L.O.A.S. – Lincoln

História interessante, mas tratada de forma excessivamente solene e teatral. Spielberg pesa demais a mão e faz um filme caro pra gerar emoção barata.

O roteiro acerta em focar na luta para aprovação da 13ª emenda da constituição americana —aquela que abole a escravatura. O mais interessante é notar como é fácil rotular como absurdo a mentalidade da época, por contraste, em relação a negar os mais básicos direitos civis para negros e mulheres. E como, um século e meio depois, o ocidente ainda continua a discutir quase as mesmas coisas, com quase os mesmos argumentos (vide a união civil entre pessoas do mesmo sexo e as constantes discussões sobre racismo e a criminalização da homofobia).

Mesmo com esse acerto, o roteiro tem sérios problemas de didatismo: explica demais onde não precisa (como na cena em que o secretário de estado contrata lobistas para convencer 20 democratas a votar a favor da emenda e, já na cena seguinte, os próprios lobistas narram o que estão fazendo ENQUANTO estão convencendo 20 democratas a votar a favor da emenda —um caso de dupla redundância), e simplesmente deixa o cinespectador no escuro ao não identificar ou não desenvolver figuras importantes do enredo.

Lincoln

No mais, vemos um processo de canonização, ou melhor, de jesusificação de Abraham Lincoln. Se você espera qualquer traço de humanidade na interpretação (e vamos assumir que é ótima, mas convencional) de Daniel Day-Lewis e Spielberg para o 16º presidente americano, vai sair decepcionado. Lincoln é tratado como o ícone que é para a lenda americana, não como o homem que pode ter sido, apesar de chamar a atenção o seu lado piadista.

Daniel Day-Lewis e Steven Spielberg
O sorriso amarelo não mente

Nada memorável e com constante abuso da trilha sonora para adestrar o público ao tipo de emoção solicitada pela cena, Lincoln é ponto baixo na carreira do diretor. Uma única cena é genial: Abraham e seu filho caçula na Casa Branca aguardam o desfecho da votação da emenda constitucional, quando os sinos dobram anunciando a vitória —a imagem da silhueta do presidente e seu filho na janela, ouvindo a comemoração nas ruas, é bonita demais. Não por acaso, é dos raros momentos sem falas.

Talvez a obra seja mais relevante para os americanos (o Oscar deve ser um bom termômetro), não sei. A primeira coisa que me veio à cabeça após a sessão foi a pompa e circunstância de Ralph Wiggum interpretando George Washington numa peça da Escola Primária de Springfield. Ou seja, é tedioso como qualquer apresentação escolar.

Wiggum e Day-Lewis: os grandes atores de suas respectivas gerações
Wiggum e Day-Lewis: os grandes atores de suas respectivas gerações

E pensar que o mesmo diretor pariu obras-primas ousadas e verdadeiramente emocionantes como Contatos Imediatos de 3º Grau, Tubarão, E.T. e Indiana Jones. Considerando o fiasco de crítica que foi Cavalo de Guerra (o qual não vi) e este Lincoln, talvez seja hora de Steven Spielberg pendurar o megafone para não manchar seu passado glorioso.

 

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