daquelas cenas em fast forward de Réquiem para um Sonho. Tudo acontece ao mesmo tempo.

A arte de Darick Robertson, detalhista, colorida e com layouts abarrotados de elementos contribui para essa sensação de claustrofobia da metrópole. Lembra muito o estilo de Geof Darrow e Frank Quitely, que inclusive são capistas da série. Apesar de causar um certo choque no início —principalmente pra quem está acostumado com algo mais sóbrio— casa muito bem com o roteiro primoroso de Ellis.

Além da temática, interessante por si, o desenvolvimento das tramas de Transmet é puro deleite. Te prende até a última página e deixa você louco para saber o que ocorre a seguir.

Spider é um cruzado solitário, contra tudo e todos. Suas reportagens são ácidas. Seu objetivo é demolir paradigmas sob o peso da verdade, apenas pelo tempo suficiente para se sustentar até conseguir escrever os dois livros que é obrigado por contrato com sua editora: um sobre política e outro de tema livre. Nem que pra isso tenha que colocar sua própria vida (e a dos que o cercam) em risco.

(o contrato foi fechado há 5 anos e o dinheiro adiantado foi gasto em armas, comida, tv a cabo e uma casa isolada da civilização e sua podridão inerente. A história começa exatamente no ponto em que Jerusalém é cobrado a concluir seu compromisso e tem que abandonar o exílio autoimposto)

Como último argumento, uma seleção de frases de Spider Jerusalém pra ilustrar o peso do texto de Ellis:

  • “O jornalismo é simplesmente uma arma. E só tem uma bala, mas, se você mirar direito, é tudo de que você precisa.”
  • “Desculpe. Essa observação foi muito pesada pra você? Isso se parece demais com a verdade? Vão se foder. Se alguém nesta merda de cidade desse um cu de cachorro morto sobre a verdade, isto não estaria acontecendo.”
  • “Vocês devem gostar de quando as pessoas que detêm a autoridade e que nunca fizeram por merecer mentem para vocês.”
  • “As únicas ferramentas de verdade que temos são nossos olhos e nossas cabeças. Não é o ato de ver somente. É compreender corretamente o que vemos.”
  • “De qualquer maneira, não se aprende jornalismo na escola. Você aprende fazendo jornalismo, caralho.”
Spider Jerusalém

Não sou jornalista (esse blog é apenas um hobby), nem fiz faculdade de jornalismo, mas gosto de pensar que a essência de Transmetropolitan é uma verdadeira aula sobre o assunto. E, veja só, é uma aula bem divertida!

***

Íntegra da entrevista em inglês:

@espinafrando: Spider Jerusalem. Was there a particular person in which the character was inspired? If so, who and why? (maybe Hunter S. Thompson?)

Warren Ellis: Hunter Thompson was certainly one of the main inspirations, but there were several, including Mencken and Wolfe.

@e: How do you see Transmetropolitan today, after 15 years of its original release? I mean, with both of these perspectives: a) the advances of technology and Internet as medium and the way we people relates with our smartphones (I think we’re living in a future every second closer to the future of Transmet); b) in terms of writing, how do you feel about it? Would you change anything? Why?

WE: I haven’t looked at those books in many years, and so couldn’t really answer you. But, in general, I want to change everything I write within two weeks of having written it. People come to me almost weekly to point at something in the world and say “this is like something in TRANSMET” or “this is all your fault” or “I would like to burn you for witchcraft now.” Every new political season throws up a figure whom people immediately see as similar to The Smiler. But I prefer not to wave my hands and declare myself a prophet or magician.

@e: Did you watch Newsroom or The Hour? If so, how do you compare Spider Jerusalem with characters Will McAvoy and/or Freddie Lyon?

WE: I didn’t see The Hour, but I did subject myself to the pilot of The Newsroom. There’s not really a comparison to be made between Spider Jerusalem and Will McAvoy, I think, not least because McAvoy is such a mediocre figure. I mean, there may be a case that mainstream American tv media is full of people who are too scared to say what they think (and, as in the figure McAvoy was modelled on, Keith Olbermann, it may turn out they have little of interest to say when they *are* freed). But that doesn’t seem to slow Bill O’Reilly down, does it? McAvoy is an avatar of the American liberal “intellectual” horror that they are victims of Big Stupid Modern Society. Actually, let me throw another word in there – “Old* American.” Because Newsroom is certainly also about the longing for strong men to lead the ninnies and the sissies towards the light. I thought the whole thing was a fossilised, misogynistic nightmare. I like to think — I desperately hope — that even though it was fifteen years ago,when I was young and stupid, that TRANSMET was a book that was kinder to people who aren’t white men.

@e: Do you have something to say to your Brazillian fans (no, I don’t want to provoke another #brasilgate)?

WE: I am quite aware that I have no fans in Brasil. I’m not even sure why you wanted to interview me.

Spider Jerusalém
Não sou o Gorbachev. Essa ‘mancha’ na cabeça é uma aranha, estuprada pelo maldito efeito que o pessoal da arte tascou em mim

 

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