Dica Duca – A Ira de Nasi

…envelheço na cidade…

Poucas bandas no Brasil fizeram rock de verdade, essa música de gringo, selvagem, que inspira rebeldia e acorda os hormônios. O Ira! foi uma delas. Senão a melhor. Senão a única.

É incrível como, mesmo depois de meses ou até anos sem escutar um de seus álbuns, bastam os primeiros acordes para voltar a ter quinze anos.

Ira!

Natural que, cedo ou tarde, acabasse lendo A Ira de Nasi, biografia do vocalista escrita por Mauro Beting (aquele, do futebol) e Alexandre Petillo. Ganhei o livro de aniversário, então foi cedo.

Vale o investimento? Eu diria que sim, no final das contas.

porque é bom

Mesmo para quem não é fã da banda, Nasi é uma das figuras mais divertidas do cenário musical brasileiro. É daqueles caras sem muito filtro entre o cérebro e a boca, garantia de bons causos com sua visão e opiniões cirúrgicas, que vão direto ao ponto.

Marcos 'Nasi' Valadão também tem as qualidades de ter senso de humor e de ter adquirido alguma maturidade, a ponto de não se levar (tão) à sério e de admitir as próprias bolas fora.

Nasi

Some a isso o fato dele ter feito parte da história de tantas bandas e artistas do rock, da MPB e do hip hop, sem contar as gravadoras e a imprensa, e você ganha uma leitura agradável e cheia de fatos curiosos.

porque é duca

Para quem é fã de rock, e especialmente do rock do Ira!, essa biografia é um deleite arqueológico. Remonta a gênese do rock, do punk e do rap nacional e paulista, além, é claro, do próprio Ira! Graças, em parte, ao trabalho de Petillo, que estava preparando um livro sobre a história da banda quando ela implodiu sob o peso dos egos de Nasi, Edgard Scandurra, André Jung, Ricardo Gaspa e Airton Valadão Jr. Beting resgatou essas pesquisas quando foi convidado por Nasi a escrever sua biografia.

Ira!

Há ótimas análises da criação e produção de cada disco da banda. Tudo pontuado pelo estado do relacionamento tempestuoso entre seus membros. Inclusive, encontramos no livro algumas críticas antológicas da imprensa da época, como a de André Forastieri sobre Clandestino para a Bizz. Demolidora, deu início a uma bela troca de cartas publicadas entre Scandurra e os editores da revista.

Temos, também, versões dos fatos que cobrem várias passagens lendárias como a origem do apelido de Valadão e do nome da banda, a controvérsia que cerca a letra de Pobre Paulista, o processo criativo de Psicoacústica, o protesto em pleno Rock in Rio contra a diferença de tratamento da produção do festival para com os artistas nacionais, a rivalidade com os Titãs e, às vezes, com a imprensa, e, principalmente, sobre o fim raivoso do Ira! e as brigas com o empresário-irmão e com o parceiro-rival.

Edgard Scandurra e Nasi

Pra completar, ainda temos uma das histórias mais escabrosas (e secretas) de que já se teve notícia, envolvendo uma namorada, uma mãe desnaturada, um padrasto meio-irmão, ameaças de morte, estupro e tortura, magia negra, corrupção policial, estelionato, drogas, fugas e perseguições, intrigas de capital e a gravação de um disco de sucesso. Ufa! Só essa história absurda já acaba compensando a compra do livro.

A Ira de Nasi tem seus defeitos, é claro. Dois dos maiores:

  • O estilo da escrita de Mauro Beting, que abusa de jogos de palavras envolvendo as canções da banda e todo e qualquer clichê lembrável (um pecado que também costumo cometer com uma frequência maior do que a recomendável);
  • A inexplicável linha narrativa, que avança e retrocede no tempo, para depois retomar um raciocínio 4 ou 5 capítulos adiante, o que chega a prejudicar a fluidez e o entendimento da História do biografado.

Há erros menores, cuja culpa parece ser mais dos editores do que dos autores, sendo a falta de um revisor nerd o principal deles —há uma passagem em particular que cita o “Smigol“. Foi difícil fazer a ligação entre o Sméagol de O Senhor dos Anéis e Scandurra.

Ainda assim, são falhas que são fáceis de relevar dada a qualidade das histórias.

A Ira de Nasi

A Ira de Nasi deixa um gosto de quero mais ao final. Dá vontade de se aprofundar na história do rock brasileiro. Meu próximo passo definitivamente será mergulhar em Dias de Luta, de Ricardo Alexandre. Cedo ou tarde.

 

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