Dica Duca – Jimmy Corrigan, o Menino Mais Esperto do Mundo

…pai nosso que estais no céu…

Chris Ware, muito prazer. Já te conhecia de nome, soube que seus quadrinhos eram geniais e que amealharam alguns prêmios literários. Inclusive, já havia recebido muitas recomendações a seu respeito. Mas ainda não tinha reunido forças para acabar com a inércia e te desvendar de perto.

Então, muito prazer, Chris Ware. Decidi começar nossa relação com Jimmy Corrigan, o Menino Mais Esperto do Mundo. E folgo em saber que tudo o que disseram sobre você é verdade.

porque é bom

Jimmy Corrigan, o Menino Mais Esperto do Mundo, é pura poesia e prosa ilustrada, largamente merecedora do American Book Award e do Guardian Prize 2001.

Jimmy Corrigan, o Menino Mais Esperto do Mundo

Como diz a sinopse do autor, na capa do próprio livro: “Uma réplica a cores em tamanho real do desvio cultural de 2000 d.C. tomado por um editor, de resto perfeitamente confiável, que foi tapeado a crer que obras literárias em figuras poderiam de fato render uma grana. Essa edição de Jimmy Corrigan, o Menino Mais Esperto do Mundo traz todos os 3.072 desenhos e 47.339 palavras da obra original, uma história de 388 páginas que cobre três gerações mas foca diretamente em nosso herói, que, embora paralisado pelo medo da rejeição, conhece o pai pela primeira e única vez.

(Jimmy Corrigan é cheio dessas tiradas auto-indulgentes e carregadas de sarcasmo ou ironia)

A grosso modo, a história é essa mesma. Jimmy Corrigan, muito bem definido numa recapitulação mais ou menos na metade do caminho como um “refugo humano solitário e emocionalmente aleijado“, um adulto de 36 anos que se veste como um patético Tintim e cuja definição de vida social é falar por telefone com a mãe controladora que mora num asilo, inesperadamente é contatado pelo pai que o abandonou antes dele nascer. Mais adiante, e em paralelo, começa a história da infância de seu avô, na Chicago do final do século XIX.

(Falando na criação de Hergé, outras semelhanças aparecem na arte, como os traços simples e as cores chapadas em tons pastéis, mas é só)

Jimmy Corrigan, o Menino Mais Esperto do Mundo

Paralelo talvez não seja a melhor definição, afinal, já que o mais interessante é notar a divergência das personalidades desses dois Corrigans conforme suas histórias avançam e suas relações mal resolvidas com as respectivas figuras paternas se desenvolvem —ou não.

Por mais que esses resumos tenham cara de saga familiar, ao estilo Dallas ou García Marquez, o conteúdo enfocado não poderia ser mais prosaico: cenas do cotidiano, onde quase nada de impacto “acontece”, mas que transpiram humanidade e realidade.

Entremeados a esses momentos de pura vida nua e crua, temos um mergulho profundo na psiquê de nosso protagonista, como não lembro de ter visto nada remotamente parecido em livros, filmes ou histórias em quadrinhos. Um mergulho que escancara toda a fragilidade e insegurança que até o mais bruto ser humano tem enterrado em sua alma. Uma viagem onírica de primeira classe.

porque é duca

Parte do êxito de Jimmy Corrigan, o Menino Mais Esperto do Mundo tem a ver com sua narrativa lúdica. Chris Ware expande a narrativa gráfica em quadrinhos utilizando infográficos, fluxogramas e até aqueles esquemas recorte-dobre-e-cole para montar dioramas. O uso de advérbios em destaque (como “então” ou “porém”) fazendo a ligação entre desenhos mudos também entram nessa cota e quebram graficamente a convenção da banda desenhada.

Jimmy Corrigan, o Menino Mais Esperto do Mundo

Continuando no aspecto lúdico, praticamente tudo entre a 1ª e a 4ª capa é “lível“, o que torna este livro um caso particular de imunidade ao meio digital —não vejo como seria possível aproveitá-lo de outra maneira que não fisicamente. Demorei mais tempo na capa e no prefácio do que nas primeiras 20 páginas da história propriamente dita. E se os quadrinhos dão a impressão de trazerem pouco ou nenhum texto devido aos grandes silêncios, Ware é absolutamente verborrágico em seus apêndices. É erudito e sofisticado e sarcástico com o leitor até dizer chega, provavelmente um mecanismo de defesa contra críticos literários e seu suposto ranço contra a HQ como mídia “séria”.

(O manual de instruções e o teste de aptidão para leitura de narrativas gráficas são especialmente engraçados)

A construção da história é bastante peculiar e não dá mostras de onde quer chegar até depois de seu fim. Isso deve agradar e desagradar leitores na mesma medida, a depender do perfil. Particularmente, foi um dos motivos que me fizeram devorar as 388 páginas com o menor número possível de pausas entre leituras.

Entre todas as qualidades de Jimmy Corrigan, o Menino Mais Esperto do Mundo, o destaque fica sem dúvida para as camadas de significado do livro, que se sobrepõem a cada virada de página. O quadro final da história é o ápice, deixando tanto dúvidas como respostas. E o melhor é que depois desse petardo emocional, ainda tem mais conteúdo! O posfácio traz uma revelação que subverte tudo aquilo que você imaginara, dando um peso diferente ao que acabou de ler.

Triste e engraçado, Jimmy Corrigan é nada menos que obrigatório.

 

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