Dica Duca – Twin Peaks

Agente especial Dale Cooper: Quem é aquela senhora com o tronco?Xerife Harry S. Truman: Nós a chamados de Senhora do Tronco.”

Twin Peaks. O seriado-fenômeno que revolucionou a TV americana entre 1990 e 1991 ainda é capaz de assombrar mentes mais de 20 anos depois.

A série estreou no Brasil pela TV Globo, às 22:20 do dia 7 de abril de 1991, logo após os Gols do Fantástico. Embora tenha acompanhado alguns episódios na época, confesso que ainda era criança demais para compreendê-la do alto dos meus 15 anos. Ou mesmo para aguentar ficar acordado até tarde, tendo aula na manhã do dia seguinte. De qualquer forma, os episódios eram mutilados e exibidos fora de ordem, como ainda é costume na TV aberta.

Mas o Netflix está aí, pra suprir necessidades de formação cultural (ou até para matar saudades). Então, agarre-se na poltrona e descubra porque a primeira, e até agora única, incursão de David Lynch na TV merece ser vista ainda hoje.

porque é bom

Se você passou as últimas 2 décadas isolado num retiro espiritual (ou apenas não era nascido na época em que Twin Peaks foi febre mundial), aqui vai um guia rápido pra entender o fenômeno.

Twin Peaks é uma cidadezinha pacata com 51.201 habitantes no Norte dos EUA, próxima a fronteira com o Canadá, cercada por florestas e ladeada por um rio, que desce por uma impressionante queda d’água. Ao fundo, dá pra avistar 2 picos nevados (daí o nome).

O lugarejo aparentemente pacato acorda chocado com o assassinato brutal de uma proeminente adolescente chamada Laura Palmer (Sheryl Lee). Rainha do baile de boas-vindas, garota mais popular da escola, conhecida pelos atos de caridade… em suma, o protótipo de boa-moça, loira e de olhos azuis.

A polícia local solicita ajuda ao FBI, que envia o agente especial Dale Cooper (Kyle MacLachlan). E é aí que tudo começa.

São duas temporadas, com tons bastante distintos.

A primeira, com apenas 8 episódios, traz à tona o famoso mistério “quem matou Laura Palmer?” —que se estende até o 7º episódio da 2ª temporada.

Somos apresentados aos poucos à extensa galeria de personagens, que vão do caipira ao bizarro. E sempre cativantes.

Ainda no episódio piloto, Cooper levanta a possibilidade de estarmos diante de um caso de assassinato em série, iniciado em outra cidade.

Ronette Pulaski, outra jovem de Twin Peaks, é encontrada viva, em estado de choque, após conseguir escapar do cativeiro e provável local do assassinato de Laura Palmer: um vagão de trem abandonado, onde a polícia encontra um colar com um pingente de coração partido que pertenceu à Laura e um pedaço de papel com as palavras “Fire walk with me” escritas em sangue.

Enquanto a investigação policial segue, tentando desvendar o mistério e prender o assassino, tramas paralelas vão pipocando a todo momento, provando que o velho clichê se faz verdadeiro: em Twin Peaks, nada é o que parece.

A grande sacada de David Lynch foi ter enganado a todos (público, crítica e executivos de TV) para realizar seu verdadeiro intento. A curta 1ª temporada é um excelente seriado policial, com um intrincado whodunnit servindo para fisgar a audiência. Mesmo que atuações, trilha sonora, personagens e roteiros estejam sempre meio tom acima da normalidade. A estranheza mesmo acerta em cheio a partir da 2ª temporada, que vira um longo episódio de Arquivo X, bem antes de Arquivo X sequer existir.

porque é duca

É na produção da 2ª temporada que as características lynchnianas afloram. O bizarro e o sobrenatural tomam conta e você fica meio perdido tentando entender o propósito e o sentido de Twin Peaks.

A dupla David Lynch/Mark Frost parece querer testar os limites do meio, misturando gêneros tão díspares como comédia e drama, misticismo e ciência, mistério e romance.

É como se a bagunça temática refletisse os segredos por trás da vida dupla de cada cidadão de Twin Peaks, como se a dualidade exacerbasse o efeito causado pelo olhar de microscópio que atravessa essa comunidade interiorana (citando o próprio agente Cooper no 1º episódio, “sabe por que estou esculpindo? […] é o que se faz numa cidade onde o sinal amarelo ainda significa frear em vez de acelerar”. Mal sabe ele que a cidadezinha aparentemente bucólica esconde uma rede de intrigas em cada canto).

Tudo isso é embalado em atuações que simulam soap opera (Kyle MacLachlan dá show com sua interpretação de mocinho de rádio-novela dos anos 30), com a trilha brega de Angelo Badalamenti que acaba ficando kitsch com a idade, perfeita para dar um ar ainda mais onírico ao conjunto.

Há duas maneiras de se ver uma ficção: ou você assiste de fora, julgando tudo que acontece sob o prisma da realidade, ou você se envolve com a história e passa a fazer parte desse outro mundo, regido por outras regras.

O primeiro caso é destruidor para a obra de ficção, e ocorre normalmente quando a história e os elementos que a cercam não são suficientemente bons ou fortes para levar à suspensão da descrença. É como tentar desconstruir o Batman: é óbvio que qualquer tentativa nesse sentido terá êxito, pois tratam-se de premissas completamente irreais.

Para curtir toda a estranheza da 2ª temporada de Twin Peaks, com seus episódios “soltos” da trama principal (se é que há uma trama principal), a resolução implausível do caso Laura Palmer, toda a carga de misticismo que aflora nas florestas ao redor, a aparição de vilões que se sobrepõem uns aos outros para manter a engrenagem rodando… para enfrentar tudo isso é preciso ter predisposição e curtir a viagem, mais do que o destino.

Não à toa, grande parte do público rejeitou esse circo e abandonou a série, que foi cancelada vítima dos baixos índices de audiência. No entanto, aqueles que perseveram e chegam ao final abrupto e devastador acabam com a certeza de que viram algo acima da média, talvez além dos grilhões da compreensão racional. Se foi chocante para a audiência de então, imagino o estrago que Twin Peaks teria feito com o comodismo e a preguiça dos telespectadores médios de agora, que não suportam um mistério com pontas soltas.

Talvez, a pergunta que abre a segunda parte desse post não tenha resposta: Twin Peaks não tinha um sentido ou propósito além da experimentação e da quebra de limites. Ou talvez, a resposta apareça no episódio 13 da 2ª temporada, e quem mata a charada é Jean Renault: tudo não passa de um sonho, e Twin Peaks foi uma das primeiras tentativas de Lynch nesse universo em que o importante é reproduzir um fluxo de consciência, deixando a razão de lado.

O fato é que Twin Peaks é um seriado obrigatório para qualquer amante da ficção e que, sem a ousadia de Lynch e Frost, talvez estaríamos até hoje assistindo a coisas como Um Maluco no Pedaço, Barrados no Baile e Lei e Ordem, por mais méritos que a diversão despretensiosa possa ter.

(E vale mencionar a gama de talentos que participaram desse marco televisivo: Kyle MacLachlan, David Lynch –que interpreta o surdo agente Gordon Cole, Lara Flynn Boyle, Heather Graham, Mary Jo Deschanel —mãe de Zooey Deschanel, Sheryl Lee, Sherilyn Fenn, Miguel Ferrer, Billy Zane, Molly Shannon, David Duchovny —num papel que era uma espécie de Fox Mulder travesti, Diane Keaton —que dirigiu um episódio. Alguns conseguiram sucesso em suas carreiras, outros ficaram marcados pela participação no seriado, mas sou —somos!— gratos a todos.)

Mais do que deixar saudades, as aventuras do agente especial Dale Cooper continuam capazes de gerar paixão e são tão atuais (e, paradoxalmente, ainda à frente de seu tempo) quanto há 25 anos.

 

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