espinafrando a estreia: O Hobbit – Uma Viagem Inesperada

O Hobbit - Uma Viagem Inesperada

Lá e de volta outra vez. É esse o título simplório escolhido por Bilbo Bolseiro para suas memórias (embora tenha soado pomposo em sua cabeça —coisas de hobbits).

De certa maneira, a frase que também será subtítulo do encerramento da nova trilogia de filmes em 2014, diz muito sobre o que esperar do retorno de Peter Jackson à Terra-Média em O Hobbit – Uma Viagem Inesperada.

Peter Jackson dirigindo O Hobbit

A sensação ao final das 2 horas e 48 minutos dessa primeira aventura é de total familiaridade. Estamos de volta ao mundo fantástico de O Senhor dos Anéis, para o bem e para o mal.

Nessa época em que o imediatismo, o pragmatismo e a tecnologia imperam, há de se ter certa predisposição para gostar do gênero de fantasia, condição sine qua non para aproveitar O Hobbit como deve ser.

Mesmo tendo adorado o filme, dá pra perceber que muita gente vai detestar: de cara, se você não curtiu a trilogia d'O Senhor dos Anéis, não perca seu tempo com O Hobbit. Nada do que tem ali vai te agradar. É sério.

Provavelmente, uma parcela do público que gostou d'O Senhor dos Anéis e que nunca teve contato com o livro d'O Hobbit vai se chocar com o tom mais bem humorado da nova aventura.

E, claro, sempre vai existir o pessoal hardcore que devorou tudo de Tolkien e simplesmente vai achar pelo em ovo por causa da ADAPTAÇÃO!!! “Na página 12, Bilbo dá 3 cachimbadas ao invés de duas! Peter Jackson, seu herege!” Pra esses, fica o conselho Marta Suplicy: relaxa e goza.

De certa maneira, O Hobbit é um livro mais difícil de se adaptar pro cinema do que O Senhor dos Anéis. O estilo e a linguagem são infantis, mas há batalhas e mortes doídas que não são comuns ao universo da criança. Há tensão, mas não sisudez. É fábula bem humorada. Os próprios nomes dos personagens são cômicos (Bilbo, Oin, Gloin, Ori, Nori, Dori, Fili, Kili, Balin, Dwalin, Bifur, Bofur, Bombur, Gollum, Smaug), o que gera certa expectativa: é possível pronunciá-los em voz alta sem perder a dignidade?

Os anões d'O Hobbit

Fazer tudo isso casar com o tom épico de O Senhor dos Anéis é tarefa difícil, que Peter Jackson consegue executar com certo êxito.

Há um ou outro exagero na comédia física que incomodam. As sequências envolvendo Radagast, o Castanho (mago da mesma ordem de Gandalf) via de regra pendem para o rídiculo, e não posso deixar de citar a cena do arroto dos anões como um ponto baixo, ainda que necessário para caracterizar o contraste entre os modos bárbaros do povo de Durin frente à ordem e pasmaceira da vida de hobbit.

Gandalf e Radagast

(os trolls não entram nesse rol. Ser nojento é coisa de troll)

Trolls

Mas, no geral, o equilíbrio entre humor e seriedade, entre o infantil e o épico, é alcançado.

O peso da mitologia da Terra-Média, que no livro passa quase desapercebido, escondido em passagens subentendidas fora do curso de ação principal, em breves citações históricas ou em nomes há muito esquecidos, florece com todo seu esplendor na tela do cinema.

O trabalho da direção de arte e design de produção está embasbacante. Erebor, o reino dos anões sob a montanha, já figura entre as coisas mais belas e grandiosas já vistas pelo olho humano. O senso de escala é de tirar o fôlego e de envergonhar a Asgard de Thor. Valfenda e a Vila dos Hobbits continuam lindas, graças à WETA Digital e à Nova Zelândia. E o covil dos orcs é incrível!

As paisagens de O Hobbit

(falando nisso, não dá pra deixar de mencionar o design do Grão-Orc, com um tumor grotesco fazendo às vezes de barba)

O Grão-Orc

Uma diferença clara de tom para O Senhor dos Anéis é que a Terra-Média de O Hobbit é muito mais mágica. As criaturas falantes contrastam bastante com os orcs e trolls da primeira trilogia, que não eram lá muito articulados. Há gigantes de pedra (saudades de A História Sem Fim!).

Gigantes de Pedra

E o terrível dragão Smaug (interpretado por Benedict Cumberbatch, nova coqueluche britânica, astro de Sherlock, e que também estará no vindouro Star Trek), ainda que não tenha aparecido de corpo inteiro —o mesmo recurso usado por Spielberg em Tubarão, embora com propósito diferente— já se mostra uma ameaça digna e deve corresponder à promessa de entrar para o cânone de antagonistas inesquecíveis do cinema.

Em pelo menos um aspecto O Hobbit salta na frente d'O Senhor dos Anéis. O nome dele é Martin Freeman (que repete a dobradinha de Sherlock com Cumberbatch). Dificilmente poderia haver casting melhor. O protagonista dá um banho no Frodo insosso e emo dos filmes anteriores. Além de um timing perfeito para o humor, Freeman ganha o cinespectador nas sutilezas de gestos e olhares. É carisma puro.

Martin Freeman é O Hobbit
Martin Freeman é O Hobbit

O resto do time apresenta a competência costumeira, com destaques óbvios para o Gollum de Andy Serkis e para Sir Ian McKellen, cada vez mais à vontade na pele de Gandalf, o Cinzento. Dá pra ver como ele se diverte no papel.

Gollum

Aquilo que sempre reclamo, de não se fazerem mais trilhas marcantes como antigamente, não tem espaço n'O Hobbit. Howard Shore arrebenta, repaginando os temas de O Senhor dos Anéis e trazendo novas composições de uma beleza que vou te contar (o tema de Thorin Escudo-de-Carvalho, em especial). É aquela coisa de acentuar a emoção no momento exato, sem descambar para o meloso.

Thorin Escudo-de-Carvalho

Sobre a controversa questão de um livro tão curto ter virado uma trilogia de longos longas, o meu maior receio foi desmentido. Pelo menos nesse primeiro episódio, não existem cenas desnecessárias, encheção de linguiça. Ao contrário: a adição de passagens presentes nos anexos do livro O Senhor dos Anéis e nos Contos Inacabados acabam dando mais substância à história original. Não bastasse isso, uma das primeiras cenas d'O Hobbit faz a ponte entre as trilogias cinematográficas, com a participação de Ian Holm como Bilbo e Elijah Wood como Frodo.

Ian Holm e Elijah Wood / Bilbo e Frodo

Mas tudo o que escrevi até aqui é acessório. Se você curte o gênero fantasia e em especial a obra de J. R. R. Tolkien, O Hobitt tem tudo pra encantá-lo(a). Porque é uma história linda, um rito de passagem e de construção de caráter, uma fábula cuja moral da história é que não importa quem você é ou o seu tamanho: o que conta são as suas ações. Então, deixe de lado a racionalização, liberte a sua imaginação e corra para aproveitar essa experiência no cinema.

O Hobbit
Uma Viagem Inesperada

P.S.

Assisti à projeção mais convencional possível: 35mm, 24 quadros por segundo, em 2D.

No fim de semana, devo conferir o outro extremo: digital, 48 quadros por segundo (a grande inovação de Peter Jackson) e 3D.

Assim que der, posto as impressões.

 

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