espinafrando a estreia: Django Livre

A crueza de Cães de Aluguel. O hype (plenamente justificado) de Pulp Fiction. O subestimado Jackie Brown. A vingança multilateral de Kill Bill. O estiloso À Prova de Morte. O eloquente Bastardos Inglórios.

Um filme de assalto. Um que resgatou e sedimentou o gênero pulp no imaginário popular. Um blaxploitation. Um filme de Kung Fu. Um filme de perseguição. Um filme de guerra.

Mais do que emular gêneros, Quentin Tarantino criou uma filmografia de respeito, com o respeito e a subversão de um apaixonado pelo cinema. Sempre deixou sua marca, a ponto de seu sobrenome virar adjetivo.

Django Livre, o western sulista —southern?— que estreia 18 de janeiro nos cinemas, vem se juntar à coleção.

Django Unchained

Django Livre é o melhor filme de Quentin Tarantino até aqui.

Uma acusação séria, mas as evidências são claras e irrefutáveis.

Tudo o que Tarantino já criou desemboca neste faroeste pós-moderno. E fuck Spike Lee, que não viu, não gostou e perdeu um filmaço no cinema.

De racista, Django Livre não tem nada. Ou melhor, tem tudo: escancara a podridão e o absurdo que é a segregação racial e faz troça da barbárie que é a escravatura. Ou pelo menos foi assim que interpretei. Depois de ter lido sobre as reações que o filme tem causado entre algumas pessoas de pele negra, fico em dúvida se é sadio generalizar.

Mas estou colocando a carroça na frente. O propósito do espinafrando.com (quase) sempre é o de analisar a obra sob o prisma da cultura pop. Aqui, cinema –e arte, de forma geral— é considerado acima de tudo entretenimento. O que também não significa que entretenimento deve ser descerebrado e não pode causar reflexão. Enfim, voltemos ao filme.

Tudo o que você precisa saber sobre a trama de Django Livre está no trailer. Que, raridade atualmente, explica o básico sem entregar o ouro. Acredite: há bastante ouro nas 2 horas e 45 minutos de Django. E apesar da alta minutagem, o tempo passa voando.

A estrutura do roteiro é algo que me chamou a atenção. Apesar de trazer uma história bastante linear, sem a frequente divisão em capítulos, cada cena pode ser facilmente “desmembrada”, como se o todo fosse uma coleção de esquetes, cada um com começo, meio e fim próprios, cada um com um tom diferente (uns são pura comédia, outros são tensos ou violentos, ou contemplativos, ou românticos… deu pra entender?), mas que juntos contam uma história maior. E esses “esquetes” ou “capítulos disfarçados” se ligam um no outro de forma tão orgânica que você quase não os percebe como “independentes” enquanto está assistindo —pra mim, a ficha só caiu agora, enquanto escrevo. Méritos da edição, certamente.

Já que mencionei os tipos de emoções causadas por esses esquetes, vale aprofundar um pouco mais. As partes engraçadas são REALMENTE engraçadas: nada de sorriso com canto de boca, o negócio aqui é pra dar gargalhadas à sério. Dentre todos, dois segmentos se destacam na parte cômica: a escolha da roupa e a formação da pré-Ku Klux Klan, com uma ponta de Jonah Hill (e aqui, reitero que mostrar a idiotice dos racistas não me pareceu ter nada de desrespeitoso ou de racista per si, como quer fazer crer Spike Lee. Não é questão de amenizar o holocausto sulista, mas de rebaixar seus perpetradores).

Outro ponto que merece destaque é a violência, que destoa do registro habitual de Tarantino. O contraste maior talvez seja com Kill Bill, que abusava da violência estilizada, tirando o peso das cenas de cabeças e membros decepados. Em Django Livre, as cenas violentas trazem um quê de hiper-realismo. Há sangue em abundância, claro, mas de um jeito feito pra chocar e embrulhar os estômagos mais sensíveis. Algo próximo ao que foi visto em Drive (mas com um tantinho a mais de fluidos). Essa pegada chocante se mantém mesmo, ou especialmente, quando a violência não é mostrada de forma explícita e fica de fora do enquadramento.

Django Livre

São essas pequenas diferenças de tom em relação ao restante da filmografia que tornam Django Livre único. É como chamar um Quarterão com Queijo de Royale with Cheese e ter cerveja em copo de vidro no McDonalds.

O que nos leva aos diálogos. Falar dos diálogos de Tarantino sem cair no clichê é tarefa inglória e bastarda. Então, sim, o filme está recheado de frases de efeito e dos ótimos duelos verbais de sempre. O falatório desenfreado nunca esteve tão presente, aliás. Bandidos e mocinhos se comportam como o arquétipo do vilão de James Bond, que adora uma palestra antes da ação propriamente dita. Se isso é bom ou ruim, vai depender dos seus gostos pessoais —eu, prolixo que sou, adorei.

Duas duplas são responsáveis por boa parte desses diálogos.

A primeira é formada pelo Dr. King Schultz (Christoph Waltz), o alemão caçador de recompensas, e por Django (Jamie Foxx), o escravo liberto.

Christoph Waltz & Jamie Foxx
Dr. Schultz & Django

Christoph Waltz repete seu Cel. Hans Landa, com a chave maniqueísta virada pro lado do bem. Mesmo com o déjà vu, é impossível não se deleitar com a atuação de Waltz. Seu Dr. Schultz já entra para o rol de grandes personagens do cinema e é o verdadeiro motor que faz avançar a história.

E aí temos o Django de Jamie Foxx. O herói vingador mais bad ass de que se tem notícia desde Will Munny —”(…) será conhecido como o gatilho mais rápido do Sul“.

O D é mudo.

Foxx consegue uma ótima performance, representando bem todas as nuances que a personagem exige ao longo da narrativa: a inocência, a ignorância, a inteligência, a abnegação, a fúria, o humor, o desespero, a esperteza, a força, a fraqueza… Pensando bem, a personalidade desse Django não é lá muito bem definida: a evolução do ponto A, no início da história, ao ponto B, no final, é incrível (pra não dizer implausível), mas de novo, isso é imperceptível durante a sessão. Talvez porque Django represente um herói mitológico, uma força da natureza, e como tal, prescinda de lógica.

De toda forma, é só quando M. Calvin Candie (Leonardo DiCaprio) entra na trama que damos graças aos céus que Will Smith desistiu de Django Livre. Porque não dá pra imaginar O Maluco no Pedaço assumindo o lado escuro que Jamie Foxx imprime ao personagem a partir dali.

Django Foxx vs. Django Fresh Prince
Django Foxx vs. Django Fresh Prince. Rola?

DiCaprio é o primeiro integrante da outra dupla falastrona, num de seus raros papéis como antagonista. Vem com uma atuação madura e impressiona ao não sair do personagem numa cena-chave em que machuca a mão de verdade, sangrando pra valer.

Leonardo DiCaprio / Calvin Candie
Isso aí não é sangue cenográfico, de acordo com o IMDB

Seu Calvin Candie é um bom adversário, uma presença, mas um tanto cego pelo poder. Faz maldades absolutas, mas não é o mal encarnado. É um lazarento mesquinho. Em suma, não é um vilão memorável. Esse papel coube à outra metade da dupla, que aparece apenas no último quarto do filme: Stephen (Samuel L. Jackson).

Sem entregar tudo, dá pra dizer que Sam Jackson faz um mix de Keyser Söze e Elijah Price, seu subestimado papel no subestimado Corpo Fechado. Stephen causa medo.

Django & Schultz vs. Candie & Stephen
Django & Schultz vs. Candie & Stephen

Por fim, a última personagem que merece apresentação não é exatamente uma personagem, mas um MacGuffin (pra quem não está familiarizado, é o termo popularizado por Hitchcock para designar algo sobre o qual gira a trama e motiva protagonistas e antagonistas, sem necessariamente ter relevância para o público).

Falo de Broomhilda Von Shaft (Kerry Washington —que curiosamente já foi par de Jamie Foxx em Ray), a esposa perdida de Django. É irônico que o único papel feminino com algum destaque seja completamente vazio, embora importante. Broomhilda não passa de uma princesa em apuros.

Kerry Washington / Broomhilda Von Shaft

E isso não é culpa de Kerry, que tem de enfrentar cenas bem desagradáveis e o faz de forma crível. É parte do roteiro de Tarantino. Provavelmente, tem a ver com o fato do faroeste ser essencialmente machista, brincadeira de menino, mocinho e bandido. É curioso que as feministas (ainda?) não tenham entrado em cruzada contra o filme. Talvez porque Django Livre não tenha apelo junto ao público feminino?

Se o western talvez não seja o gênero preferido das mulheres, certamente é uma das paixões do diretor. Esteve constantemente presente em sua obra: às vezes na estrutura (olá, Kill Bill), às vezes em enquadramentos, e quase sempre nas trilhas, ao som de Ennio Morricone.

Em Django Livre, Tarantino desfila todo seu arsenal do Velho Oeste, com close ups extremos, plano e contraplano, cavalgadas ao pôr do sol e todo tipo de imagem icônica.

Além de acrescentar suas crias: a bela sequência na neve, o tabu do escravagismo aprofundado até a rinha de homens-cães, a densa cena de abertura filmada de cima, o pistoleiro alemão que traz a reboque a mitologia germânica e a tradição da contação de história numa tela improvisada na pedra, os grafismos pulp e o uso genial da película desgastada para emular memórias (como num filtro do Instagram). Django Livre é o filme mais cinemático de Tarantino.

Django Livre

E a trilha sonora é uma quebra de paradigma, mesmo usando os mesmos elementos de sempre.

Quentin Tarantino

A fusão de soul, Morricone e música moderna fora de contexto (cujo ápice é o duelo póstumo entre James Brown e 2Pac) funciona lindamente no filme, porém com um elemento inédito e meio triste: não “bate” fora da tela, como você pode experimentar aí embaixo. É o primeiro álbum curado pelo Tarantino que não faço questão de ter em minha discoteca.

Com tudo isso, Django Livre se prova o ápice da carreira do diretor e roteirista (que ainda faz uma ponta explosiva). O único erro que encontrei é de continuidade e envolve a espuma dum chope. Considerando que Quentin Tarantino já colocou um pé no terror ao escrever e atuar em Um Drink no Inferno, só falta agora uma ficção científica para seu currículo.

Quentin Tarantino's Django Unchained

P.S.

Fique até a última linha dos créditos para ver a cena escondida.

 

9 comments

  1. Cara, acabei vendo o Django Unchained. A musica eh daquela filme velho Django, que passava no ‘Bang Bang a Italiana’ do extinto Canal 7, Record, aquele que o cara tinha um mega metralhadora. Achei o filme excelento!

    • Foi o western spaghetti que inspirou o Django Unchained (inclusive, o ator que fez o Django original faz uma ponta na cena do bar do filme do Tarantino).

      Mas confesso que nunca assisti, por isso me surpreendi com o teu comentário.

  2. Outro erro de continuidade diz respeito à plantação em frente a Fazenda CAndyland. Quando Django chega a fazenda ela está baixa, na altura da cintura dos personagens e em menos de 48 horas, no final do filme, ele está bem mais alta que os cavalos. Seriam necessários algumas semanas para crescer tanto.

      • Eu percebi outros erros de continuidade, quando o Django mata os capatazes que o estão levando para a mina, a jaula dos outros negros está fechada, e logo depois está aberta… outro erro que eu vi foi dentro da fazenda, quando Django solta a vela ela não cai no chão, ela desaparece… e por último mas não menos importante, quando Django atira na Srta Lara, o corpo dela vai pra direção errada, o Django atira quase de lado mas ela vai pra trás.

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