Dica Duca – The Hour

…a hora da verdade…

Depois de tantas citações no espinafrando.com, finalmente chegou a hora de falar de The Hour.

É um seriado da BBC, cuja primeira temporada conta com apenas 6 episódios de uma hora cada, disponível no Netflix. É a contraparte britânica de The Newsroom, pois também trata da redação de um telejornal. Ou não, como veremos a seguir. Vem comigo!

porque é bom

The Hour se passa em 1956, em meio à crise do Canal de Suez —uma contenda entre o Reino Unido, o Egito, a França e Israel para ver quem fica com o controle da passagem entre a Europa e o Oriente Médio (e seu petróleo).

Pouco antes do conflito estourar, o departamento jornalístico da BBC tenta inovar o noticiário criando um programa semanal, chamado The Hour, baseado em reportagens investigativas com mais profundidade, entrevistas ao vivo e, principalmente, muita opinião.

A equipe principal é formada pelo trio Freddie Lyon (Ben Wishaw) —o cerebral repórter inquisidor, sempre em busca de trazer a verdade à tona; Bel Rowley (Romola Garai) —a produtora intrépida, mulher pioneira num cargo de chefia e fiel escudeira de Freddie; e Hector Madden (Dominic West) —o apresentador charmoso, aparentemente descerebrado, escolhido a dedo para ser o porta-voz do programa. Ainda temos Clarence Fendley (Anton Lesser), o venerável editor-chefe, fazendo as vezes de Obi-Wan Kenobi e segurando as pontas da trupe quando a barra pesa.

The Hour

Apesar do começo meio atribulado, o programa faz sucesso por causa de sua abordagem pra frentex.

Discute temas delicados como o racismo, levando um negro e outro branco para tentar se hospedar em hotéis baratos e comentando as diferenças de tratamento (para o negro, não havia vagas).

A política do partido conservador é posta em cheque, assim como o papel da Inglaterra nas Relações Internacionais —no mesmo período, a invasão Soviética à Hungria se junta à crise em Suez.

Além da postura questionadora, parte do sucesso do programa tem a ver com a preocupação com o formato: Bel Rowley insiste em tirar o caráter sisudo de noticiário, tornando a informação em entretenimento. “Não queremos entediar o espectador.”

Mas tudo isso não passa de ambientação. Lógico que é interessante ver como um programa de TV ao vivo era produzido na época, além da briga com a censura do governo, mas isso não é o cerne do seriado.

The Hour

porque é duca

The Hour é duca por causa de suas duas tramas principais que correm em paralelo.

Uma delas é o romance proibido entre Hector e Bel, envolvendo (é claro) o estigma do adultério, os efeitos sobre a paixão platônica/amizade entre Freddie e Bel e, mais importante, a crítica de costumes, presente nos desdobramentos sociais do caso: a questão das aparências na alta sociedade britânica, o desejo botando a carreira em jogo, a pressão da sociedade para com o papel das mulheres solteiras e casadas, o casamento como meio (econômico) de vida.

The Hour

A outra, a trama principal e o verdadeiro motivo para acompanhar os 6 episódios de The Hour, envolve assassinatos, ardis, espionagem, investigação, política, laços de família, traição e um final surpreendente.

Tudo começa no começo. Um professor universitário é perseguido e assassinado na saída do metrô. Freddie Lyon é procurado por uma amiga de infância, filha de um nobre membro da Câmara dos Lordes (parte importante do Parlamento do Reino Unido —o Senado brasileiro seria um paralelo próximo, porém impreciso). Ela pede que Freddie investigue a morte do professor. Logo, a própria é encontrada morta num hotel, num aparente suicídio.

Começa, então, a investigação do pedante e inteligente repórter, fã das novelas de Ian Fleming —não por acaso, Freddie e Bel tratam-se por James e Moneypenny (ironicamente, um dos trabalhos de Ben Wishaw após sua brilhante performance em The Hour foi justamente como Q no último filme de Bond, Skyfall).

Uma investigação que envolve o MI6, a suspeita de um agente soviético infiltrado na BBC e a ameaça à vida de Freddie, enquanto a crise no Egito eclode.

Um dos personagens-chave é o sinistro Thomas Kish (Burn Gorman, que fez um gângster vítima de Bane em The Dark Knight Rises), o responsável pela morte do professor e que depois dá um jeito de ser contratado pela equipe de The Hour para traduzir os relatos de uma fonte do Egito. A atuação de Gorman, ao mesmo tempo contida e intensa, é uma das melhores coisas do seriado e é um cara em que vou prestar atenção a partir de agora.

The Hour

O desenvolvimento da trama é lento em comparação com o ritmo frenético da TV atual. Um quebra-cabeça montado de forma meticulosa, cuja última peça só se encaixa na última cena, a ponto de você olhar para o relógio e achar que não vai dar tempo da história chegar a uma conclusão. Mas ela chega, de forma satisfatória e com um gostinho noir que lembra o final de Chinatown.

A reconstituição de época é bem feita pra dedéu, ao nível de Mad Men.

A música de abertura é hipnótica e já é um clássico instantâneo.

A relação conflituosa entre o trio de protagonistas também é destaque, assim como as intromissões do lobista do governo, Angus McCain (Julian Rhind-Tutt), pairando como uma sombra e a todo momento pressionando a equipe do programa a praticar um jornalismo suavizado, chapa branca.

Por tudo isso, The Hour é uma das melhores surpresas disponíveis no cardápio do Netflix. A 2ª temporada já estreou na BBC. Aproveite enquanto é tempo e reze para que o Netflix traga a 2ª parte logo! Eu sei que eu vou.

 

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