L.O.A.S. – Creator Owned Heroes

Sempre que posso, mas não tanto quanto deveria, procuro comprar, ler, divulgar e apoiar quadrinhos autorais.

Há algo que me fascina no paradigma do quadrinho de propriedade do autor: é uma gigantesca vitória da mentalidade punk, do faça-você-mesmo, do tenha-uma-ideia-e-coloque-em-prática. Sem interferência editorial, sem ter que dobrar o conteúdo à lógica cruel do mercado e do marketing. Ou seja, sem a necessidade de nivelar a história por baixo, de mediocrizar.

E sempre há a vantagem de ser surpreendido por algo inédito ou uma abordagem diferente.

Então, com atraso de pouco mais de 1 ano, nada mais natural do que falar sobre Creator Owned Heroes, uma revista cujo nome já diz tudo.

Criação coletiva de Jimmy Palmiotti (Queen Crab, Sex & Violence – leia a entrevista exclusiva com ele), Justin Gray (Sex & Violence) e Steve Niles (30 Dias de Noite), Creator Owned Heroes apresenta um conceito que, se não é inédito, faz tempo que não dá as caras.

A revista traz 2 histórias independentes (em mais de um significado). Em seu 1º número, Creator Owned Heroes apresenta Triggergirl 6, por Palmiotti e Gray —com a belíssima arte de Phil Noto; e American Muscle, de Steve Niles, com desenhos de Kevin Mellon.

CREATOR OWNED HEROES ISSUE #1

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O que chama a atenção é que COH não se resume a isso. Como o próprio Palmiotti explica, “nos dias de hoje, alguns gibis podem ser lidos em poucos minutos, e sem as páginas com as cartas [dos leitores], viram leitura muito rápida pelo seu dinheiro.” Então, a ideia é rechear cada edição de Creator Owned Heroes com conteúdo extra: artigos detalhando o processo criativo, entrevistas, ensaios sobre cultura pop e o que mais passar pela cabeça de seus criadores.

Se a ideia parece boa, a execução não deixa por menos. Triggergirl 6 e American Muscle, cada um à sua maneira, servem como excelente ponto de partida para histórias sequenciais. São bem escritas, bem construídas e, em curto espaço, estabelecem o mínimo necessário para dar vida a seus personagens, criam universos com regras internas imersivas e deixam o leitor com vontade de saber o que acontece a seguir, gerando engajamento.

American Muscle é história pós-alocalíptica, na veia Mad Max encontra Quadrilha de Sádicos/Viagem Maldita. Ou algo mais ou menos assim.

E com muscle cars, aquelas carangas quadradonas lindas, imponentes, com um V6 ou V8 beberrão e poluidor em suas entranhas, e que atendem por nomes como Charger ou Mustang. Não tem como dar errado, por princípio.

Creator Owned Heroes / American Muscle

Pra não ficar na mesmice, a novidade é que o apocalipse veio na forma de um colapso do sistema imunológico da raça humana. Tanto antibiótico não tinha como dar certo, mesmo…

Creator Owned Heroes

Triggergirl 6, por sua vez, parece uma mistura de Arma X e Nikita, com pitadas de O 5º Elemento.

Tudo que dá pra apreender da 1ª edição é que Triggergirl é um programa de máquinas de matar sensuais e próximas à perfeição.

Se a informação é escassa, a sequência de ação com poucos diálogos é das melhores que vi em anos, a ponto de justificar o clichê “de tirar o fôlego”.

Creator Owned Heroes / Triggergirl 6

No material extra, temos: Jimmy Palmiotti apresentando o conceito de Creator Owned Heroes; uma recomendação de HQ (The Manara Library) que eu endosso; os 6 melhores filmes de 2012 de acordo com Jimmy; uma bela reflexão de Justin Gray sobre criação e execução de conteúdo autoral; uma baita entrevista com Neil Gaiman; uma retrospectiva sobre a história das histórias em quadrinhos (e de seus criadores) por Steve Bunche; ensaio fotográfico de cosplay da Triggergirl 6 + entrevista com a cosplayer; uma carta aberta de Steve Niles sobre o projeto da revista + explicações sobre a premissa de American Muscle; fotos de convenções de quadrinhos; Bill Tortolini explicando o design de capa; um perfil do artista visual Seth Kushner; e a tradicional última página “The Image World” com entrevista e mini resenhas dos outros lançamentos da editora. UFA!

Creator Owned Heroes

[faltou dizer que Creator Owned Heroes é publicada pela Image Comics, editora fundada em 1992 por 7 criadores insatisfeitos com o tratamento dos contratos work-for-hire da Marvel e DC. Se na época suas revistas eram famosas por priorizar a arte em detrimento do conteúdo, hoje a Image é porto seguro para grande parte das melhores histórias em quadrinhos do mercado, como Saga e The Walking Dead (pra ficar nos maiores sucessos de crítica e público recentes), e atraindo criadores consagrados e novatos que ficam com o copyright de suas criações]

Em seu artigo de apresentação, Palmiotti resume o encanto com Creator Owned Heroes em uma frase: “A ideia de que os criadores acreditam tanto em seu trabalho que estão dispostos a investir e se arriscar não é nova na Image [Comics]… Tem sido o grito de guerra desde o dia 1, e estamos orgulhosos de fazer parte disso.”

Infelizmente, o projeto teve vida curta: apenas 8 edições, a última lançada em janeiro deste ano. A culpa? É de todos nós, que simplesmente ignoramos o potencial de uma revista tão polpuda quanto esta. Perguntei ao Jimmy sobre o motivo do cancelamento, que respondeu gentilmente e de forma sucinta: “ninguém comprou… as vendas foram horríveis, então foi isso”.

Conteúdo e criadores de peso não faltaram: American Muscle e Triggergirl 6 duraram 4 números. No 5º, estrearam Killswitch (Palmiotti & Gray, com Jerry Lando na arte) —um thriller de matador de aluguel, e Black Sparrow (história de Steve Niles & Jay Russell, ilustrada por Andrew Ritchie) —western em 2 partes. Na 6ª edição, além das 2 séries em andamento, o time ganha o reforço de Darwyn Cooke (do excelente DC: A Nova Fronteira, um cara que é sucessor espiritual do Will Eisner) fazendo tiras mensais. No número 7, estreia de nova série por Niles e Scott MorseMeatbag, uma história policial em Los Angeles. E a oitava e última edição conclui Meatbag e Killswitch, traz a última história curta de Cooke e encerra com 3 entrevistas com quadrinistas de destaque no mundo independente: Bryan Lee O'Malley (Scott Pilgrim), Robert Kirkman (The Walking Dead) e os irmãos Hernandez (Love & Rockets).

Se sobrou conteúdo de qualidade, talvez tenha faltado uma pitada do temível marketing na estratégia de divulgação: pode-se argumentar que as capas não se destacam, e que o nome Creator Owned Heroes só interessa a quem faz parte da indústria ou a quem se importa com quem escreve e desenha.

Creator Owned Heroes

Mas acredito que o grande problema é cultural. Muitos leitores e colecionadores de gibi simplesmente investem todo seu tempo e dinheiro nos mesmos personagens de sempre, sem se importar com a qualidade da história e sem dar espaço para novidades —um negócio arriscado, pode ser incrivelmente bom ou lamentavelmente ruim.

A maioria dos consumidores de cultura é conservadora, joga no seguro. É por isso que os blockbusters sem imaginação fazem sucesso: você já espera o que encontrar —sabe que, mesmo que a obra não seja excepcional, dá pra investir tempo e dinheiro e ter um retorno mais ou menos satisfatório. Não corre o risco de se decepcionar de verdade. Uma tendência que só é reforçada em tempos de restrições econômicas.

A falta de ousadia e a aversão ao novo também explicam a grita que ocorre na internet sempre que algo desvia-se, pouco que seja, do senso comum: um uniforme diferente, uma mudança de protagonista ou abordagem, ou até a escalação de Ben Afleck para o papel de seu herói favorito. Na cultura, (quase) todos somos de direita.

Sei disso porque já fui assim. Até que uma fase longa e verdadeiramente ruim dos gibis que acompanhava me fez repensar minha forma de consumir. E é por isso que sempre bato na mesma tecla: não se importe com os personagens, mas com os autores. Sãos eles que fazem uma história brilhar intensamente ou morrer de forma agonizante.

Então, se não dá pra corrigir o passado e trazer Creator Owned Heroes de volta do limbo, pelo menos dá pra remediar o presente: as 8 edições de COH estão disponíveis para compra no ComiXology, a US$1,99 cada. Garanto que, em troca de 2 dólares, você ao menos receberá leitura suficiente para se entreter por horas. E, quem sabe, pode até adotar um criador para chamar de seu.😉

 

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