Dica Duca – House of Cards

…o maior truque que o diabo já executou foi convencer o mundo de que ele não existe…

House of Cards é a primeira série produzida exclusivamente pelo Netflix.

[A ótima Lilyhammer foi co-produzida com a TV norueguesa]

House of Cards

David Fincher é o nome por trás do show, na produção executiva —e também dirigiu os 2 primeiros episódios.

Estrelada por Kevin Spacey, Robin Wright (ex-Penn) e Kate Mara (irmã de Rooney Mara, que trabalhou com Fincher em A Rede Social e Os Homens que Não Amavam as Mulheres), e baseada na minissérie da BBC de mesmo nome —escrita por Michael Dobbs, também roteirista dessa versão e autor do livro de origem— House of Cards conta a história do congressista Francis Underwood e suas maquinações para… conquistar mais poder? Um cargo mais alto? Mais prestígio? Influência? Vingança?

Essas interrogações são a essência da 1ª temporada: Frank (Kevin Spacey) é um político influente, espécie de articulador-mor do congresso, e trabalhou na campanha que elegeu o atual presidente dos EUA em troca de ser “promovido” a Secretário de Estado. Quando o presidente assume, dá um chapéu em Underwood e indica outra pessoa para o cargo, desencadeando um plano obscuro que só fica claro no 11º de 13 episódios.

Kate Mara é Zoe Barnes, uma jornalista novata do Washington Herald, onde faz trabalho de estagiária. Inquieta, da geração internet, quer a todo custo o furo que vai catapultá-la ao estrelato.

É na relação dúbia entre o político e a jornalista que a série constrói seu castelo de cartas.

porque é bom

House of Cards tem todas as qualidades do que costumamos chamar de Renascença da TV estadunidense, capitaneada pelos canais HBO e Showtime (e de sua contraparte do outro lado do Atlântico, a BBC): é um seriado instigante, com alguma ousadia no tema e na execução, e produzido com muito esmero, a ponto de rivalizar com o cinema contemporâneo —e às vezes suplantá-lo.

O êxito de House of Cards está em seus personagens e elenco.

Frank Underwood é a força motriz do seriado, o mestre titereiro que conversa com o público e só parece um gênio invencível, mas que no desenrolar da trama se revela um jogador de pôquer a andar sempre no fio da navalha.

Zoe Barnes é a mistura perfeita entre ambição, atrevimento, esperteza e ingenuidade.

House of Cards

Além da excelente dupla de protagonistas, os coadjuvantes muitas vezes roubam a cena.

  • A esposa de Frank, Claire Underwood (Robin Wright), um dos melhores papéis femininos em obras audiovisuais em anos. Fria e implacável, Claire consegue ser mais manipuladora e ter mais autoridade que o marido. Mete medo, sem alterar o tom de voz.
  • Doug Stamper (Michael Kelly), o assessor de Frank, é outra figura interessante. De poucas palavras e muita ação, Stamper é ao mesmo tempo fiel escudeiro e executor da agenda de Frank Underwood. Lembra o personagem de Harvey Keitel em Pulp Fiction, The Wolf. É o tipo de cara que você chama quando precisa dar sumiço num carro ensanguentado.
  • Peter Russo (Corey Stoll, que foi Hemingway em Meia-noite em Paris), o personagem mais trágico de House of Cards num show de interpretação. Russo é um deputado jovem, viciado em sexo, drogas e bebida, que se torna joguete nas mãos de Underwood, um instrumento para seus objetivos. Seu arco, que vai do fundo do poço a um breve momento de redenção, é dos mais tocantes da série.
House of Cards

E além destes, há ainda o restante do elenco de apoio que mantém o nível de atuação, mesmo sem tanto destaque. Fazem parte deste universo o próprio presidente (um bolha), a jornalista sênior que cobre política no Herald (uma escrota), a assessora do presidente (uma mosca morta que dá nos nervos) e a secretária de Russo (inocente e cheia de boas intenções), entre outros.

A estrutura é praticamente de faroeste, privilegiando duelos verbais. E dá-lhe Spacey X Wright, Mara X Spacey, Spacey X Kelly, Kelly X Stoll, Mara X Wright… Se os diálogos não têm a velocidade de Aaron Sorkin em The Newsroom, possuem a mesma contundência.

House of Cards

porque é duca

A trama em si é muito bem costurada. Como já foi dito, mesmo que você tenha uma vaga noção dos objetivos do casal Underwood (sim, porque Claire trabalha com duas agendas: a do marido e a própria, envolvendo sua ONG de Responsabilidade Social e Ambiental. Eventualmente, elas se cruzam e se chocam), a construção é meticulosa e não dá pra ter uma ideia do quadro geral até ser tarde demais. Traduzindo: cada episódio é uma peça do quebra-cabeças e termina apontando o caminho para o próximo. É impraticável largar o seriado no meio, porque demasiado intrigante.

O trabalho de direção é bastante consistente, mesmo com a troca constante de diretores. Até dá pra perceber um estilo mais pessoal se você estiver atento (os episódios de Fincher são pura construção de clima, enquanto que os dirigidos por Joel Schumacher vão fundo nos conflitos, por exemplo), mas sem destoar do conjunto.

A forma de produção —com ZERO interferência criativa de estúdio— e distribuição do seriado sem dúvida merecem destaque. Ter a temporada completa disponível, dublada e legendada, com data de estreia mundial, para ser assistida como e quando quiser e sem intervalos comerciais é um feito digno da Era Pós-TV e um novo paradigma. O melhor sem dúvida é poder escolher o próprio ritmo: assim como deve ter gente que optou por maratonas devido à fartura de episódios, assistindo a tudo em 1 ou 2 dias, aqui em casa optamos por degustar em doses homeopáticas, dividindo cada episódio em meia hora por dia e ainda intercalando com Arrested Development. Gostaria de ver alguns números do Netflix para entender qual é a tendência nesse novo cenário.

Juntando tudo isso, o que mais chamou a atenção —o fator “duca“— é o enfoque nos bastidores: da política, do jornalismo, das relações familiares. O que se vê é pura invasão de privacidade, um mergulho na intimidade desses círculos tão distintos. E a riqueza está nos detalhes: não à toa, há uma profusão de pés descalços (algo nada comum na TV ou cinema, quase tão raro quanto um personagem ir ao banheiro), imperfeições de caráter em praticamente todos os personagens e muito uso de SMS —a forma de comunicação privada por excelência em nossa época.

A se lamentar, apenas a falta de conclusão para o season finale. Tudo será resolvido na vindoura segunda temporada. A única certeza é que, como todo castelo de cartas, uma hora vai desabar. E pobre de quem ficar embaixo.

House of Cards

 

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