Dica Duca – Flex Mentallo

…lucy in the sky with diamonds…

 

Extraordinário

adjetivo

  1. fora do ordinário; excecional
  2. raro; invulgar
  3. que causa admiração
  4. insólito; estranho

Flex Mentallo – O Homem dos Músculos Mistério

O título sozinho, admiravelmente estrambótico, já é o suficiente para fazer com que você queira ler.

[no original, é “Man of Muscle Mistery“. Perguntei ao Érico Assis —que fez um ótimo trabalho na tradução— por que não “O Homem dos Músculos Misteriosos” ou “O Homem do Mistério Muscular”. Ele disse que o editor também teve essa dúvida, mas Assis defendeu que Músculos Mistério parecia melhor, pois “como [Flex Mentallo] é nonsense“, preferiu “algo que soasse mais pop”]

Para os leitores mais refinados, basta saber que é uma obra única dos escoceses voadores Grant Morrison e Frank Quitely (e primeira colaboração da dupla, responsável pelo melhor conjunto de histórias do Superman, por uma das fases mais polêmicas dos X-Men e pelo genial neo-clássico We3).

Flex Mentallo é um personagem criado por Morrison na série Patrulha do Destino e que, em 1996, ganhou uma minissérie em 4 edições. A obra ficou no limbo editorial (impedida de ser republicada) por mais de 15 anos, devido a um processo de direitos autorais movido contra a DC Comics por uma empresa vendedora de um método para fortalecimento chamada Charles Atlas Ltda. (!?!). Em 2011, a pendenga foi resolvida, mas só em 2012 Flex voltou ao mercado americano, em formato de luxo reunindo a mini completa. É esta edição única, encadernada e especialíssima, com direito a esboços, estudos e amostras da arte de Quitely em páginas finalizadas antes das cores, que a Panini publicou pela primeira vez no Brasil no mês passado.

Um anúncio do método vendido pela Charles Atlas Ltda. (Flex Mentallo)
Um anúncio do método vendido pela Charles Atlas Ltda.

O tema? Uma piração completa que questiona o processo criativo das histórias em quadrinhos, a condição humana e a própria existência, através de um personagem arquetípico com um visual completamente fora do comum (ou pelo menos, fora do comum nas HQs de super-heróis).

Senhoras e senhores, apresento-lhes o incomparável Flex Mentallo! Prepare-se para saber porque esse gibi resgata o significado original da palavra “extraordinário”.

porque é bom

É daquelas obras em que texto e arte formam um conjunto inseparável e insuperável para contar uma história que testa e expande os limites do meio. De quebra, trabalham em favor de uma narrativa intrincada, recheada de humor e seriedade, que desperta apenas os melhores sentimentos e reflexões.

Flex Mentallo é o herói deste conto. Um homenzarrão com cara de ítalo-americano dos anos 30, físico de halterofilista de circo e que veste apenas um par de botas de boxeur, munhequeiras e um calção com estampa de pele de onça. Sua persona é não menos exótica: age de maneira autoconsciente como O Herói, gentleman ao extremo, mas sem se dar conta do ridículo de sua figura e postura. Um personagem que parece deslocado no tempo.

O tempo, aliás, é questão chave na história, que se desenrola em linhas temporais diversas e realidades paralelas, uma das especialidades de Morrison.

Há duas tramas principais que convergem numa terceira. Enquanto Flex Mentallo passa a investigar uma série de atentados que envolvem sujeitos encapotados e bombas cartunescas à la Spy vs. Spy, acompanhamos um jovem adulto passando pelo ápice de uma grave crise de depressão. Em meio a uma tentativa de suicídio em que ingeriu LSD, álcool e outras drogas, mais uma massiva quantidade de comprimidos para dor de cabeça, o jovem tem alucinações com histórias em quadrinhos de super-heróis que leu e inventou quando criança. Entre as últimas, o próprio Flex Mentallo.

É Grant Morrison trabalhando metalinguagem em sua melhor forma.

[inclusive na introdução em texto do volume, que traça um panorama dos criadores do personagem principal desde a Era de Ouro até os anos 70. Para os leitores preguiçosos, fica o alerta de que esse prefácio é tão importante para a história (e brilhante, e divertido) quanto os apêndices de Watchmen]

A arte de Frank Quitely, detalhista e fora do comum, é um deleite para os olhos, traduzindo em imagens (e complementando) um roteiro assombroso. É tão rica de significados —como nas emulações de capas que representam os vários padrões adotados em cada década dos gibis americanos— que dá pra passar horas apenas apreciando cada traço.

Flex Mentallo

porque é duca

Flex Mentallo é duca por ser mais uma incursão no universo lisérgico de Grant Morrison™, composto especialmente por obras como Zenith, Os Invisíveis, Homem-Animal, Patrulha do Destino, Os Sete Soldados da Vitória, Joe, o Bárbaro e até mesmo o mais recente e improvável Happy!.

Por mais díspares que o núcleo de cada uma dessas histórias possam ser, todas compartilham uma série de características e conceitos em comum.

Algumas trabalham com a metalinguagem, outras subvertem elementos do universo infantil numa situação barra pesada, a maioria trabalha com narrativas não-lineares e quase todas remetem a histórias e/ou personagens clássicos. Mais do que isso, todos esses gibis, sem exceção, transbordam cultura pop e são completamente malucos, satíricos e deliciosos.

Há algo mais que transparece nos roteiros de Grant Morrison: sua verdadeira paixão por contar histórias e pelas histórias em quadrinhos.

Neste trecho de uma entrevista para o site Under The Radar (junho/2013), o escocês fala um pouco sobre seu processo criativo (no caso, é sobre sua recriação da Mulher-Maravilha que deve sair até o ano que vem, mas se aplica a toda a sua obra com personagens de terceiros e, de certa maneira, também vale para este Flex Mentallo, sua própria criação).

“Sempre gosto de voltar até a intenção do criador original e estudá-lá pra ver se essa intenção pode ser adaptada ou traduzida para a forma como as pessoas pensavam 60 anos atrás, porque nós temos padrões de pensamento muito diferentes agora. Pra mim, é sempre sobre voltar aos princípios de origem e tentar construí-los de maneira que funcionem para uma audiência contemporânea.”

É basicamente isso que Flex Mentallo é: uma história que homenageia os heróis da Era de Ouro dos quadrinhos, mais “inocentes”, com postura de escoteiros, onde o bem e o mal são claramente caracterizados e opostos, inserida num contexto moderno, mais “cínico” e “decadente”, repleto de cinzas. Flex representa um tímido raio de sol que se embrenha nas pesadas nuvens negras dos desvirtuados anos 90, onde o escapismo é deixado de lado e o heroísmo é posto à prova pela crueza da “realidade”, sempre carregada de “conflitos psicológicos”, dor, sacrifício e perda.

Um cenário que sempre é atribuído, injustamente, ao Cavaleiro das Trevas de Frank Miller e ao Watchmen de Alan Moore. O sucesso dessas duas obras repercutiu em toda a indústria dos quadrinhos de super-heróis, que mesmo sendo um pouquinho mais esperta que a de Hollywood, cai frequentemente no erro da falácia da criação formulaica™.

A falácia da criação formulaica™ é um fenômeno que acomete qualquer indústria do ramo do entretenimento. Disfarçado de pensamento lógico, esse tipo de falácia consiste em tomar certos elementos isolados de uma obra de sucesso como explicação única para o referido êxito, seguida, então, pela tentativa de replicar o sucesso introduzindo tais elementos em novas obras (leia-se: conseguir dinheiro a rodo com o mínimo esforço).

É o que explica, na literatura, a profusão de livros de auto-ajuda, romances juvenis de aventura fantástica, vampiros para mocinhas, 50 ou mais tons de safadeza light…

No cinema, os pares de filmes similares (Impacto Profundo X Armageddon, Inferno de Dante X Volcano, Branca de Neve e o Caçador X Espelho, Espelho Meu), as ondas de filmes de gênero (filmagens encontradas, teen, super-heróis…), as continuações ad infinitum, os remakes, prelúdios e reboots, as cópias de fórmulas descaradas (o estilo Bourne em 007 e o Cavaleiro Solitário do Caribe, pra ficar em 2 exemplos recentes)…

E, nos quadrinhos de super-heróis, por 2 décadas, foi a pegada dark, sombria e desconstrucionista.

A grande falha da falácia da criação formulaica™ é que não existe fórmula para o sucesso. Voltando a falar estritamente das HQs, o acerto de Miller e Moore não foi introduzir este ou aquele elemento nas narrativas, mas criar histórias realmente boas. A mesma “fórmula” que Grant Morrison segue.

Lendo Flex Mentallo e relembrando outras de suas obras, Morrison dá a impressão de ter tomado para si a missão de ser o anti-Moore, o anti-Miller (ou pelo menos a antítese da ideia mal-interpretada sobre quadrinhos dark/sérios que o paradigma de Watchmen e Cavaleiro das Trevas se tornou para a indústria). O escocês parece abominar esse conceito de quadrinhos para adultos, que, de certa maneira, representam a morte da inocência e da imaginação. O universo lisérgico de Grant Morrison™ é sua resposta: uma forma de resgatar a criança que reside (resiste?) dentro de cada leitor, através de contos de moral extremamente positiva que emergem do conteúdo para audiências maduras, disfarçada para encantar.

Toda essa história envolvendo Alan Moore e o paradigma dos quadrinhos sombrios me lembrou desta série de artigos sensacionais de Pádraig Ó Méalóid para o site The Beat (parte 1, parte 2 e parte 3, em inglês), que explora a relação das obras-primas de Moore (além de Watchmen, Miracleman e O que Aconteceu ao Homem do Amanhã?) com Superfolks, um livro-paródia mequetrefe escrito por Robert Mayer e lançado em 1977, que parece antecipar (ou ao menos inspirar) conceitos utilizados em larga escala na carreira do mago inglês.

Superfolks versus Miracleman

O primeiro a ter levantado a lebre? Grant Morrison, que inclusive escreveu uma introdução para uma das edições posteriores de Superfolks.

Toda esse imbróglio culminou em certa inimizade entre os autores (aliás, o próprio Morrison escreveu sua versão dos fatos neste outro artigo complementar: O Estranho Caso de Alan Moore e Grant Morrison, Como Contado por Grant Morrison).

Mas porque trazer isso à tona nesta dica duca sobre Flex Mentallo? Porque, ironicamente (e possivelmente de forma proposital), Grant Morrison também parece ter se inspirado numa passagem de Superfolks para um momento crucial do roteiro de Flex Mentallo: a palavra que vira a história de cabeça pra baixo. A prova? Este trecho de sua própria e já citada introdução para Superfolks:

“Em seu retrato agridoce do Capitão Mantra de meia-idade, com aquela palavra mágica meio esquecida sempre pairando na ponta de sua língua, eu pude ver que Robert Mayer tinha prefigurado a era dos chamados super-heróis 'desconstrucionistas', que por sua vez gerou muitos dos trabalhos mais memoráveis e ambiciosos da mídia [dos quadrinhos].”

Shazam!
Shazam!

Pra encerrar, já que acusei Grant de ser o anti-Alan Moore/Frank Miller, cabe o direito de resposta. Como “perdi” o contato com o autor (haha), segue outra fala fora de contexto. Desta vez, de uma sessão de perguntas e respostas que aconteceu em 2012 no Dundee Comics Day, evento que reuniu vários criadores das HQs numa cidadezinha da Escócia, como relatado pela excelente jornalista (e futura PhD com a tese “a história das mulheres e do feminismo nos quadrinhos ocidentais”) Laura Sneddon.

“(…) Morrison (…) rejeitou a pecha de anti-establishment. 'Eu não gosto de ser anti-nada, exceto bastardos [nota do @espinafrando: no sentido de idiotas filhos da mãe]!', ele riu. 'Porque bastardos podem ser cultivados em qualquer lugar, eles podem ser parte de qualquer cena social, então é mais fácil apenas odiar bastardos. Eu não posso dizer que sou anti-establishment, ou anti-qualquer coisa, porque acredito que o establishment é algo que nós fizemos, nós o pusemos lá, nós meio que o sustentamos o tempo todo, então eu fico mais fascinado pelos aspectos gigantescos de nossas vidas e cultura… Não sobre inimigos e establishment.'”

Mesmo após essa declaração, ainda enxergo no trabalho de Morrison em Flex Mentallo (e em todas as obras de seu universo lisérgico) a antítese do cinismo e desespero encontrados em Moore e Miller. Afinal, essa é a beleza da arte quando bem feita: ser total e completamente aberta à interpretação do leitor, mesmo que à revelia do próprio autor.

*Agradecimentos especiais à Laura Sneddon.

 

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