espinafrando a estreia: Círculo de Fogo

Círculo de Fogo / Pacific Rim

Guillermo del Toro, visionário diretor de filmes como Hellboy, O Labirinto do Fauno e A Espinha do Diabo (quem não viu esse último, está perdendo um belíssimo conto de terror), ganhou plenos poderes —e orçamento— para fazer uma deliciosa megalomania em formato de blockbuster para o verão americano.

Os trailers deixaram todos em polvorosa, e o fato de não ser baseado em nenhuma HQ / brinquedo / série de TV / desenho / filme antigo instigava ainda mais. Uma superprodução pop, criando sua própria mitologia e inteiramente original. Qual a última vez em que isso foi visto? Matrix? (Avatar não conta, pois é um xerox de Dança com Lobos)

Em Círculo de Fogo, del Toro entrega um orgasmo nerd: monstros abissais (do tamanho do saudoso Godzilla), denominados Kaijus, atacam a humanidade, vindos de um portal interdimensional localizado no fundo do Oceano Pacífico. Para combater essas criaturas à altura —literalmente—, diversos países desenvolvem robôs gigantes chamados Jaegers, que são comandados por dois pilotos humanos simultaneamente, através de uma conexão neural. Está acompanhando? Ótimo. Porque esta viagem é bem divertida.

Círculo de Fogo / Pacific Rim

Depois de um prólogo explicativo e funcional, apresenta-se o protagonista Raleigh Becket (Charlie Hunnam), que é um destes melhores pilotos, trabalhando em dupla com seu irmão Yancy. Após uma tragédia, Raleigh se afasta do mundo dos Jaegers… até que seu ex-chefe, o comandante Stacker Pentecost (Idris Elba, com total credibilidade no papel), o procura oferecendo uma 2ª chance, antes que os Kaijus destruam toda a civilização, pois os ataques destas criaturas estão cada vez mais frequentes e destrutivos.

Raleigh, um piloto veterano e defasado, acaba encontrando sua improvável parceira de batalha na figura de Mako Mori (Rinko Kikuchi), assistente de Pentecost e uma novata que nunca foi à campo com um Jaeger de verdade. Sim, aquele tradicional clichê de uma dupla muito diferente, mas que funciona na hora H.

Círculo de Fogo / Pacific Rim

Aliás, o que não falta no filme são clichês, e ele surgem em quantidades monstruosas. Alguns são risíveis, mas quem se importa?

  • O protagonista é “um homem atormentado pelo seu passado”, “em busca de uma segunda chance”;
  • A dupla de cientistas Dr. Newton Geiszler (Charlie Day, numa versão nerd de Adam Levine do Maroon 5) e Gottlieb (Burn Gorman) são o alívio cômico do filme, no melhor estilo O Gordo e O Magro;
  • O design do Jaeger russo é bruto e datado, como se fosse um Lada, e pilotado por uma dupla fria e sisuda;
  • O gigante chinês é mais estiloso e marcial, sendo comandado por trigêmeos (e obviamente, o robô tem 3 braços);
  • O “chief-in-command” fazendo discurso cafona e ufanista —mas agora em escala global—, no mesmo naipe de Bill Pullman em Independence Day.
Círculo de Fogo / Pacific Rim

E não só o protagonista tem um trauma em sua vida: Mako e Pentecost também possuem seus próprios dramas para lidarem. No entanto, são clichês necessários para impulsionar a narrativa e dar profundidade aos personagens.

E essa é a grande vantagem de Círculo de Fogo em cima de concorrentes do verão, como O Homem de Aço: seu diretor sabe exatamente o que está criando, e quais são as ferramentas necessárias para oferecer um filme-pipoca. E ao inserir todos esse clichês de forma escancarada, ele busca estruturar uma narrativa simples —não necessariamente simplista— onde todos os elementos são dados para o pleno envolvimento e entendimento da plateia. Não busca criar uma obra pretensamente artística, tampouco realista —ainda mais baseada numa ideia tão fantástica. Ao mesmo tempo, isso não significa que del Toro não tenha imprimido sua marca, pelo contrário: basta ver o esconderijo do suspeito comerciante Hannibal Chau (Ron Perlman, ator-fetiche do diretor e mais canastrão do que nunca) —parece um cenário surrupiado do set de Hellboy 2.

Círculo de Fogo / Pacific Rim

Outro ponto positivo é o equilíbrio que del Toro promove na narrativa. As batalhas contra os Kaijus surgem quando necessárias, e boa parte da primeira hora de projeção é concentrada no desenvolvimento dos personagens. Escolha acertada, pois valoriza a ação quando ela acontece.

Apesar de algumas batalhas não serem muito claras nos detalhes (a confusão típica de Transformers: o soco do robô acertou qual parte do inimigo?), quando elas acontecem, são nada menos do que épicas. A primeira luta de Raleigh e Mako contra um Kaiju é absolutamente empolgante, como poucas vezes visto no cinemão recente.

Mas o foco do filme não é Gipsy Tango, o robô americano. Inclusive, del Toro toma o cuidado de não transformar a salvação do mundo em algo estritamente americanóide. O foco está nos humanos que comandam esses colossos. E jogar essa responsabilidade para o fraco Charlie Hunnam não funciona. Ele não tem credibilidade nem carisma suficiente para segurar o tranco. Acabou como um galã genérico que passou por duas temporadas de Malhação. Uma pena, já que ele mostrou potencial no pouco visto A Fuga.

Círculo de Fogo / Pacific Rim

Além de Idris Elba, quem rouba a cena é a japonesa Kikuchi. Impossível não se encantar com a dedicação e obsessão da personagem. E um alívio ver um rosto pouco conhecido colocar tanta cor numa megaprodução como esta.

Destaque também para a trilha de Ramin Djawadi (também compositor do 1º Homem de Ferro e Prison Break), que capta o tom épico, marcante e emocionante de um filme digno de ter saído de uma HQ. Dá até para cantarolar o tema na saída da sessão. Que isso fique de lição para o Hans Zimmer.

No final das contas, Círculo de Fogo é um excelente entretenimento, daqueles para entrar no rol de “guilty pleasures“: filmes que não são obras-primas, mas são tão divertidos e magnéticos no seu próprio jeito, que você consegue assistir inúmeras vezes sem se cansar. Basta você zapear na TV a cabo, pegar o filme pelo meio, e parar com tudo o que estiver fazendo para assisti-lo pela enésima vez. Como Con Air.

P.S.

Para finalizar mesmo, vale acompanhar a esperta versão suecada que alguns fãs fizeram emulando cena-a-cena o trailer original (esse aí de cima). O próprio del Toro aprovou.

 

2 comments

  1. quanto tempo em?!!! assistindo Circulo de Fogo me veio aquele sentimento
    saudosista cheguei-me desligar segundos do filme e lembra do gigante guerreiro Daileon ou Megazord nada comparado a esses, mas o filme nos remete a esse sentimento. del Toro acertou e com certeza mexeu com emoções e lembranças de muitos. abraços e bom trabalho, blog com dicas e sínteses nota 10, manda umas dicas de livro também.

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