L.O.A.S. – Sex & Violence

Sempre que estou zapeando na TV a cabo e acabo parando em algum filme de que nunca ouvi falar, tenho o costume de verificar a classificação indicativa e fazer a brincadeira de que, se tiver sexo e violência, deve ser bom.

Quando Jimmy Palmiotti, o cara mais gente boa de toda a internet, anunciou um projeto no Kickstarter para financiar sua graphic novel chamada Sex & Violence, resolvi levar a brincadeira a sério e investir na história.

Sex & Violence

Mas antes de falar sobre sexo e violência, vamos entender o que é crowdfunding.


A gente não quer só dinheiro: a gente quer diversão e arte


Numa tradução livre, crowdfunding quer dizer financiamento coletivo. A popular “vaquinha”: se antes amigos se juntavam para doar uma graninha em prol de alguém ou de uma causa deficiente de recursos próprios, hoje é possível amplificar o ato de “passar o chapéu” para o mundo graças à internet e ao poder de megafone das redes sociais.

[nota: não confundir com croudsourcing, outro termo da moda, que quer dizer algo como “fonte de informação coletiva”, ou seja, a criação de conteúdo através de várias pessoas. Dois exemplos mais próximos do cotidiano de muitos são a Wikipedia —onde os usuários acabam reunindo e disponibilizando informação sobre um determinado tema, que pode ser editado e complementado por outros— e os mapas online, cujos erros podem ser apontados e, às vezes, corrigidos pelos próprios usuários.]

Uma das principais ferramentas para crowdfunding no hemisfério norte, senão a principal, é o Kickstarter. O funcionamento é simples: você publica um projeto, estabelece a meta (dinheiro e prazo), define recompensas para incentivar o investimento e divulga. Para financiar, basta fazer um cadastro com cartão de crédito internacional (porque os projetos são em dólares) e escolher a quantia. Os pagamentos são feitos via Amazon e são debitados do cartão apenas se o projeto atingir a meta no prazo determinado.

Uma tendência interessante no crowdfunding é que há claramente duas vertentes de investimento: os projetos de financiamento puro e os que funcionam como pré-venda. A diferença é que, nesses últimos, a recompensa oferecida é a própria obra financiada.

Numa nota pessoal, tive duas experiências no Kickstarter, as duas bem sucedidas, e devo dizer que é bastante gratificante a sensação de fazer parte da obra de um ídolo, de ter contribuído ativamente. Sem contar que o processo todo é muito bem bolado, como diria o Sílvio: durante o prazo de vigência da campanha, você recebe emails periódicos da equipe por trás do projeto, contando sobre os avanços e curiosidades da produção. Então, não é aquela coisa de pagou e um abraço, há um relacionamento constante que traz excitação a cada novidade na caixa de entrada.

Entre os projetos para financiamento, encontra-se de tudo: de gadgets improváveis propostos por cientistas loucos a projetos de carne-seca-de-bife-Kobe. Mas quem mais tem se beneficiado desse modelo de negócios são os projetos artísticos/culturais.

Livros de prosa e poesia, histórias em quadrinhos, audiobooks, discos, shows, videogames e até filmes (da pré-produção de um pitch para apresentar a um estúdio, como foi o caso da animação do Goon, passando pela divulgação de filmes independentes já prontos, como aconteceu com o documentário em curta-metragem Inocente que levou o Oscar de 2013, ou a produção do filme em si, como no recente e controverso projeto do Zach Braff) encontraram no crowdfunding uma forma de se viabilizar.

O sucesso dos projetos culturais nesse meio não é por acaso e remonta à prática do mecenato na Renascença (e que, por sua vez, deriva de Caio Cílnio Mecenas, conselheiro do imperador Augusto que protegia e financiava um círculo de amigos artistas no Império Romano a.C.). A criação de bens e serviços encontra terreno mais propício para florescer em empresas, pois podem usufruir da estrutura e profissionalismo em troca da promessa de lucro através da comercialização. Nas artes, o lucro monetário sempre foi mais incerto, e o investimento, via de regra, mira o prazer individual.

No Brasil, o Catarse atua de forma similar e com a mesma posição de destaque que o Kickstarter, mas sem a mesma intensidade. Um dos projetos nacionais de maior repercussão até o momento foi a volta dos Combo Rangers do Fábio Yabu, uma história em quadrinhos.

[Aliás, vale ler este texto do próprio Yabu para entender que crowdfunding não é só oba-oba, mesmo quando o projeto é bem sucedido]


Proibido para menores


Hora de retomar o assunto principal deste artigo.

Sex & Violence são, na verdade, duas histórias independentes entre si: Pornland, Oregon —escrita por Justin Gray, arte de Jimmy Broxton; e Girl in a Storm —texto de Jimmy Palmmiotti e desenhos de Juan Santacruz.

Sex & Violence

Ambas transitam no terreno neo-noir, histórias de crime e castigo, que os leitores do espinafrando.com já estão familiarizados através de Criminal, uma dica duca do 1º ano deste blog.

[Falando nisso, por mais que o espinafrando.com esteja meio abandonado nos últimos meses, vale destacar que ontem foi aniversário de 2 anos dessa birosca, então, segue um viva-hip-hip-hurra! meio melancólico e atrasado]

***

Pornland, Oregon

Pornland, Oregon é um conto de investigação e vingança, que ecoa, em certo sentido, Os Homens que Não Amavam as Mulheres, mas de forma ultra-condensada.

Um homem em seus 50 anos lamenta a morte de uma adolescente no cemitério. Ao chegar em casa arrasado, encontra um envelope com um DVD. No DVD, cenas de sadismo pornô-hardcore com a mesma menina, que foi sua filha de criação.

Pornland, Oregon

É o gatilho que dispara uma caçada violenta sem volta, ao estilo Charles Bronson e com direito a isca humana. No caminho, vamos aos poucos sendo apresentados ao passado do protagonista, até chegar ao clímax sangrento e revelador e uma sugestão de redenção.

Pornland, Oregon

A trama, apesar de não trazer novidades para o gênero, é bem desenvolvida a ponto de deixar o leitor em constante estado de dentes crispados. O gibi exala tensão e te prende do começo ao fim.

A arte é sóbria, com traços finos e sem firulas, bastante objetiva e orgânica.

***

Girl in a Storm

Girl in a Storm segue uma linha diferente, menos intensa. Sierra Kay é uma policial vivendo no limite do stress. Após matar um bandido na delegacia (na porrada e sem intenção), é suspensa para botar a cabeça no lugar. Durante as três semanas de férias forçadas, Sierra se descobre uma voyeur quando repara no casal de mulheres do apartamento em frente.

Girl in a Storm

Ao voltar ao batente, logo passa por outro evento traumático atendendo um caso de suicídio (e essa sequência é extremamente bem construída, verdadeiramente emotiva).

Girl in a Storm

Sierra é afastada novamente para poder lidar com a dor. Mas, sozinha, sem acompanhamento, acaba ficando mais deprimida e entediada. Prefere a fuga de seus problemas íntimos, se lançando na intimidade de suas vizinhas pela janela indiscreta.

No geral, o roteiro tem aquele jeitão de soft-porn para TV. Se a narrativa não é memorável, os diálogos de Girl in a Storm acabam compensando, especialmente a voz interior da protagonista. Essa parece ser a especialidade de Palmiotti: já fora ponto alto de outra obra sua, que nasceu no Kickstarter e depois foi comercializada pela Image ComicsQueen Crab, que espinafrei aqui.

Juan Santacruz faz um trabalho que é quase o oposto do de Jimmy Broxton: traço forte, destacando demais cada fibra muscular, e ainda intensificado pelas cores que abusam do degradê e emulam iluminação dura. O resultado é “plastificado”, e não me agrada.


360°: se tem sexo e violência, é bom?


Voltando ao início, a resposta é que a própria premissa é falsa em sua origem. Assim como nos filmes, sexo e violência não passam de temperos. O prato principal continua sendo a história.

No caso de Sex & Violence, posso dizer que o investimento de US$5,00 por uma edição digital valeu a pena. É diversão despretensiosa, tiro e queda, que não esquenta os neurônios. E ainda tive meu nome “impresso” na extensa lista de agradecimentos.

Sex & Violence

Pra completar, recebi de forma inesperada mais duas obras digitais que não estavam no pacote: The Monolith e Killswitch, ambas da dupla Palmiotti e Gray.

Um último comentário sobre a questão: é engraçado, na falta de palavra melhor, que a violência em obras ficcionais seja muito mais palatável para a sociedade que o sexo, a coisa mais natural possível e que todo mundo pratica, praticou ou vai praticar na vida. Mesmo em Sex & Violence, que teoricamente tem a intenção de dar foco aos dois temas, a violência tem um peso muito maior, é mostrada graficamente e sem pudores. O sexo é sempre implícito e a nudez, quando aparece, não vai muito além de uns pares de peitos e dois quadros discretos com nus frontais.


Bônus: um papo com Palmiotti


Jimmy Palmiotti, o cara mais bacana de toda a internet, teve a gentileza de conceder uma rápida entrevista internacional ao espinafrando.com. Sem mais delongas, vamos ao resultado.

***

[@espinafrando]: Sex & Violence tem potencial para virar uma série regular, com personagens rotativos. Você e Justin Gray têm intenção de produzir novas histórias nesse universo?

[Jimmy Palmiotti]: Nós temos a intenção de fazer outra edição durante o ano e vender no mesmo formato desta primeira. Num mundo perfeito, faríamos 2 por ano.

[@e]: Para alguém de fora, tenho a impressão de que a maioria da sociedade americana é muito conservadora. Sempre vemos discussões sobre como a violência (e sexo) em filmes, games e virtualmente qualquer outra mídia são responsáveis pela violência na vida real —o que eu acho que é pura besteira. De toda forma, como você acha que sua HQ se encaixa nesse cenário?

[JP]: A HQ não está atacando ninguém… Nós estamos contando as histórias da forma como as vemos: sexuais, violentas e, acima de tudo, histórias com um núcleo sólido sobre pessoas numa situação. Sem restrições e sem ninguém para nos dizer o que é certo ou errado. Eu acredito que devemos sempre aproveitar qualquer chance que tivermos para expandir os limites do meio. Eu amo meus quadrinhos adultos.

[@e]: Quais foram as influências (filmes, livros e quadrinhos) que ambos tiveram em mente quando começaram a pensar nesse conceito?

[JP]: Posso falar apenas por mim, e foi a revista HEAVY METAL o tempo todo. Ela me apresentou a uma série de artistas europeus fantásticos, que influenciaram quase tudo o que faço até hoje. No que diz respeito a filmes e outras formas de entretenimento, eu só penso em quando eu me tornei maior de idade e fui capaz de ver filmes classificados para maiores e histórias voltadas para adultos. Isso abriu muitas portas para mim. Eu odeio a ideia de censura em qualquer nível.

[@e]: Quais são seus planos para futuros projetos “creator-owned”, de propriedade do autor?

[JP]: O próximo projeto no Kickstarter vai ao ar no dia 24 de abril [nota do @espinafrando: esta entrevista foi realizada em 11/04/2013 e o projeto do Jimmy já está no Kickstarter] e é um livro chamado WEAPON OF GOD (Arma de Deus), sobre uma linhagem de guerreiros que trabalha para a Igreja e sobre um destes em particular, que se alia a uma agente do FBI para rastrear um terrorista pelos Estados Unidos. De certa forma, é tipo um filme do Arnold nos anos 80, com sexo e violência e um selo adulto colado no livro. A história é uma brincadeira divertida que leva a uma série de questões malucas.

[@e]: Você conhece algo sobre os quadrinhos/artistas brasileiros? Em caso positivo, qual é a sua opinião sobre?

[JP]: Tem tanta gente talentosa vinda do Brasil atualmente que é difícil acompanhar. Eu nunca presto atenção em de onde a pessoa vem, apenas no trabalho realizado e na qualidade. Estou ansioso para visitar o Brasil em novembro… minha primeira vez aí. Mal posso esperar.

[@e]: Vamos falar sobre o Kickstarter. Esta forma de levantar recursos para criar arte vem ficando cada vez mais popular. Você acha que esse tipo de iniciativa pode, num futuro próximo, suplantar a forma tradicional de publicar material criativo e mudar o mercado? As editoras precisam temer o Kickstarter? Ou isso só funciona com gêneros e autores específicos (ou até mesmo livros específicos)?

[JP]: Acho que apenas certas pessoas podem fazer um projeto no Kickstarter e que apenas as ideias muito boas conseguem ser financiadas. É como qualquer outra coisa, quanto melhor o produto e os incentivos que você oferece, melhor ele se sairá. Agora, dá uma trabalheira danada para fazer… e com as tarifas dos correios americanos subindo, está ficando cada vez mais caro para financiar um projeto. As editoras não tem com o que se preocupar, elas empurram um monte do mesmo produto, de novo e de novo. O Kickstarter está cheio de ideias novas.

[@e]: Que conselhos você dá para todos os escritores e artistas por aí que estão a procura de maneiras para publicar seus materiais?

[JP]: Olhe ao redor e descubra o que se encaixa. Comece no digital e trabalhe a partir daí. Leia as letras miúdas e arrume um advogado especializado em contratos. Não seja estúpido e tão feliz a ponto de esquecer de checar o que você está assinando.

[@e]: Quais são as diferenças no processo criativo entre um trabalho por contrato numa grande editora de quadrinhos como a DC ou a Marvel e um projeto de propriedade do autor? Quando penso em Sex & Violence, por exemplo, a primeira coisa que me ocorreu é que vocês não tiveram nenhum tipo de interferência editorial (para o bem e para o mal), e em como isso afetou ou poderia ter afetado o resultado final. Mas aí eu vi que a Joanne Starer foi editora do livro. Como isso funciona?

[JP]: Nós escrevemos qualquer coisa que quisermos nesses projetos, e a Joanne edita os erros de digitação e sugere ideias, mas não como numa grande empresa de quadrinhos ou livros, onde eles praticamente ditam tudo o que querem que você escreva e onde há uma tonelada de restrições. Há uma liberdade verdadeira em fazer a sua própria obra. Para as grandes companhias, você está mexendo com os personagens deles e jogando pelas regras deles. E não é bem assim num livro como Sex & Violence.

[JP]: Queria dizer que as pessoas podem comprar o livro pra download neste link —pra todo mundo que não conseguiu adquirir via Kickstarter.

[Nota do @espinafrando: o link leva ao site da produtora do Jimmy (e amigos), a Paper Films. Lá, você pode comprar edições digitais de várias obras —além de Sex & Violence— direto dos autores, sem intermediários. A melhor forma de remunerar um criador.]


A quick interview with Jimmy Palmiotti, about Sex & Violence & Kickstarter


[@espinafrando]: Sex & Violence have the potential to become a regular series, with rotative characters. Do you and Justin Gray have some intention to produce new stories in this universe?

[Jimmy Palmiotti]: We have plans to do another edition within the year and sell it the same format as the first one. Perfect world we would do two a year.

[@e]: To a foreigner, it seems that the majority of American society is too conservative. We always see discussions about how violence (and sex) in movies, games and virtually any sort of media are “responsible” for the violence in real life —which I think is a total bullshit. Anyway, how do you think that your comic fits in this scenario?

[JP]: The comic is pulling no punches… We are telling the stories the way we see them, sexual, violent and overall a core solid story about people in a situation. No restrictions and no one to tell us what is wrong or right. I believe we should always be pushing the medium every chance we get. I love my comics adult.

[@e]: What are the influences that both of you have in mind when you first start to think about this concept (movies, books and comics)?

[JP]: I can only speak for me and it was HEAVY METAL magazine all the way. It introduced me to an array of fantastic european artists that have influenced just about everything I do till this day. As far as movies and other forms of entertainment, I just think when i was of age and able to see “r” rated films and stories aimed for adults, it opened up many doors for me. I hate the idea of censorship on any level.

[@e]: What are your plans for future creator owned projects?

[JP]: The next KickStarter will be going up april 24th and it is a book called WEAPON OF GOD about a line of warriors that work for the church and this one in particular teams up with a female FBI agent to track a terrorist across the United States. It is a very 80's Arnold movie in a way with sex and violence and an adult stamp on it. The story is a fun romp that takes on a lot of wild issues.

[@e]: Do you know anything about Brazilian comics/creators? If so, what do you think about it/them?

[JP]: There are so many talented people coming out of Brazil these days that it is hard to keep track. I never look at where someone comes from, just at the work produced and the quality. I am looking forward to visiting Brazil this november… my first time there. I cannot wait.

[@e]: Let's talk about Kickstarter. This form of raise resources to create art is becoming more and more popular. Do you think that this kind of initiative can, in a near future, surpasses the traditional way to publish creative material and change the market? Do publishers need to be worried about it? Or this only works with specifically genres and authors (or even books)?

[JP]: I think only certain people can do Kickstarter and only the really good ideas can be funded. It is like anything else, the better the product and incentives you offer, the better it will do. Right now it is a ton of work to do them… and with the US postage rates going up, it is going to become more and more expensive for people to fund them. The publishers dont have to worry, they push a lot of the same product over and over. Kickstarter is full with new ideas.

[@e]: What kind of advice do you give for all the writers and artists out there looking for ways to publish their material?

[JP]: Look around and see what fits. Start digital and work from there. Read the fine type and get a lawyer for contracts. Don't be stupid and so happy you forget to check what you are signing up for.

[@e]: What are the differences in the creative process between a job for hire in a big publisher like DC and Marvel and a creator owned project? When I thought about Sex & Violence, for instance, the first thing that came across my mind is that you don't have any kind of editorial interference (for good or bad), and how this would/could affect the final results. But then I saw that Joanne Starer edited the book. How do this work?

[JP]: We write whatever we want on these projects and Joanne edits it for typos and suggested ideas, but not like a big company book where they almost tell you everything they want you to right and there are a ton of restrictions. There is a real freedom doing your own thing. For the bigger companies, you are messing with their characters and playing by their rules. Not so much with a book like SEX AND VIOLENCE.

I will say that people can get the book for download at this address http://www.paperfilms.com/?page_id=395 —for all those that couldnt get in on the Kickstarter.

 

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