Dica Duca – Community

…six seasons and a movie…

Community tem como cenário uma faculdade comunitária pública e acompanha a rotina de 7 colegas desajustados que formam um grupo de estudos.

Posto dessa maneira, parece não ter nada de mais. Assim como outro seriado dos anos 90, em que acompanhávamos o dia a dia de um comediante de stand up, seu amigo, uma ex-namorada e um vizinho em Nova York. Um show sobre nada. Um show que não agradou de imediato, que só foi conquistar certa audiência graças a reprises na entressafra da programação. E que acabou se revelando a comédia mais genial da TV americana.

Com Community é mais ou menos isso: se você assiste um episódio isolado, principalmente da 1ª temporada, pode não captar de imediato o que faz dessa série o novo Seinfeld. Mas basta assistir uma sequência pra ser conquistado em definitivo.

Cheguei no fim da festa —já foram exibidas 3 temporadas e a 4ª e provavelmente última está em andamento, mas como acredito que tenha muita gente que ainda não experimentou uma das melhores séries de humor da última década, vale a pena explicar porque a criação de Dan Harmon é boa. E porque é duca!

porque é bom

Vamos começar pelos personagens. O tal grupo de estudos é formado por uma miríade de estereótipos que vira e mexe são subvertidos para então voltar ao mesmo lugar. E são absolutamente adoráveis!

Jeff Winger
Jeff Winger

Jeff Winger (Joel McHale, o excelente comediante de The Soup). É o protagonista. Um advogado de sucesso que tem a licença cassada por ter falsificado o diploma. Encontra no Community College de Greendale uma aparente saída fácil para seu problema. É o cara cool, gatão e popular que tenta em vão não se misturar com o esgoto social de Greendale.

Annie & Britta
Annie & Britta

As garotas: Britta Perry (Gillian Jacobs) e Annie Edison (Alison Brie). A primeira é a loira que quer ser descolada e alternativa, cheia de princípios, ativista política liberal e ecologicamente correta, mas que no fundo é mais uma pessoa medíocre e um tanto hipócrita. A segunda é a morena CDF, novinha e boazinha, que não sabe que é gostosa e que jogou o futuro promissor na latrina ao ser expulsa do colégio por um vício em estimulantes enquanto estudava para as provas finais. É a única que leva os estudos a sério.

Troy & Abed
Troy & Abed

Os rapazes: Troy Barnes (Donald Glover, que foi inspiração para Miles Morales, o novo Homem-Aranha) e Abed (Danny Pudi). Troy é o atleta burro —nível Homer Simpson, cuja carreira universitária foi abortada devido a uma contusão. Estudava na mesma escola de Annie (que nutria paixão platônica por ele), mas não fazia ideia de quem ela era na época. Abed… Bem, Abed é meio que a estrela do show. Über nerd e gênio com leve grau de autismo do tipo Rain Man, é o melhor amigo de Troy e o único que não tem motivo aparente para estar em Greendale.

Pierce & Shirley
Pierce & Shirley

Completando o grupo, os coroas: Shirley Bennett (Yvette Nicole Brown) e Pierce Hawthorne (Chevy Chase). Ela é uma dona de casa separada e com filhos, cristã fundamentalista e que não teve a oportunidade de cursar uma faculdade quando jovem. Ele, um milionário tarado, racista, sexista, egoísta, meio gagá, que acumula 7 divórcios e que é, acima de tudo, um tremendo de um carente. Vai à Greendale para matar o tempo e tentar resgatar a juventude.

A fauna e flora de Greendale
A fauna e flora de Greendale

Adicione alguns coadjuvantes recorrentes, como os bizarros Señor Chang (Ken Jeong), um chinês professor de espanhol com delírios de grandeza, e o Reitor Pelton (Jim Rash), um travesti coitado que só quer acertar com sua faculdade de idiotas (a começar pelo próprio). Se quiser, ainda pode acrescentar figurantes como Star-Burns (Dino Stamatopoulos) —um maluco com costeletas sui generis, ou Magnitude (Luke Youngblood) —que se comunica apenas pelo bordão 'Pop, Pop'.

Pronto, já temos as peças dispostas no tabuleiro.

Agora, as regras do jogo. Se você está pensando que a trama gira em torno de aulas e provas, bem, errou feio. Na verdade, é difícil apontar um tema em Community. Cada episódio é imprevisível. E, muitas vezes, surreal.

Você lembra de como Seinfeld foi ficando cada vez melhor a cada nova temporada, com o abuso de piadas internas e constantes inovações —revoluções— no formato da sitcom? Você se lembra de episódios memoráveis como a espera no restaurante chinês, o episódio que começava na cena pós-créditos e terminava na abertura, o do Jerry Bizarro ou o do desfile do dia de Porto Rico? Pois Community bebe na mesma fonte de irreverência.

O lance da faculdade xumbrega (e aqui cabe um parêntesis: é um conceito totalmente alienígena para nós brasileiros, onde as universidades gratuitas gozam de boa reputação —não é o caso no seriado: o Greendale Community College é um antro de incompetência e incompetentes que reúne a escória dos corpos docente e dicente da América) é apenas uma desculpa, uma paisagem para Dan Harmon montar um quadro espetacular sobre o que há de mais engraçado na natureza humana e no imaginário pop.

Sim, porque Community pouco a pouco vira um estudo digno de doutorado sobre o que de melhor e pior existe na TV, na música e no cinema.

As referências, citações e paródias do universo pop abundam, graças a Abed. Partem dele as observações metalinguísticas comparando a vida em Greendale aos clichês das sitcoms, que servem de vetor para Dan Harmon dar vazão às suas pirações de roteiro e formato. Os exemplos mais emblemáticos são o episódio de natal da segunda temporada (feito em stop motion e remetendo a clássicos americanos como A Rena do Nariz Vermelho), o da festa de aniversário surpresa que não acontece (a festa seria com tema de Pulp Fiction mas ao invés disso acontece um diálogo tarantinesco num restaurante, entre Jeff e Abed), o do holocausto zumbi no halloween, o do RPG e os episódios recorrentes de paintball (com direito à recriação de Por um Punhado de Dólares).

Community

porque é duca

O mais legal em Community é o sentimento de continuidade. Se você prestar atenção, verá que cada cena pode trazer acontecimentos que irão desencadear novas tramas. É um verdadeiro benchmark para arquitetura de narrativas, chegando ao cúmulo da obsessão: a piada do Beetlejuice, que se desenrola em 3 episódios esparsos nas 3 temporadas comandadas por Dan Harmon —como mostra o Pink Vader neste post.

É pena que o criador e showrunner tenha sido demitido sumariamente pela Sony Pictures Television ao término do 3º ano, como o próprio explica neste post.

Uma nova equipe criativa assumiu a 4ª temporada e não sei se conseguirão manter o nível —na verdade, não sei nem se Dan Harmon manteve o nível na 3ª, já que assisti apenas às duas temporadas disponíveis no Netflix.

Mesmo que não se concretize a campanha/profecia dos fãs —manifesta nas aspas que abrem este artigo, Community já tem lugar cativo no coração deste que vos escreve.

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s