Dica Duca – Fábulas

…era uma vez…

Dando continuidade à missão de acabar com a pilha de leituras pendentes após a conclusão de Ex Machina, encarei uma maratona de 4 volumes de Fábulas na sequência.

A Pilha de Leituras Pendentes

Essa é outra HQ sobre a qual já comentei brevemente nessas Mudinhas (onde decretei que Fábulas é “o Sandman dos anos 2000” e onde descobrimos que o conceito de “brevidade” é bastante relativo no espinafrando.com), e que estava merecendo uma dica duca há tempos.

porque é bom

As primeiras 75 edições (11 volumes) tratam da vida de personagens clássicas dos contos infantis, expulsas de suas Terras Natais —o mundo do faz de conta— para o exílio forçado em nosso mundo real. O responsável pela migração em massa é um conquistador chamado de O Adversário (que mais ou menos no meio da saga se revela outra fábula bastante popular e insuspeita).

Entre aspectos triviais do cotidiano, romances, espionagem, política, intrigas e jogos de guerra, Bill Willingham constrói de forma cadenciada um épico emocionante, que faz rir, chorar e chega a tirar o fôlego, desembocando no confronto definitivo contra O Adversário.

Fábulas

Fábulas é uma daquelas histórias que só se justificam em quadrinhos. E isso não é demérito, pelo contrário.

Não é que a estrutura da narrativa traga grandes inovações, como as obras de Chris Ware ou Asterios Polyp. Na verdade, mesmo que Fábulas seja muito bem escrita (sempre) e desenhada (na ampla maioria das vezes), a forma de contar a história é bem convencional.

O que torna Fábulas algo difícil de funcionar em outras mídias é justamente sua temática, que une o fantástico e o mundano com perfeição.

Os quadrinhos são o melhor espaço para tratar do absurdo. Nenhuma mídia aceita tão bem seres superpoderosos vestindo colantes coloridos, imortais com séculos de vida e todo tipo de esquisitices. Faz parte do meio desde sua gênese. É como se a suspensão da descrença atuasse de maneira mais aguda na HQ. Basta a história ser boa para funcionar. E, no caso de Fábulas, a história é muito boa e muito bem contada.

Trazer personagens como a Branca de Neve, o Príncipe Encantado, os 3 Porquinhos, a Bela e a Fera, João das Lorotas, o Lobo Mau, Pinóquio, o Barba Azul, Mowgli, os gigantes das nuvens acima do pé de feijões mágicos, os macacos voadores de O Mágico de Oz ou a bruxa de João e Maria para o mundo real, com uma abordagem realista em que precisam se sustentar financeiramente, se apaixonam, transam, ficam bêbados, sangram e morrem, é tarefa das mais complicadas. Principalmente sem descambar para a comédia (escrachada ou involuntária).

É por essas e outras que Once Upon a Time, o seriado com pessoas reais que segue a mesma temática, não funciona. Cai no ridículo.

Outro ponto que torna Fábulas inadaptável para o cinema ou TV é o “orçamento” infinito que só o nanquim e a imaginação proporcionam. E isso se aplica especialmente às grandiosas batalhas nas Terras Natais, de proporções bíblicas.

Por outro lado, acredito que extrair os desenhos da equação e partir para o formato livro também seria impraticável. Correria o risco de soar ao mesmo tempo pretensioso e fútil. Infantilizado demais para adultos e adulto demais para as crianças. Por mais que os roteiros e o texto de Bill Willingham sejam soberbos.

porque é duca

Fábulas traz tudo aquilo que você pode desejar de um mash up épico. Incluindo, mas não se limitando a, sexo e violência.

E a boa notícia é que a saga ainda parece ter muito fôlego pra gastar, já que mesmo com a conclusão monumental do arco contra O Adversário e de seu epílogo (que poderia muito bem ter encerrado a série com chave de ouro), o último volume publicado pela Panini inicia uma nova fase com uma ameaça ainda maior, mantendo a mesma qualidade.

Fábulas

Mas talvez, o que mais atraia nesse gibi sejam os detalhes, que às vezes se manifestam em pequenos contos em forma de interlúdio entre um acontecimento bombástico e outro.

Como os reflexos que a maldição da Rapunzel podem trazer para o cotidiano, quando se precisa esconder elementos fantásticos da população de Nova York. Ou as consequências que a anistia (todos os crimes e maldades cometidos pelas fábulas na vida pré-exílio foram perdoados para garantir o convívio pacífico da comunidade) traz no dia-a-dia, quando se coloca numa mesma sala Chapéuzinho Vermelho e o Lobo Mau ou o Príncipe Encantado e todas as princesas que ele porventura conquistou (Branca de Neve, Cinderela e outras). Ou ainda a dinâmica d’A Fazenda, local aprazível onde as fábulas inumanas (animais falantes e outros “bichos”) ficam confinadas, fora da vista dos mundanos, e que gera uma interessante parábola sobre totalitarismo e liberdades civis.

Junte a isso a metalinguagem como as releituras das Mil e Uma Noites ou da Revolução dos Bichos e você tem algo digno de atenção.

Em meio a tantos lançamentos bombásticos e até mais badalados, é fácil esquecer o quanto Fábulas é bacana e deixá-la de lado na prateleira, o que só acentua a sensação de “raios, por que demorei tanto pra começar a ler algo tão bom?”.

Essa Dica Duca deve servir como um lembrete permanente para que esse tipo de coisa não mais aconteça. Fábulas é o Xavi das HQs: joga em todas as posições, cadencia e distribui o jogo, defende e ataca com maestria, sempre de cabeça erguida.

Como bônus, ainda traz as belíssimas capas de James Jean (que infelizmente abandona o posto de capista a partir da edição 81, 12º volume).

 

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