L.O.A.S. – A TV pós-TV

A Era do Rádio (ou da TV)

A Evolução do Televisor

Como toda mídia, a televisão foi pensada como um veículo de e para a massa. Foi só com o advento do controle remoto que descobrimos a necessidade de buscar uma experiência mais individualizada de consumo de conteúdo na TV.

Desde então, começamos essa busca incessante para fugir do controle das emissoras.

Primeiro, veio a fuga instantânea e cômoda de um programa chato ou dos abomináveis comerciais, acompanhada de um novo verbo: zapear. Logo, isso não era mais o suficiente.

Surgiu o videocassete. “Agora sim, podemos assistir ao que quisermos, avançar e retroceder, e até gravar conteúdo para assistir quando der na telha.” Mas, na prática, ainda dava muito trabalho e a programação continuava vencendo 90% das vezes.

Veio, então, a TV a cabo e sua promessa de centenas de canais frente à meia dúzia então disponível em VHF e UHF. “Vai ser impossível não encontrar nada de bom para assistir com tantos canais disponíveis!” E, como pagaríamos para ter acesso, a promessa também veio acompanhada da falsa premissa de que teríamos menos comerciais. Ledo engano, em ambos os casos.

Outras promessas vazias vieram, o pay-per-view, a transmissão digital interativa, mas nada mudou o modo como nos relacionamos com a televisão. Seja pelo preço proibitivo, pela dificuldade técnica, pela restrição e/ou qualidade do conteúdo ou pela falta de conveniência.

O fato é que, em pouco mais de 60 anos desde a primeira transmissão da TV Tupi em solo brasileiro, continuamos a consumir programas mais ou menos da mesma forma, na maior parte do tempo.

Inventamos maneiras diferentes de fazer a mesma coisa, complicamos um pouco aqui e ali, pagamos mais por isso, mas, na essência, consumimos TV como consumíamos rádio: aguardando a hora em que a emissora vai passar um programa que nos interessa e trocando de estação em busca de algo para passar o tempo enquanto essa hora não chega. E amaldiçoando o intervalo comercial.

A Era do Rádio

A Era pós-TV

Isso, claro, até chegarmos ao início da Era pós-TV. Em todos esses anos de oligopólio, com pouca inovação de fato, uma nova personagem surgiu, infiltrando-se sorrateiramente bem no meio das linhas inimigas: a internet. Trazendo à tiracolo uma cultura nova em folha —o hábito pasargadiano de acessar o conteúdo que queremos, no momento e no dispositivo em que escolhermos. Na internet, todos somos amigos do rei.

Foi o surgimento dos set-top boxes, dos dispositivos de streaming e, eventualmente, das Smart TVs.

a primeira vez a gente não esquece

No começo do ano, escrevi um artigo em 3 partes falando do lançamento da Apple TV, do surgimento da iTunes Store e do Netflix. Em suma, falando sobre um mundo novo que acabara de descobrir: o consumo de conteúdo digital no televisor.

Daquelas primeiras experiências até hoje, algumas coisas mudaram, outras se aprofundaram e novas surgiram.

faroeste revisionista

iTunes Store BR – O Presente

Em pelo menos um aspecto, minhas previsões naufragaram completamente. Na época, achava que a iTunes Store faria muito mais sentido vendendo e alugando filmes do que vendendo discos. Achava que continuaria comprando CDs, com um ou outro download de música, e que nunca mais iria usar meu Blu-ray player. Aconteceu exatamente o inverso, culpa do custo-benefício.

Comprei mais discos digitais em 2012 do que CDs nos últimos 3 anos, graças à política de preços convidativa, à oferta e à conveniência.

Na seara dos filmes, aluguei menos de meia dúzia e comprei zero.

Verdade seja dita, o catálogo aumentou absurdamente em relação àquelas primeiras semanas de iTunes Store no Brasil. Mas…

Além dos preços serem equivalentes aos das mídias físicas (às vezes até mais caros) e de raramente existirem extras como num disco, há um grande inconveniente que não me ocorreu na época: é preciso escolher entre o filme dublado ou legendado e conviver com a escolha.

Nunca havia considerado a hipótese de assistir a um filme dublado (além de perder muito da atuação, o áudio é horrível). Até virar pai de uma criança que ainda vai demorar pra entrar na fase de alfabetização. Ter a opção de trocar o idioma é fundamental para que nós dois possamos desfrutar o filme.

Netflix BR – O Presente

Por outro lado, o Netflix evoluiu muito nesse tempo. A ponto de ter se tornado a principal opção de entretenimento quando ligo a TV.

O catálogo tem novidades frequentes, incluindo casos em que o lançamento no Netflix aconteceu antes da janela da TV a cabo (Jogos Vorazes, O Artista, Shame).

A empresa começou a investir na produção de conteúdo original —por enquanto, apenas a ótima série Lilyhammer viu a luz do dia, mas já se tem notícia de que uma temporada nova de Arrested Development está a caminho, uma adaptação de um livro de Piper Kerman sobre a vida de presidiárias com participação de Laura Prepon (a ruiva de That's 70 Show), além de uma série produzida por Eli Roth (!) e outra pelo David Fincher (!!).

Hemlock Grove (Eli Roth) & House of Cards (David Fincher)
Hemlock Grove (Eli Roth) & House of Cards (David Fincher)

A opção de mudança de áudio chegou à Apple TV faz tempo (e já era disponível muito antes no XBox).

É um serviço perfeito? Longe disso:

  • Televisão não é só filme e seriado;
  • Tem um bug chato que dá as caras com certa frequência —a legenda perde a sincronização com o áudio quando tento retomar algum programa ou filme do ponto onde parei. O suporte do Netflix diz que é um problema da minha conexão wi-fi. De fato, não ocorre em todos os dispositivos, afeta só a Apple TV. Desconfio que seja um problema de cache.
  • O cátalogo não é eterno. Filmes e séries podem entrar e sair da programação, conforme as licenças expiram.
  • Por último, tem a questão de depender da internet pra funcionar. E a internet costuma cair com mais frequência do que a energia elétrica.

Mesmo assim, o serviço que o Netflix proporciona de finalmente dar a liberdade para escolher o conteúdo e o momento em que quero assistir a algo, sem publicidade (e por um preço irrisório) é uma quebra de paradigma tão grande que só não deixei de assinar a TV a cabo porque ainda estamos no início da Era pós-TV, o que significa que a oferta de conteúdo On Demand ainda não é irrestrita a ponto de nos livrar dos grilhões das operadoras e dos canais tradicionais. Leia-se: eu quero assistir aos seriados da HBO.

a novidade veio dar à praia

Google

Na última semana, o Google entrou com força no Brasil no terreno da TV pós-TV, através de duas iniciativas: o Google Play e o YouTube Movies.

Ambos alugam e vendem filmes, nos moldes da iTunes Store. O Google Play é voltado para dispositivos Android e PCs. O YouTube Movies para computadores, SmartTVs e qualquer outro gadget que acesse o YouTube, incluindo dispositivos iOS.

As similaridades e diferenças entre os serviços estão bem claras nesse post do Gizmodo.

Vivo

A Vivo vem com a promessa de uma nova revolução: a primeira IPTV nacional.

Basicamente, todo o sinal é transmitido via dados, por uma conexão de fibra ótica.

A ideia é melhorar a experiência com a programação normal de uma TV por assinatura: troca instantânea entre canais —adeus aos incômodos segundos de tela preta para descodificação do sinal, gravação de conteúdo para assistir depois, busca de programas otimizada e a habilidade de assitir 2 canais ao mesmo tempo com picture in picture.

Mais sobre esse modelo promissor neste post do Gizmodo.

Além disso, traz a estreia do Vivo Play, serviço parecido com o Netflix, mas mais caro e com menos conteúdo no momento. Detalhes? Tem no Gizmodo.

evoluir para não sucumbir

A TV On Demand é o futuro, disso não há dúvida. Tanto é que os atuais donos do oligopólio estão se mexendo para oferecer alternativas próprias antes que novos players se estabeleçam.

NOW e Muu

A NET é uma que já botou as mangas de fora: criou o NOW, para assinantes de pacotes HD, e se associou ao Muu, da Globosat, que pode ser acessado via web e dispositivos com iOS (mas não nativamente pela Apple TV) e Android.

O NOW é um híbrido entre o conceito do Netflix e o aluguel da iTunes Store.

Na parte Netflix, você pode acessar conteúdo selecionado dos canais que você já assina em seu pacote. Não são todos os canais e nem todo o conteúdo.

E ainda tem uma sacanagem: você pode assinar pacotes do NOW por R$14,99 (mesmo preço cobrado pelo Netflix) para aumentar o cardápio. São dois: um com seriados, filmes, séries e shows (que tem coisas bacanas e exclusivas como as 3 temporadas de Misfits e a série Extras, de Ricky Gervais) e outro só com documentários. A sacanagem reside no fato de você pagar uma fortuna pelo pacote da TV por assinatura, o que, em tese, deveria te dar o direito de acessar o conteúdo pelo qual você já paga.

A parte do aluguel funciona de forma similar à iTunes Store: a diferença é que você paga em R$, não em US$. Os preços giram em torno de R$10,00 em HD, e a oferta de filmes traz muitos lançamentos para locação. Diferente da iTunes Store, a maioria dos filmes dá a opção entre som original e dublado.

O Muu é um Netflix dos canais Globosat (GNT, Multishow, SporTV…). É gratuito pra quem já é assinante da Net. E tem pelo menos um show imperdível: Um Turista Idiota (An Idiot Abroad, criado por Ricky Gervais e Stephen Merchant, com Karl Pilkington vivendo o papel título).

enquanto isso, lá fora…

Nos EUA, as operadoras de cabo também disponibilizam o acesso da programação via web para quem já é assinante (é uma tendência que vem de lá, é claro), aparentemente sem as amarras de conteúdo, mas com restrição geográfica. O The Verge fez um ótimo artigo (em inglês, que você pode conferir clicando aqui) analisando esse cenário do futuro da televisão “inteligente” e da TV Everywhere —a TV em qualquer lugar.

tratamento de canal

Outra opção no cardápio da TV pós-TV é quando o próprio produtor ou canal disponibiliza seu conteúdo sob demanda. Há o caso da BBC, que não funciona do lado debaixo da linha do Equador e à esquerda do meridiano de Greenwich, há o caso da Sony e seu serviço Crackle e há o caso da HBO.

Crakle

O Crackle funciona em computadores e Smart TVs da Sony conectados à internet e possui apps dedicados para PlayStation 3 e dispositivos iOS (exceto Apple TV) e Android.

Para acessar no televisor da sala, é preciso: a) ter uma Smart TV com navegador de internet (uma hipótese, não uma certeza); b) conectar seu computador na TV através de cabo; c) transmitir do seu computador para a TV via streaming caso seu sistema operacional e seu hardware permitam; d) utilizar seu PS3. Mas fica o aviso: as únicas resoluções disponíveis são em 360p e 480p.

No Crackle, você encontra filmes, séries e desenhos da Sony Pictures, de forma gratuita — basta clicar e assistir. Por ser gratuito, espere encontrar publicidade. Tem desde clássicos como Dr. Fantástico até coisas mais recentes como Mais Estranho que a Ficção (2007), além de seriados como O Crítico e até Comediantes em Carros Tomando Café (!). Dá pra fazer um cadastro para criar listas e receber notícias de novas adições ao catálogo.

HBO

A HBO tem dois produtos que já deram as caras por aqui, ainda que de forma tímida.

Um deles é a HBO On Demand, que recentemente entrou na grade do NOW. O que parecia promissor nas primeiras semanas logo se mostrou uma enorme decepção.

Lembram quando falei que uma das características ruins do Netflix era que o conteúdo tem prazo de validade? Bem, o Netflix é o paraíso perto da HBO On Demand. Enquanto lá filmes e séries ficam disponíveis por pelo menos 1 ano, aqui duram algumas semanas. House of Lies foi uma que só consegui assistir a alguns episódios, fora uma dúzia de filmes e documentários que nem tive a chance de começar a ver. Pior do que isso, só a oferta de conteúdo: com esse prazo de validade curto, o catálogo chegou a ficar com ridículos 8 filmes dia desses.

Enquanto esse texto descansava (comecei a escrevê-lo em Novembro), a HBO On Demand do NOW chegou a ficar com apenas 1 filme e zero séries e agora voltou a ter uma oferta razoável, com 22 filmes, 7 seriados (House of Lies voltou!), 5 documentários e 3 shows. Talvez, essa inconstância toda seja um período de testes.

Por outro lado, há a promessa da HBO Go, um serviço via streaming, acessível em computadores com Windows e Mac OS X e futuramente através de apps dedicados para iOS (donde pretendo espelhar a transmissão na Apple TV) e Android. É possível que tenhamos um catálogo mais amplo e por um período maior de tempo. O problema é que, apesar do serviço já ter estreado no Brasil há alguns meses, por enquanto só está disponível para quem é assinante da DirecTV. Sem testar, não dá pra afirmar se vale à pena.

Tanto o On Demand quanto o Go compartilham de uma grave desvantagem: é preciso ser assinante da HBO nos pacotes de TV a cabo para acessar o serviço. Num mundo ideal, pelo menos a HBO Go poderia ser acessível para qualquer um que se dispusesse a pagar uma assinatura mensal do serviço, independente de assinar ou não TV a cabo. Algo nos moldes do Netflix. Seria um serviço matador.

Há um porém para não termos um mundo ideal. A HBO é parte do grupo Time Warner. O conglomerado multimídia, dono dos estúdios Warner Bros., da DC Comics, da CNN e do Cartoon Network —só pra ficar em alguns— tem em seu portfólio uma grande operadora de TV a cabo nos EUA, que atinge milhões de lares. Isso significa que facilitar o acesso ao canal com uma assinatura On Demand, por exemplo, diminuiria drasticamente a oportunidade de lucro do grupo via assinaturas de cabo.

Alguém mais ingênuo poderia argumentar que no Brasil, a Time Warner não atua diretamente com cabo, então o caminho estaria aberto pra nós. Mas há o outro modelo de negócio: o licenciamento dos canais da Time Warner para operadoras de cabo, que envolve milhões de dólares. Além disso, vale ressaltar que a HBO é uma cenoura: por ter conteúdo altamente desejável, ela serve para atrair assinantes para os pacotes premium de TV paga, o que sustenta a operação dos demais canais e de todo o ecossistema. A HBO sozinha poderia se sustentar sob demanda, mas um TNT, Glitz ou Boomerang dificilmente atrairiam público pagante suficiente.

Em contrapartida, a HBO está satisfeita hoje com o papel de boi-de-piranha: tem custo de distribuição praticamente zero e publicidade gratuita, além da grana preta do licenciamento. Um status que se arrisca a perder, caso irrite as operadoras de cabo concorrendo diretamente.

(você pode ler mais detalhes sobre essa dinâmica de mercado nestes posts em inglês do Vulture, do Atlantic e do Daily Beast)

it's alive!

A última fronteira pra entrarmos de vez na Era pós-TV é a parte ao vivo da programação entrar na onda do sob demanda: esportes, programas jornalísticos, shows de variedades e, por que não?, reality shows e novelas.

Já tivemos um gostinho nos últimos Jogos Olímpicos, seja com a transmissão em tempo real do Terra, seja com trechos selecionados no NOW. Mas queremos mais!

globo.tv

A Globo está atenta para a tendência. Com o app globo.tv, usuários do iOS podem assistir a clipes da programação gratuitamente, ou capítulos inteiros da novela pagando R$12,90 por uma assinatura da Globo.com, por exemplo. Além da programação da Vênus Platinada, o app também disponibiliza clipes dos canais Globosat.

Mas atenção: não é ao vivo, tem que esperar o programa ficar disponível. Aparentemente, isso acontece no mesmo dia da transmissão original.

Por que eu preciso disso pra assistir à Globo, quando qualquer TV com Bombril na antena pega o canal de graça?

Uma pergunta pertinente, cuja resposta passa pelas 4 palavras em inglês que definem a Era Pós-TV: TV Everywhere e On Demand.

Imagine que você está viajando, sem acesso ao televisor. Ou que você está trabalhando à noite, bem no dia em que a Carminha vai ressuscitar em Salve Jorge. Ou que você foi num chá de bebê e perdeu o jogo do Timão. Com o app e a assinatura, você ganha uma segunda chance.

Rede TV

A “rede que mais cresce no Brasil” (sic) também tem seu app para iOS. Não tem nada sob demanda, mas transmite a programação ao vivo. Mobilidade é a palavra.

esportes ilustrados

Nos EUA, ligas como a NBA, a NFL, a NHL e a MBL oferecem assinatura direta via web para seus torcedores. A última, inclusive, é acessível nativamente na Apple TV por aqui.

É um pay-per-view melhorado, pra você acompanhar seu time do coração. Além de poder assistir à transmissão ao vivo pela internet, é possível rever jogos passados. E ainda tem a vantagem de não condicionar à assinatura ao local: está na casa de um amigo, num hotel ou no escritório? Basta ter uma conexão Wi-Fi e o problema está resolvido.

Se não dá pra esperar essa iniciativa da CBF, podemos sonhar que a Globo Esportes, o Clube dos 13 ou os próprios clubes sigam por esse caminho, eventualmente.


Ainda no lado de cima da América, uma experiência controversa está rolando com um serviço chamado Aero (matéria completa em inglês no The Verge), que simplesmente retransmite via internet 20 canais tradicionais ao vivo, com a possibilidade de cada assinante gravar até 40 horas da programação por vez. O mais interessante é a política comercial: além da tradicional assinatura mensal (US$12,00), você também pode comprar 1 passe diário por US$1,00 —ideal para assistir aquele jogo ou evento único.

o futuro ideal

Dado o panorama atual, ainda há muito o que evoluir. Principalmente no Brasil.

A primeira barreira é tecnológica: precisamos de uma banda larga decente, que seja rápida, estável e, acima de tudo, economicamente viável para as massas.

Enquanto a internet veloz não se popularizar e realmente se tornar uma ferramenta de inclusão social (por mais que muitos tenham verdadeiro ódio pela “orkutização” de seus clubinhos fechados e adorem uma segregação), a TV por streaming continuará como já é: uma promessa, um caminho com potencial, restrito a um nicho, com poucas opções.

A TV, seja analógica, digital, a cabo ou pela internet, é um veículo de massa em sua essência. Se não houver demanda, não há incentivo para que o status quo se modifique.

Para existir demanda para a experiência personalizada que tanto almejamos, a infraestrutura é o primeiro passo. O seguinte é a oferta de conteúdo.

Uma coisa que as produtoras e distribuidoras de programas televisivos precisam colocar em pauta é a discussão do modelo de negócios atual.

Mesmo com a taxa de assinantes da TV paga crescendo desde 2010, ela ainda atinge apenas 1/4 dos domicílios brasileiros. Desconfio que esse quadro não é somente por causa do preço, mas principalmente por causa da relação custo-benefício. Consideramos os pacotes das operadoras de cabo caros porque não nos satisfazem plenamente.

Não conheço ninguém que morra de amores por esta ou aquela operadora. De fato, o único consenso é que trocar de empresa é trocar de problema.

Vivemos uma ilusão: a de que consumimos TV no livre mercado, de que nós temos o poder da escolha. Não temos.

Nos primórdios da TV paga, isso até podia ter um fundo de verdade. Quando a briga era entre NET e TVA, quando se precisava optar entre SporTV e ESPN, entre Telecine e HBO. Mas há tempos que esse cenário de opções excludentes se modificou.

NET e Embratel, Vivo (ex-Telefônica) e TVA, DirecTV e Sky, [insira o nome da operadora], são todas parte de um grande conluio econômico. Os mesmos canais estão disponíveis nos mesmos pacotes, com uma ou outra exceção, pelas quais se cobra R$10,00 a mais ou a menos. É o que se poderia chamar de cartel ou truste.

Essa situação só irá mudar quando um dos participantes se sentir mais ameaçado que os demais, seja por um novo player que apareça com uma proposta diferente e com grande adesão pelo público, seja porque um dos “concorrentes” atuais esteja canibalizando o outro.

E há um caminho natural para a oxigenação do mercado de TV à cabo, que vai de encontro com os princípios da personalização da experiência: a extinção dos pacotes.

Garanto que a primeira operadora que tiver a coragem de deixar que cada um de seus clientes escolha quais canais deseja assinar, à granel, sem contrato de fidelidade, podendo alterar a cada mês quais farão parte da sua seleção, bem, essa operadora vai engolir o modelo de negócio atual e obrigar a inovação de seus concorrentes, acelerando o processo da Era pós-TV.

Outro passo natural que espero ver nos próximos 10 anos é que mais canais e estúdios se tornem distribuidores, com conteúdo em streaming sob demanda, mas sem a necessidade de ter uma assinatura de TV a cabo. Quero poder assinar a HBO Go num PlayStation, Xbox ou set-top box, por um preço condizente com apenas 1 canal. É um passo inevitável a longo prazo, só é difícil descobrir quando e quem vai tomar a iniciativa.

No lado pay-per-view, o preço do aluguel precisa cair. Não faz sentido pagar 1/5 ou 1/4 do preço de um Blu-ray para ter o direito de assistir um filme apenas uma vez. É preciso mirar em volume. Até porque o custo de uma operação virtual não é o mesmo de uma locadora, digamos.

TV sob demanda é a bola da vez. É o contrário do que o Poder Legislativo do Brasil pensa, ao querer enfiar goela abaixo do telespectador conteúdo nacional no horário nobre.

Para ter sucesso e se popularizar a ponto de substituir o modelo atual e a pirataria, o On Demand precisa seguir a simples receita: amplo conteúdo diversificado, transmissão de qualidade, preço justo, flexibilidade nos planos de contratação e, principalmente, tem que ser tudo descomplicado como a TV sempre foi: a programação tem que estar ao alcance de 2 cliques, no máximo. Quanto mais instantâneo, melhor.

E aí, o que você pensa a respeito? Qual será a próxima revolução depois do controle remoto?

 

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