espinafrando a estreia: Gravidade

Um filme tecnicamente (quase) perfeito, praticamente uma obra de engenharia. Mas frio como o espaço sideral, que retrata de forma tão bela. Assim é Gravidade, de Alfonso Cuarón, que estreia nos cinemas nessa sexta, dia 11 de outubro.

Gravidade

Provavelmente, Gravidade é a melhor representação do vazio, da solidão e da vastidão do espaço já vista no cinema. A escala é espetacular. Você sente todo o “peso” da gravidade zero. E as imagens são de cair o queixo (conselho de espinafre: se puder, veja no IMAX). Todo o investimento feito por Cuarón e equipe em tecnologia de filmagem, mais o sofrimento de Sandra Bullock no simulador de ausência de gravidade, valeram a pena (leia esse artigo da Variety que esmiuça o processo).

Gravidade

Mas se Gravidade é o pináculo da técnica, o mesmo não se pode dizer da história. Parece que, ao seguir os passos de James Cameron para dar um salto evolutivo na maneira de filmar, Alfonso Cuarón também emulou o diretor de Avatar em sua última incursão no cinema: a falta de peso do roteiro.

Sim, há tensão o tempo todo na luta da Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock) para escapar de uma situação inescapável: um acidente em sua primeira missão na órbita terrestre que a deixa à deriva, literalmente perdida no espaço. Sua sorte, se é que se pode chamar assim, é que ela tem a companhia do astronauta veterano Matt Kowalski (George Clooney), mesmo que por pouco tempo. Apenas o suficiente para que ele bole um plano impossível para a Dra. Stone tentar escapar de seu destino.

Gravidade

Não há nada, ou quase nada, de filosófico em Gravidade. Há poucas questões morais a tomar, e quando elas aparecem, têm a ver ou com instinto de sobrevivência ou com abnegação. Esqueça os grandes dilemas da humanidade, portanto. Ao invés de 2001, pense em Alien sem o monstro: Gravidade é um thriller espacial ferrenho, cujo perigo está no próprio ambiente inóspito.

Mas ainda que o deixe crispado na poltrona, prendendo a respiração em seus melhores momentos, falta um ingrediente importante ao guisado: lágrimas. Mesmo diante de situações extremas, o filme falha em estabelecer uma conexão sentimental com o cinespectador. Você simplesmente não sofre junto com os personagens, apenas assiste maravilhado ao que acontece.

Há algumas armadilhas clássicas que impedem a suspensão da descrença e soam como um alarme em sua cabeça, te fazendo despertar e perder o envolvimento total com a história.

Por exemplo, o heroísmo inconsequente, desnecessário, inconveniente e irreal logo no começo do filme.

[spoiler show=”Abrir o SPOILER (leve)” hide=”Ocultar o SPOILER”]A equipe que está fazendo a manutenção do telescópio Hubble recebe um alerta de evacuação imediata e a Dra. Ryan Stone insiste em terminar o trabalho. Kowalski até tenta disfarçar, dizendo que mesmo que ela largasse tudo não haveria tempo para evitar a tragédia, mas já é tarde e o estrago na credibilidade já foi feito.

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Outro ponto que desvia a atenção é a trilha incidental de Steven Price. Ao invés de acentuar a emoção, tira o impacto das imagens. Os momentos de silêncio absoluto apenas evidenciam o petardo que Gravidade poderia ter sido se usasse apenas o som dos microfones dos trajes espaciais. Faltou ousadia na escolha do diretor.

Assim como no tempo de tela de Kowalski, que ganha cerca de 1/3 de filme. Clooney faz o papel de Clooney no espaço —o que não é necessariamente algo ruim: o solteirão charmoso, bem-humorado e que não tem medo de tomar decisões difíceis é sua melhor faceta como ator (ou, pelo menos, a mais divertida). No entanto, Gravidade ganharia muito se fizesse uma aposta total na solidão de Sandra Bullock.

Gravidade

[E pra quem acha que mais de 1 hora com apenas um ator em cena não se sustenta, basta lembrar do Náufrago de Tom Hanks, ou do subestimado Por Um Fio, onde Collin Farrell ainda tem a restrição de cenário da cabine telefônica, que passa longe do glamour das imagens do espaço sideral. E que ganha de Gravidade como thriller.]

Sandra Bullock está ótima na linguagem corporal, o que é bom, já que o papel exige muito do físico. Mas peca em (não) transmitir emoção com suas expressões faciais engessadas. O botox cobra um preço alto.

Gravidade

No rol das armadilhas que despertam, ainda dá pra colocar a própria poesia de imagens óbvias (ainda que lindas), como a posição fetal de Ryan em um de seus renascimentos ou o momento Wall-e com o extintor de incêndio.

[spoiler show=”Abrir o SPOILER (dos grandes!)” hide=”Ocultar o SPOILER”]Mas nenhuma supera a escapada final que parece não fazer o menor sentido cientificamente, com a cápsula que entra capotando na atmosfera sem queimar como uma tocha. Não sou cientista da NASA, mas e toda aquela história do ângulo de reentrada que vimos em Apollo 13?

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Sim, estou sendo excessivamente duro com um filme sensacional. Mas o faço porque Gravidade é bom o suficiente para fazer com que eu me importe. Faço por causa da raiva em ver tanto potencial de perfeição sendo desperdiçado em poucas decisões desacertadas. E, principalmente, o faço para baixar suas expectativas frente ao hype, para que você não caia na armadilha e se decepcione com o resultado final. Gravidade orbita bem acima da média da produção cinematográfica atual e vale cada centavo do ingresso. Só não é um marco da ficção científica, a quintescência do gênero.

 

2 comments

  1. Ótimo texto! Personagem do Cloney dispensável e a trilha estilo Batman do Nolan tirou um pouco do terror do espaço

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