L.O.A.S. – Newsroom vs. Transmet e uma reflexão sobre política

Começo a escrever este texto minutos após acabar de assistir o final da primeira temporada de Newsroom. É dia de eleições municipais. Um dia que me fez desacreditar mais um pouco da política brasileira.

Muito pelo fato de termos a pior eleição na cidade de São Paulo, desde que comecei a votar. Onde nenhum dos candidatos à prefeitura parece digno de voto e deixa a sensação de que tenho que escolher entre o menor dos males, o menos pior.

Uma sensação que parece ter eco com grande parte da população, já que tivemos praticamente 1/3 de gente que se recusou a votar, seja por abstenção, seja por anular ou votar em branco. E, vale mencionar, o incrível quadro em que o líder absoluto das pesquisas cai vertiginosamente um dia antes do pleito, deixando os 3 candidatos mais bem colocados num tríplice empate. O mesmo líder das pesquisas de outrora que consegue a proeza de ficar de fora do 2º turno terminada a apuração.

E, veja bem, não estou defendendo Russomano. Pra mim, não passa de um escroque em pele de cordeiro desde que li essa reportagem mostrando que o “defensor do consumidor” é um empresário que criou um produto inócuo para supostamente impedir que as companhias de água deixem de nos cobrar (roubar) por ar na tubulação, fez anúncios emprestando o seu verniz de credibilidade e criou uma segunda empresa para emitir “laudos técnicos” atestando uma eficácia que não existe. Nem vou entrar no mérito da campanha por uma igreja em cada esquina e da malfadada proposta da passagem de ônibus por km rodado.

Também não estou feliz por Serra e Haddad, PSDB e PT. Há tempos que não existe ideologia partidária no Brasil, se é que houve algum dia. Meu voto vai para a pessoa em que acredito, independente de partido. E não dá pra acreditar em nenhum dos dois.

Votar em Serra é, na prática, votar em seu vice, a quem tenho vergonha de dizer que desconheço. Ou alguém duvida que daqui a 2 anos o prefeito Serra abandonará São Paulo para tentar novamente a presidência da república, a despeito de promessas? Já vi esse filme e não gostei, vide o desastre que foi/é Kassab. E realmente não há porque duvidar: o PSDB não dá mostras de que poderá ter outro candidato competitivo no futuro próximo (e não venham falar de Aécio). Também desgosto da mistura entre política e religião e do jeito a cada ano mais autoritário de como o município e estado têm sido governados, onde se atacam sintomas e não causas.

Haddad e PT. O partido está envolto com o mensalão. A candidatura foi uma verdadeira mostra de que ideologia não existe, com a aliança com Maluf, as afirmações de Lula de que faria qualquer coisa para eleger o candidato e até os rachas internos com Marta Suplicy. Quanto à pessoa, fico com uma análise mais do que simplista, reconheço, mas que ainda assim me satisfaz: quando ministro da educação, Haddad não deu conta de controlar a aplicação de uma prova (o Enem), que vazou mais de uma vez. Parto do princípio de que administrar uma cidade é um pouco mais complicado e que Haddad ainda não provou ter competência (e talvez nem autonomia) para tal.

Na lanterna, Chalita e Soninha. Chalita ganha dinheiro com livro de autoajuda. Pra mim, é picareta. Soninha está cada vez mais psicótica.

E tem a rapa: Levy Fidélix, Eymael, Paulinho da Força, Ana Luiza, Anaí, Giannazi, Miguel. Não são opção.

Propostas, foram poucas as que vi. Nenhuma pra ser levada a sério. Nenhuma pra resolver os problemas de verdade. Todas paliativos, quando muito. Vi bastante “vou fazer mais”. Não vi sequer uma “vou fazer diferente”. E isso pode ser sintomático, porque me parece que chegamos ao esgotamento da política nacional. Chegamos a um ponto em que não faz diferença votar em Fulano ou Beltrano, pois são todos iguais. Mesmo que uns sejam mais iguais etc.

Isso tudo em São Paulo. Ainda dá pra falar de Monte Alegre – RN, que registrou a incrível marca de 0 (zero) votos válidos com 100% das urnas apuradas, ou de Criciúma com seus setenta e tantos porcento de votos nulos. Os candidatos estavam com problemas nas candidaturas. Nem vale a pena querer entender como é que o TRE/TSE deixa uma situação dessas chegar a acontecer de fato.

Mas divirjo. Este é um blog de cultura pop. E toda essa reflexão política nasceu de outra reflexão, sobre a temporada completa de Newsroom, sobre The Hour (ainda estou devendo um artigo), sobre Transmetropolitan e sobre a entrevista com o Warren Ellis.

As 3 obras são sobre jornalismo. Indo mais a fundo, são sobre jornalismo político. Em comum, todas lutam para desmascarar os abusos do poder. Ou melhor, para informar a verdade, deixando o caminho livre para o público fazer seu juízo de valor.

Já a forma como cada uma lida com isso é completamente diferente.

Newsroom é um poço de otimismo. Dá pra ter dó até dos supostos vilões das tramas. O ritmo é ágil a ponto de te deixar sem ar.

The Hour é cadenciada e elegante. Reflexo de um tempo e cultura diferentes.

Transmet é ácida, cínica e visceral como uma ferida exposta. Uma crítica ferina através da paródia.

Mas o que me intrigou foi a rejeição de Warren Ellis a qualquer comparação, principalmente entre Transmetropolitan e Newsroom.

São obras diferentes, sem dúvida. A começar pelo formato.

Mas será que não se pode gostar das duas ao mesmo tempo? Por que temos que levar tudo a dicotomias?

Newsroom vs. Transmetropolitan. Aaron Sorkin vs. Warren Ellis. PSDB vs. PT. Marvel vs. DC. Batman vs. Vingadores. Cinema vs. TV. Seriado vs. Novela. Rock vs. MPB. Punk vs. Progressivo. Rolling Stones vs. Beatles. Lennon vs. McCartney. Mainstream vs. Indie. Apple vs. Google. iOS vs. Android. Folha vs. Estadão. Coca vs. Pepsi. O povo contra Larry Flint. Eu vs. Você.

Será que nunca vamos conseguir deixar o jardim de infância e o primordial “Meninos vs. Meninas”?

Quem gosta de uma coisa precisa ser necessariamente inimigo de quem desgosta?

Não podemos ser culturalmente onívoros?

Eu quero a liberdade de não concordar com alguém em algo, sem ter que automaticamente ser contra alguém ou ser taxado de idiota.

E sim, eu gosto de Newsroom E de Transmet. Fico arrepiado com as tramas e as vitórias piegas de Will McAvoy e com a linguagem crua e os esforços sem medir consequências de Spider Jerusalém.

Principalmente, fico extasiado com como ambas as obras me fazem pensar e me estimulam a tentar ser uma pessoa melhor. Um cidadão melhor, até.

É por isso que, a partir de hoje, pretendo estudar tudo o que estiver disponível sobre as candidaturas e os planos de governo dos candidatos para me preparar para o 2º turno das eleições. Não me interessam os ataques mútuos que virão na campanha. Tampouco a briga anti-petistas vs. anti-tucanos.

Serra e Haddad continuam sendo dois políticos em quem não votaria. Anular o voto também não é opção, como mostrou Marcelo Soares neste post. E não quero escolher o menos pior.

Ao invés disso, quero estar preparado para espinafrar. Para cobrar o prefeito quando pisar na bola. Para fiscalizar um governo que, mesmo que eu não tenha escolhido, ainda é por mim e para mim.

Quem quer que seja eleito, não vai mandar em nós. Ao contrário, será nosso empregado. Inclusive com salário. Eu pretendo ser um patrão exigente. E você?

Os canais existem: e-mails, sites, redes sociais, até esse blog fuleiro pode ser usado de vez em quando. É uma das vantagens da internet. Qualquer um pode ser Spider Jerusalém.

É idealista? Com certeza. Vai dar resultado? Dificilmente. Mas é um papel que escolho por livre e espontânea vontade. Eu quero ser Dom Quixote. Eu quero brincar de Will McAvoy.

 

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