L.O.A.S. – O Hobbit: A Desolação de Smaug

Infelizmente, começo a achar que a trilogia d'O Hobbit e a volta de Peter Jackson à direção não foram uma boa ideia, afinal.

Assistindo A Desolação de Smaug, finalmente entendi o que toda pessoa que não gosta de O Senhor dos Anéis sente ao ser arrastada para uma sessão dos filmes do neo-zelandês: é um espetáculo grandioso e tedioso.

O Hobbit: A Desolação de Smaug

Mais do que um enredo que consiste basicamente de um bando correndo de um lado para outro em cenários maravilhosos, escapando da frigideira para o fogo e vice-versa ad infinitum, A Desolação de Smaug abusa do conceito de filme-videogame: sua estrutura é basicamente a de um endless runner com sub-chefes e chefes marcando porcamente a passagem de fase. Ao invés de uma aventura, temos ação sem espaço para reflexão. Nesse sentido, é sintomático que poucos diálogos sejam travados sem que os protagonistas estejam em movimento. Lembro das cenas na prisão e num café da manhã, e só.

Também não há catarse, já que a sensação de vitória ou de objetivo cumprido inexiste. A coisa simplesmente continua e continua num paradoxo sem fim: mesmo que a fonte da nova trilogia não passe de entretenimento puramente infantil e que o livro não tenha história suficiente para mais de 6 horas de cinema, ainda falta tempo de tela para desenvolver personagens e motivações (ou melhor, o tempo é mal utilizado). Resultado: boas atuações que embalam gente sem profundidade, cujas atitudes variam entre monotemáticas e mudanças bruscas inexplicáveis. Um adeus a qualquer traço de identificação com o público.

As roteiristas veteranas Fran Walsh e Phillipa Boyens até tentam introduzir um toque feminino e mais “humanizado” a esse mundo essencialmente masculino, com a presença de uma personagem inexistente no livro —a elfa Tauriel (Evangeline Lilly). Mas a boa intenção se perde nos flertes bobos com o elfo Legolas (Orlando Bloom) e com o anão Kili (Aidan Turner).

Tauriel e Legolas

Enquanto isso, personagens míticos como Beorn (Mikael Persbrandt)e Radagast (Sylvester McCoy)são reduzidos a NPCs (non-playable characters, para voltar à metáfora do videogame): aparecem apenas para constar na “lista de coisas fiéis aos livros”, com falas com pouco ou nenhum impacto para o desenrolar da trama. Da forma como são apresentados, é possível tirá-los do filme sem prejuízos.

O próprio objetivo desta aventura a desfavorece: sai a nobreza de salvar o mundo e entra a mesquinhez da caça ao tesouro (ainda que Gandalf tenha uma agenda diferente, mais ou menos oculta). E o didatismo irritante em marcar a cobiça de cada personagem só aumenta o desânimo.

O roteiro vazio não é a única causa para a ausência de magia nesta nova incursão na Terra-Média. O uso excessivo de computação gráfica na construção dos orcs e nas manobras de ação e os enquadramentos “ousados” de câmera (que em alguns momentos lembram o seriado do Batman com Adam West e Burt Ward) tiram o caráter orgânico do filme. A todo momento, seu cérebro parece emitir um alerta de que o que você está vendo não é real (ou melhor, não parece natural), matando a imersão.

O Hobbit - A Desolação de Smaug

É aí que Guillermo del Toro talvez pudesse ter feito a diferença na cadeira do diretor: o cineasta não só é conhecido pelos visuais únicos e apreço por efeitos práticos, como também sabe tratar o universo infantil de maneira mais intimista e divertida, como o próprio livro. Se tudo desse errado, o ônus cairia sobre os ombros de del Toro. Pelo menos Peter Jackson ficaria com sua reputação conquistada em O Senhor dos Anéis intacta.

E, possivelmente, teríamos 2 filmes mais concisos ao invés de 1 trilogia estendida além do razoável.

A única perda real seria Jackson dando o ar da graça na aldeia de Bri, mas acho que todos poderíamos conviver com isso.

Claro que O Hobbit – A Desolação de Smaug não é feito só de defeitos. Martin Freeman e Sir Ian McKellen continuam irresistíveis como Bilbo Bolseiro e Gandalf, o Cinzento, respectivamente. Richard Armitage continua construindo um personagem trágico com seu Thorin Escudo-de-Carvalho (que deve ter seu ápice na última parte da trilogia, Lá e De Volta Outra Vez). O grandioso Smaug de Benedict Cumberbatch cumpre a promessa e certamente entra no topo da lista de melhores representações de dragões no cinema. Os cenários são embasbacantes. A trilha sinfônica de Howard Shore emociona. E a lista de acertos para por aqui. É pouco. Principalmente considerando o dinheiro gasto. Alguém aí sabe qual é a palavra em élfico para “decepção”?

O Hobbit - A Desolação de Smaug

 

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