L.O.A.S. – um 2º olhar sobre Gravidade

Em tempos recentes, o cinema tal qual nós o conhecemos tem buscado se reinventar. Com o avanço brutal de outras mídias e plataformas (o já quase velho DVD, Blu-ray, TVs de altíssima definição, VOD), a tal da sétima arte parece perder o seu lugar ao sol, buscando soluções (como projeção em IMAX ou em 3D) para garantir um diferencial frente ao home entertainment —e, obviamente, um aumento de receita na bilheteria. Ir ao cinema significava participar de uma experiência intensa, algo único. Mas que, ultimamente, tornou-se apenas uma telona onde acontecem explosões a rodo.

Hoje em dia, que filme realmente faz sentido de ver na tela grande, na sala escura? Poucos foram pensados dessa forma, em sua concepção. Quando os irmãos Lumière fizeram a primeira projeção, com a chegada de um trem na estação, os espectadores pensaram que o trem invadiria o cinema. Sim, os tempos eram outros e é impossível que algo aconteça assim hoje em dia.

Mesmo assim, ainda existe a possibilidade de não simplesmente assistir um filme. Mas experienciá-lo. James Cameron buscou isso em Avatar. David Lynch nos desafia com Cidade dos Sonhos. Poucos outros se atreveram a isso: a propor uma experiência. E isso não tem a ver com efeitos especiais. Vai além.

É o que Alfonso Cuarón almejou —e conseguiu— em Gravidade. A história de astronautas à deriva no espaço é o cenário ideal para essa imersão. Nunca o espaço foi filmado —ou melhor, visualizado— de forma tão impressionante.

Gravidade

Quando a Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock) está em sua 1ª missão espacial, comandada pelo bem-humorado astronauta Matt Kowalski (George Clooney), um desastre de proporções gigantescas os atinge, deixando-os à solta no espaço e sem comunicação com a base da NASA. Ou seja, completamente isolados.

Uma das mais desesperadoras situações já mostradas num filme, essa sensação desnorteante acaba sendo ainda mais enfática por conta dos longos planos-sequência, marca registrada de Cuarón. Principalmente na primeira metade, quase não há cortes (ou pelo menos, cortes visíveis ao olhar do espectador). Um dos melhores planos é quando a lente se aproxima lentamente do rosto de Bullock, para simplesmente entrar em seu capacete e tomar seu ponto de vista, colocando a plateia no lugar dela por alguns instantes. Brilhante.

Além de ser uma assinatura visual do diretor, esses planos-sequência também aumentam a imersão na experiência de Cuarón. E como Walter Murch (editor de filmes como Apocalypse Now e O Talentoso Ripley) disse em seu livro Num Piscar de Olhos, o corte em um filme é, acima de tudo, um ruído para o espectador. Mesmo que inconscientemente, o cérebro de quem assiste tem que se ajustar a ideia de que uma imagem foi interrompida e substituída por outra (ou seja, o corte em si). Uma das máximas de Murch é justamente essa: a de que o melhor corte é aquele que é planejado para acontecer no momento em que o espectador provavelmente piscará os olhos pois, assim, não haverá esse estranhamento.

A sensação de desespero da personagem de Sandra Bullock só aumenta com a ausência de cortes: a curva emocional da narrativa persiste ainda mais quando eles não existem. Somente quando houver algum momento de respiro nessa angústia é que o espectador se permitirá piscar os olhos em alívio. E é aí que surgirá o corte.

Saindo da teoria e voltando à prática, Cuarón nos deixa ainda mais em órbita por colocar a câmera sempre flutuando, em constante movimento, acompanhando a rota de perdição dos personagens. Somos como um observador, um outro astronauta que acompanha a tragédia que se desenrola no breu do espaço —sem poder interferir.

Algumas críticas buscam emular uma associação entre Gravidade e 2001: Uma Odisseia no Espaço. Mas o primeiro passa longe dos conceitos filosóficos do segundo. Sim, Cuarón cria algumas belas (mesmo que óbvias) metáforas visuais, reforçando o tema do renascimento. A mais impactante mostra Bullock em posição fetal, como se tivesse retornado ao útero. Mas o caminho aqui é muito mais de um thriller de sobrevivência, do que um drama existencialista.

E quando se busca dar “emoção” e “drama” para essa jornada da Dra. Ryan Stone, o tiro sai pela culatra. Artifícios hollywoodianos óbvios —como a perda de sua filha— mostram-se desnecessários para acrescentar alguma camada dramática. A espinha dorsal da trama já é sensível o suficiente. Muito do que é dito nesse aspecto poderia ficar implícito através de outros mecanismos na narrativa.

Sobre o elenco, George Clooney repete seu mesmo galã dos tempos de ER. É sempre um prazer, mas não é isso que se pede num filme como esse. Atores como Bryan Cranston, Kevin Spacey, Josh Brolin ou mesmo Robert Downey Jr. (que desistiu do filme por questões de agenda) dariam mais substância ao papel.

Mas o filme é de Sandra Bullock, para o bem e para o mal. Depois dos solos de Tom Hanks e Will Smith em Náufrago e Eu Sou a Lenda, é a vez de Bullock ter o dela. A ex-namoradinha da América segura a tarefa com dignidade, mas perde em comparação a esses dois por não conseguir transmitir emoções, apenas reações. Mesmo assim, sua entrega ao projeto e seu trabalho corporal merecem aplausos. Um trabalho notável, que certamente trará aquela indicação ao Oscar no ano que vem —junto com as de direção e efeitos visuais.

Vale lembrar que a voz do controle da NASA é do sempre excelente Ed Harris, que já se envolveu com astronautas em Os Eleitos e Apollo 13. Então, nada mais justo do que a sua presença aqui.

Gravidade é um marco visual, daqueles filmes que você se pergunta “como conseguiram filmar isso? E dessa forma?”. Uma obra de técnica impecável, que certamente servirá de parâmetro para futuros longas situados no espaço sideral.

Um filme épico, grandioso… e curto. 91 minutos de duração. Mas a dramaticidade é tamanha que sentimos que passamos longas horas nessa experiência. E, neste caso, é um grande elogio.

Nunca veremos o espaço da mesma forma. E nunca os conceitos de liberdade e desespero andaram tão próximos.

P.S.

Para quem ficou curioso, o livro Num Piscar de Olhos (Ed. Zahar), de Walter Murch, está à venda em diversos sites, como a Saraiva e Livraria Cultura. Leitura fácil e obrigatória para quem quer saber mais sobre a lógica do cinema.

 

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