espinafrando a estreia: 007 – Operação Skyfall

O impossível está de volta à franquia 007. Salvas de palmas e hurras de alegria ecoam.

Depois de ter sobrevivido à Guerra Fria com a ótima sequência estrelada por Pierce Brosnan, James Bond enfrentou 2 de seus piores inimigos no cinema: Jason Bourne e o Batman de Chris Nolan. Quase pereceu. Culpa do realismo.

Pergunte a qualquer fã do espião inglês a serviço de sua majestade o que define Bond. As respostas serão variadas, ao gosto do freguês, mas dificilmente fugirão do binômio “ele faz o impossível sem amassar o smoking ou derramar o dry martini, utilizando as traquitanas mais inverossímeis” e “sua personalidade forte, destemida, elegante, sexy, cafajeste, irônica e irreverente”.

Bond, afinal, é um personagem bidimensional. É o super-homem que apela ao pré-adolescente interior de todo homem. É o cara infalível, que elimina seus inimigos, não se curva à autoridade, dirige os melhores carros, tem uma inteligência acima da média e conquista qualquer mulher sem esforço. Até suas falhas de caráter são perfeitas.

O que me lembra de um episódio de Friends, em que Chandler consegue o smoking de James Bond para seu casamento, achando que nada pode superá-lo, até que Ross aparece com o smoking usado por Val Kilmer quando interpretou Bruce Wayne, o Batman.

Chandler: Ross is Batman!Monica: Well, he did manage to keep his identity secret for a long time.Chandler: Rachel got Ross the tuxedo that Val Kilmer wore in Batman. Okay Batman is so much cooler than James Bond!Monica: What are you talking about? 007 has all those gadgets!Chandler: Batman has a utility belt!Monica: 007 has a fancy car.Chandler: Batman has the Batmobile!Monica: 007 gets all the ladies.Chandler: Batman has Robin!

O maior erro da última encarnação de Bond, com Daniel Craig, foi justamente virar as costas para o que faz de 007 o 007. Fragilizar o espião, humanizá-lo, dar-lhe um passado, retirar os gadgets da equação, investir na luta corpo a corpo, criar uma personalidade “complexa” (sic), tudo isso foi um golpe na essência do personagem. Bond não precisa e não deve ser adaptado aos novos tempos. Bond não precisa e não deve ser Bourne. Ironicamente, o banho de realidade no Batman teve efeito contrário. Justamente porque Batman já carrega o elemento fantástico em sua máscara.

E note que a descaracterização de Bond não é sinônimo de entregar um filme ruim. Cassino Royale é legal. Só não é um 007 autêntico. O mesmo já não se pode dizer de Quantum of Solace, que de tão chato nem me lembro do que se trata (tive que rever essa semana, só pra não cravar nenhuma besteira).

007 - Skyfall
Estreia sexta, 26 de outubro.

E aí chegamos aos 50 anos da franquia e à Skyfall.

Como falei, o impossível está de volta e dá as caras já na famosa cena de abertura, com uma perseguição digna de 007 e o tradicional e belo clipe com a insossa música-tema de Adele.

007 - Skyfall

Infelizmente, o que se segue na primeira metade perde o gás. Bond é ferido por fogo amigo e é tido como desaparecido em ação. M (Judi Dench, mandando bem uma vez mais) é responsabilizada pelo Parlamento pela desastrosa operação, que expôs diversos agentes infiltrados em organizações terroristas. Em paralelo, M é perseguida pelo terrorista que roubou a lista com as identidades secretas, numa vendetta pessoal.

O filme se arrasta até Bond voltar à ativa. Tudo muda de figura quando entra em cena Javier Bardem e seu vilão Raoul Silva. Numa atuação canastra e afetadíssima, Barden acerta em cheio encarnando um mortífero Clodovil Hernandes.

007 - Skyfall

A partir daí, o filme volta a engrenar e a 2ª metade faz valer o ingresso. Tudo o que você espera de um filme de Bond está lá. Q (Ben Whishaw, o Freddie Lyon de The Hour, dando uma de Moss de The IT Crowd) e mais duas figurinhas carimbadas da série reaparecem (ou melhor, são reinventadas). Vilão megalomaníaco e carismático. Bond girl descartável. Um carro icônico. Soluções mirabolantes por todos os lados. Gadgets, embora não seja o que você está pensando. Um final arrebatador. Até martini batido tem.

007 - Skyfall

Só falta Bond.

Sim, porque Daniel Craig pode ser tudo, inclusive mau ator. Só não dá pra ele ser o agente secreto. E não, não é por ser loiro. É pela absoluta falta de carisma, sex appeal, finesse e ironia.

Craig passa o filme todo com apenas 3 expressões: cara de bêbado, cara de dor de barriga e cara de bruxismo (hábito de ranger os dentes de modo rítmico, relacionado com um nível de stress alto, podendo provocar desgaste nos dentes, dores de cabeça e perturbações articulares).

Suas falas até são boas, você sente um resquício de 007 lá no fundo, a ponto de sorrir quando reconhece uma das dezenas de referências aos filmes anteriores. Mas a interpretação de Daniel Craig é ôca, não tem alma. Falta joie de vivre. Com Craig, viva e deixe morrer.

Por outro lado, é interessante notar como esse Bond sofreu tanto desgaste em tão pouco tempo. Se parar pra pensar, em Cassino Royale e Quantum of Solace Bond ainda era um agente novato, que acabara de ganhar a licença para matar. Em Skyfall, Bond já é tido como velho e ultrapassado na trama. Sintomático.

A boa notícia é que os produtores inteligentemente deixaram uma verdadeira rodovia expressa prontinha para dar continuidade ao futuro do agente secreto no cinema. É mais um ciclo que se encerra, ciclo que se iniciou com a ascensão de Judi Dench ao papel de M, causando muita estranheza na época.

O cenário está armado. Que venham mais 50 anos, mas com alguém melhor no papel de Bond, James Bond. E não outro Ruela, Zé Ruela.

 

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