L.O.A.S. – um pulo na feira e uma reflexão sobre (o mercado de) histórias em quadrinhos

Ranhetices

Saio de uma visita relâmpago da Fest Comix, uma feira anual de quadrinhos na cidade de São Paulo.

Há cada ano que passa, repito o mantra: nunca mais! Dessa vez, periga ser pra valer. Em parte, porque estou ficando velho e ranheta. Pra encarar uma multidão (e o evento está cada vez mais lotado), tem que valer a pena. E a feira está cada vez valendo menos. Pra mim. São pouquíssimas as novidades. As filas, enormes.

Os estandes externos continuam atraindo como passeio. A Limited Edition estava bacana como sempre e o destaque foi a exposição da turma do PlayBrasilMobil com os Playmobils temáticos —uma cena inteira de Walking Dead! E o que era aquele Playmobil do Chuck Berry?

Playmobil do Walking Dead
Crédito da foto: Monike Heredia, do Chá com Cupcakes (publicada com autorização)

Há bastante memorabilia nerd (HQs, camisetas, estátuas, bonequinhos, games). Mas ainda é pouco pra justificar encarar o perrengue.

Pros descontos valerem a pena, há de se comprar muito. Sandman edição definitiva é compra certa por 40 mangos a menos, mas fica tudo diluído pela equação ingresso + estacionamento + combustível.

E isso me levou a refletir sobre o mercado de HQs brasileiro.

Panorama

Comparando com o que tínhamos nos anos 80 e 90, quando a Abril praticamente monopolizava e gibi era coisa de criança (no máximo de adolescente), é inegável que tivemos avanços. Nunca antes tivemos tantos títulos disponíveis, de tantos gêneros diferentes, publicados por tantas editoras —mesmo com o domínio da Panini nos licenciamentos, tanto nos super-heróis quanto nos mangás, mais Maurício de Souza. Sem contar os independentes, como Murilo Martins e seu Love Hurts.

Love Hurts

Por outro lado, a oferta em demasia também gera um problema: para o fã de HQ, é preciso optar, não cabe tudo na carteira. Na disciplina do marketing moderno, existe um conceito chamado share of wallet, que representa justamente o percentual médio de gasto com um item de consumo de uma determinada marca ou empresa. E histórias em quadrinhos, no Brasil, estão caras demais pra renda do brasileiro.

Principalmente quando existem alternativas. E hoje, para o nerd típico (se é que existe um), alternativa é o que não falta. Tirando os gastos essenciais, o que sobra para o supérfluo é quase nada —e cultura pop é supérfluo.

Aí entram dois fatores que não existiam antigamente: a pirataria e a opção de comprar quadrinhos digitais.

Pelo que vejo nos comentários em sites especializados, a molecada não está nem aí. Baixa tudo em PDF de forma ilegal. E quem não cai na tentação porque enxerga que pirataria é meio que a autodestruição de um mercado, e ainda tem um tablet, uma boa noção de inglês, e se importa mais com o conteúdo do que com a coleção na estante (a absoluta minoria), tem a opção de comprar no ComiXology.

ComiXology – uma banca virtual

O que nos leva a dois estudos de caso sobre a política de preços das editoras brasileiras.

Walking Dead x Os Mortos Vivos

Duas semanas antes da Fest Comix, rolou uma promoção de Walking Dead no ComiXology. Ainda não tinha comprado o volume 8 de Os Mortos Vivos, publicado a passo de tartaruga pela HQM Editora no Brasil. Pelo preço praticado na edição nacional, comprei 3 volumes da versão digital em inglês.

Transmetropolitan x Transmetropolitan

Fiquei muito feliz ao saber que a Panini daria continuidade à Transmetropolitan aqui no Brasil com o lançamento do 3º encadernado, reunindo 12 edições em capa dura. Até ver o preço: R$83,00. No mesmo fim de semana da Fest Comix, Transmet entrou em promoção no ComiXology: cada edição à US$0,99. Paguei cerca de R$24,00 pelo mesmo conteúdo em inglês, em formato digital.

Conteúdo Digital, mais uma vez…

Hoje, o digital pode ser uma opção para poucos. Há muitas barreiras: a língua, a moeda, a mídia —porque pra ter uma leitura decente, tem que ser num tablet (foi mal, PC). Mas não se engane: em 5 ou 10 anos, o que é uma tendência tímida vai virar establishment. Mesmo levando em conta que ler no papel é infinitamente mais gostoso.

As vantagens do digital são muitas. Ter acesso a conteúdo do mundo todo a um preço acessível são apenas duas delas, talvez as mais fortes.

A análise

Não vou entrar no mérito da composição de custos das editoras brasileiras, até porque a desconheço. É certeza que o custo de impressão, distribuição, marketing e licenciamento é mais alto do que o digital, sem contar que dei sorte de pegar duas promoções com o preço bem abaixo do normal.

Mas que há algo de errado na sua política de precificação, isso há.

Tomemos o mercado americano como benchmark mais uma vez, por ser bem mais maduro que o verde e amarelo. Por lá, as editoras enfrentam o envelhecimento de sua base de leitores, que não se renova.

Os especialistas apontam dois motivos.

Um deles é a linha editorial das duas gigantes que dividem 75% do mercado (Marvel e DC). Uma linha que não tem apelo aos mais jovens (há tempos que histórias em quadrinhos deixaram de ser coisa de criança) e que dificulta a entrada de novos leitores com o peso de décadas de cronologia e tramas intrincadas que se espalham por diversos títulos mensais ao mesmo tempo (tente comprar uma revista isolada do Homen-Aranha, dos X-men ou dos Vingadores e eu te desejo boa sorte para tentar entender o que se passa ou então pegar o fio da meada).

O outro motivo é mais prosaico: o preço. R$7,00 a R$8,00 por uma revistinha com cerca de 20 páginas de uma única história que você obrigatoriamente terá que comprar no mês seguinte para saber como continua não é exatamente o que se pode chamar de barato, nem aqui, nem lá.

Voltando para o mercado nacional, aqui ainda temos a vantagem dos mixes mensais: 3 a 4 títulos americanos viram um brasileiro, por mais ou menos o mesmo preço. Só que temos desvantagens: para os mixes se tornarem viáveis comercialmente, não podemos ter apenas a nata reunida em um único título, pois só ele irá vender. Então, caímos na armadilha de um título bom, 2 mais ou menos e 1 ruim para compor uma edição brasileira. Acaba dando na mesma.

Quem quer a nata, tem que ter paciência e ir atrás dos encadernados, compilações de edições avulsas com uma história completa, começo, meio e fim. Como Transmetropolitan ou Os Mortos Vivos.

E aí, me pergunto se as editoras brasileiras não estão cometendo os mesmos erros das americanas cobrando um preço tão alto. Será que não estão canibalizando o mercado? Será que não estão afastando novos leitores?

Porque não vejo alguém em sã consciência e não-fã gastando quase 100 mangos numa história em quadrinhos, por melhor que seja o acabamento e o conteúdo. Principalmente quando temos tantas opções de entretenimento disponíveis disputando um pedaço de nossa carteira. Games, filmes, séries, música e livros sempre tiveram precedência sobre gibis, que ainda hoje é uma arte marginal.

Na lógica cruel do mercado, ainda vale a mais simples das leis, a lei da oferta e da procura. A baixa demanda obriga a cobrar um preço maior para sustentar a operação, já que não há escala suficiente. O preço maior afasta o público. É um círculo vicioso.

Seria um triste fim se o público diminuísse tanto a ponto de acabar com a publicação de HQs no Brasil. Ainda há tempo para se repensar tudo e tentar novos caminhos. Mas as editoras não podem bobear.

 

9 comments

  1. Muito bom o texto, parabéns. Vi no Gizmodo e vim aqui deixar meu comentário. Eu também acho que os preços estão fora da realidade e que a tendência é virar digital.

    • Eu que agradeço. E seja bem vindo! Vais perceber que o ritmo de publicação por aqui é lento, mas tentamos compensar com um pouquinho de qualidade (ou não).

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s