Dica Duca – Hellblazer

…the horror… the horror…

Belo trabalho que a Panini vem fazendo ao republicar a primeira passagem de Jamie Delano na vida de John Constantine, com a série de encadernados Hellblazer – Origens.

Hellblazer

porque é bom

Criado por Alan Moore na seminal Saga of the Swamp Thing, o mago inglês sem caráter passou de coadjuvante a protagonista em sua revista própria graças à visão de Karen Berger, que enxergou o potencial do personagem e aproveitou para firmar a terceira parte do tripé que originaria e apoiaria o selo de quadrinhos adultos Vertigo, junto com o próprio Monstro do Pântano de Moore e Sandman de Neil Gaiman.

Jamie Delano foi o autor escolhido para desenvolver a personalidade de Constantine além do sarcasmo. O cenário principal é o Reino Unido de Margaret Thatcher (com rápidas passagens pelos EUA e pela África), e o contexto geopolítico contribui para a atmosfera de tensão e violência.

Apesar de não haver distinção no registro dos dicionários entre as palavras terror e horror, tenho cá comigo que são “gêneros” bastante diferentes. Na definição espinafrânica, terror é mais baseado no susto fácil, no graficamente grotesco, na ação e no aspecto físico do medo —exemplificando, um típico slasher movie (Sexta-feira 13, O Albergue) é terror em sua melhor forma. Já o horror é medo psicológico, o oculto, o tipo de medo que dá arrepios, que gela a alma, que paralisa, em que a grandeza do absurdo supera o racional —algo mais na linha de H.P. Lovecraft. Terror te faz fechar os olhos ou desviar o olhar. Horror te deixa com os olhos arregalados e dá arrepio na espinha.

Hellblazer

O que Delano cria nos primeiros 4 volumes (ainda não li o 5º, e o 6º chega às melhores bancas e livrarias agora em setembro) é horror destilado em seu mais alto grau de pureza.

É clima, acima de tudo. A ação propriamente dita é incidental: o que importa são os diálogos inspirados, o fluxo de pensamentos, a construção da trama, os dilemas e imagens perturbadoras.

porque é duca

John Constantine é um Prometeu moderno, que foi se meter na seara de deuses e demônios em busca de conhecimento além da capacidade dos mortais e agora tem de lidar com as consequências. Uma personalidade trágica, curvada sob o pesado fardo de angústia.

Constantine sabe que a realidade como a conhecemos é nada perto do que a circunda. Aprende a duras penas que o conceito romantizado de magia é pura balela. Magia é pouco confiável, com resultados imprevisíveis. Então, se fia em sua perspicácia e raciocínio rápido pra se safar das encrencas em que se mete ao investigar o oculto, e, ocasionalmente, pra salvar a humanidade. Sempre protelando as consequências de seus atos.

Hellblazer

Delano constrói com maestria a mitologia do personagem, incluindo um time de coadjuvantes de peso. Por mais que todas as histórias sejam especialmente boas, com bastante experimentação nos roteiros e na arte, o destaque dessa primeira leva fica obviamente para o arco passado em Newcastle. Para um leitor bissexto de Hellblazer, como eu, Newcastle sempre foi um evento citado de forma recorrente como algo terrível e definidor da personalidade de Constantine. Quando finalmente pude conhecer em detalhes o que aconteceu, bem… acho que “estarrecedor” é o adjetivo que melhor se encaixa. É daqueles contos em que você precisa fechar o livro e sair pra tomar um ar depois, sem conseguir piscar e com o coração pulsando adrenalina por todo o sistema sanguíneo. Horror em estado puro.

Apesar de típico produto de sua época, com muita crítica social —especialmente ao Thatcherismo e à especulação financeira dos yupies, o Hellblazer de Jamie Delano envelheceu muitíssimo bem, obrigado. É leitura obrigatória para qualquer um que tenha olhos, mais de 18 anos e foi alfabetizado.

Hellblazer

 

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