L.O.A.S. – Entrevista com Murilo

Se você é leitor recorrente do espinafrando.com, já deve ter trombado com Love Hurts, de Murilo Martins, conhecido como @mu_tron no Twitter.

(se não, é só clicar nessa #dicaduca)

Na última Fest Comix, pedi uma entrevista ao artista. Esse foi o resultado. Enjoy!

@espinafrando: Você acabou de voltar da temporada de Comic Cons nos EUA. A última parada foi a NY Comic Con. Como foi a recepção para Love Hurts? Que tipo de público se interessou?

@mu_tron: Estou entendendo as convenções, cada uma tem sua peculiaridade. Os formatos são bem diferentes, umas vendem mais livros, outras geram mais contatos. NY esse ano teve um Artist Alley separado só pros artistas, a gente (eu e outros quadrinistas com quem eu dividi o estande) passou dias discutindo, tentando entender se isso é melhor ou pior do que estar no meio da convenção, junto dos estandes das editoras e outras empresas que às vezes têm muito pouco a ver com quadrinhos. Ainda não cheguei a uma conclusão. Mesmo depois de uma ano cheio de convenções e feiras, foi a primeira vez que eu participei da maioria delas. Acho que quando eu for de novo vou poder comparar.

Stormtroopers também choram
Stormtroopers também choram

@e: De NY para a Fest Comix, em SP. Qual a principal diferença ente as convenções americanas e a feira paulistana, cujo principal atrativo são os descontos?

@m: Bom, fora o tamanho, acho que a diferença básica é isso mesmo, uma é uma convenção, e a outra é uma feira. Em NY tem muito mais conteúdo pras pessoas: palestras, conversas, workshops, entretenimento (também é mais caro: não sai por menos de US$30,00 por dia). Só que com essa separação do Artist Alley em NY, essa parte da convenção vira praticamente uma feira — parecida, em certa medida, com a Fest Comix. A diferença é que tem muito mais artistas independentes (e “não-independentes” também) lá fora. É um mercado muito maior. Mas é muito bom ver que mesmo gente grande como o Mike Mignola fica ali, almoçando hot-dog no estande, pra vender e assinar livros pras pesoas. Eu gosto de convenção, mas tenho que admitir que o que eu mais gosto é essa parte da feira. É muito bacana conversar com uma pessoa que às vezes (frequentemente, no meu caso) não tem a menor noção do que é seu quadrinho e acaba levando depois que eu explico do que se trata.😉

@e: E em relação à FIQ de Belo Horizonte ou à Rio Comicon ou ainda à Gibicon de Curitiba? Será que já não está na hora de São Paulo ter uma Comic Con de verdade, com mais espaço para que os artistas interajam com o público, mais novidades, mais exposições, ao invés de um grande saldão?

@m: Eu estou vendo que a Fest Comix começa a ter umas palestras e workshops, o que é legal. Sei que algumas das convenções gringas que hoje são enormes começaram assim. Talvez esse seja um caminho, “engordar” a Fest Comix com conteúdo ao invés de ter uma nova convenção.

Murilo Martins
O artista

@e: Vamos falar do mercado. Apesar de super-heróis ainda dominarem (Marvel x DC), vejo que há cada vez mais espaço para o Alternativo no mercado americano. Inclusive com a crescente debandada dos artistas para os quadrinhos autorais ou de propriedade do criador. Como você enxerga esse movimento? É uma resposta para a crise de vendas ou uma forma de atingir novos leitores?

@m: Os dois, eu acho. Eu entendo bem pouco disso ainda, acabei de chegar.😉 Mas como eu tenho opinião até pra coisas que eu não entendo… Eu vejo da seguinte maneira: os blockbusters não vão apostar em coisas novas, tendo nas mãos um Homem-Aranha ou uma Mulher Maravilha. Pra quê? No máximo, vão ficar inventando reboots e reviravoltas e prequels e sei-mais-o quê pra tentar contar histórias semi-diferentes. Mas na prática, o Homem-Aranha é o Homem-Aranha. Lógico que dá pra contar boas histórias com as franquias, vide Grant Morrison, mas acho que sempre vai ter um momento em que qualquer pessoa que tenha uma veia autoral vai querer voar mais alto, vide Grant Morrison. Porque o personagem não é seu, sempre vai ter um momento em que pode rolar um “ôpa, isso você não pode fazer, tá maluco!?!”. Fora o aspecto da grana. Muitos desses caras geram milhões com as suas histórias e aposto que começam a se questionar se a fatia do bolo que estão ganhando é justa (vide Grant Morrison?)

Vendo de fora, me parece um movimento bacana. Mas como eu disse, é uma opinião mais baseada na minha visão ainda meio ingênua do mercado do que em informações de fato.

@e: Dito isso, você tem vontade de fazer gibi de super-herói, Marvel / DC?

@m: Eu estou TÃO distante dessa realidade, que não consigo nem imaginar. Não tenho estilo, não tenho a velocidade necessária (páginas/dia), e, principalmente, não vejo o que eu gostaria de fazer. Só consigo imaginar algo como Bizarro Comics ou Strange Tales, porque aí você pode pelo menos fazer uma paródia, mexer mais com os personagens, podia ser engraçado. Eu ia querer um personagem bem esquecido, tipo, sei lá, o Luke Cage ou o ROM.

@e: Falando em crise e alternativas: conteúdo digital. Como você enxerga a distribuição da obra via web comics ou iniciativas como ComiXology ou Madefire (plataforma digital criada pelo Dave Gibbons, artista de Watchmen, cujo principal atrativo é a interatividade —animações e sons)? Rola HQ em tablet?

@m: Vou te dizer que já há bastante tempo eu leio HQ em tablet. Me acostumei. Mas tenho um certo limite: eu só leio quando é algo que eu acho que eu preciso ler, quase como estudo. Tipo as coisas que o Frank Quitely desenha, ou o Alex Maleev, umas coisas do Grant Morrison. Todas as coisas que eu gosto DE VERDADE, eu compro em papel. Não vou ler o Asterios Polyp em tablet (nem sei se tem)😉. Não vou ler o Jason em tablet. Mas isso sou eu, uma pessoa que nasceu num mundo que nem tinha internet. Acho que pros “nativos”, não faz muita diferença.

[nota do @espinafrando: pessoalmente, não vejo problemas na leitura de HQs ou livros em tablets, pelo contrário. E isso apesar de não ser nativo. O quadrinho digital perde de goleada do tradicional em apenas um caso: quando a mídia impressa é parte da narrativa, como na própria Love Hurts. A obra do Chris Ware é um exemplo, sendo Building Stories o mais óbvio. Asterios funcionaria num tablet? Possivelmente, embora perdesse muito de seu charme]

Love Hurts
Não espere ver essa arte artesanal num tablet.

@m: Agora o Madefire é outra coisa, né? É uma plataforma diferente, já vi outras tentativas assim. Rola um semi-movimento, rola áudio. Não sei, quase que não é mais a mesma coisa, não parece o território dos quadrinhos. Mas, de novo, talvez eu seja apenas… too old for that shit;)

[nota do @espinafrando: concordo com o Murilo nessa. O problema do Madefire não é tanto o conceito, mas a execução. Os efeitos são over (e, ao mesmo tempo, fica parecendo um sub-desenho animado). Nessa seara, gostei de duas iniciativas: uma delas é a Marvel com seus quadrinhos Infinite — ao invés de movimento, o formato “brinca” basicamente com foco, enquadramento, iluminação e transição de cenas. Tive a oportunidade de ler duas edições e a coisa é bem orgânica e sutil, além de aumentar as possibilidades narrativas. O outro quadrinho interativo de que gostei é independente, na forma de um app dedicado, e se chama Botton of the 9th. É uma experiência fascinante, misturando HQ com animação de alto nível. A arte é estonteante e as imagens estáticas abaixo não fazem justiça à beleza dessa história.]

Bottom of the 9th
Bottom of the Ninth

@e: Brasil. Como vê o mercado de quadrinhos nacionais? Dá pra viver de HQ?

@m: Se dá eu ainda não sei como.😉 Mas estou tentando descobrir. Acho que coisas como a Love Hurts, há uns anos atrás, eram quase impossíveis de existir. Hoje ela existe, mas não quer dizer que dá dinheiro. Toda grana que eu ganho com minha HQ eu gasto em divulgação. Talvez com mais livros role, mas mesmo assim, ainda acho difícil ser só autor. Ainda não consigo ver como a conta fecha. Mas paguei o supermercado do mês com a grana da Fest Comix, já é um começo.

@e: Qual é a próxima obra em que está trabalhando? Sobre o que é? Quando (e como) sai? Estamos ansiosos por mais!

@m: Eu tava contando isso numa outra entrevista agora a pouco. Eu era – e sou um pouco ainda – muito ingênuo com essa coisa de fazer quadrinhos. Quando fiz a Love Hurts eu não achava nada, achava que era só mais um dos meus fanzines, uns amigos e umas pessoas iam achar bacaninha e pronto. Sempre tinha sido assim, eu já ficava feliz só por ter feito uma coisa legal. Aí, quando lancei e ela começou a vender, comecei a receber feedback das pessoas e tal, eu fiquei super empolgado. Achei que ia sair fazendo HQs sem parar!😉 Achei que esse ano eu teria mais umas duas HQs, pelo menos. Eu não contava com a divulgação, com o prêmio (pensando bem, até fiz uma mini-HQ esse ano, mas quase que não conta, né?) com o trabalho de tradução da Love Hurts pra inglês, com as viagens… Tudo isso tomou tempo e de repente já é novembro e as HQs ainda estão na minha cabeça. Acho que a coisa mais próxima seria uma espécie de continuação da Love Hurts, porque ainda acho que dá pra contar histórias nessa estrutura. E eu queria muito fazer um outro tipo de história, talvez uma HQ sem texto, talvez uma HQ mais longa com uma história mais linear. Mas no momento eu só tenho um personagem, ainda não tenho uma história.

@e: Pra encerrar, como artista, imagino que você deva ser ávido consumidor de cultura pop. O que você recomenda aos 3 leitores do espinafrando.com? Vale quadrinhos, livros, séries, filmes ou música.

@m: Tá. Todo mundo já viu o Moonrise Kingdom? Então vejam o Darjeeling Limited, que pra mim é o melhor filme do Wes Anderson. Leiam o Paying For It do Chester Brown. Ouçam o disco solo do Ben Gibbard (Death Cab for Cutie) e aguardem ansiosamente pela volta de Breaking Bad.

@e: Valeu, Murilo! Obrigado pela entrevista e pelas dicas! E vê se começa logo a pôr no papel essas histórias que estão na sua cabeça. O mercado de quadrinhos brasileiros precisa de mais artistas com a sua inventividade, produzindo obras autorais.🙂

***

[todas as fotos que ilustram esse post, exceto a montagem do Bottom of the Ninth, foram cedidas gentilmente pelo Murilo Martins]

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s