L.O.A.S. – Martin Scorsese, Cassino e O Lobo de Wall Street

Martin Scorsese está de volta, fazendo o que sabe de melhor: contando a história de ascensão e queda de uma vertente do crime na América, personificando o recorte histórico nas figuras de um líder, um parceiro porra-louca, seus seguidores da arraia-miúda e uma mulher irresistível.

O Lobo de Wall Street traz ecos de Os Bons Companheiros na formação de um self-made-anti-hero, mas sua estrutura encontra muitos paralelos com Cassino: saem os jogos de azar, a máfia, Robert De Niro e Joe Pesci, entram o mercado de ações, os corretores da bolsa, Leonardo DiCaprio e Jonah Hill (tão demente e incrível quanto Pesci, diga-se).

Cassino X O Lobo de Wall Street

Assim como Cassino, O Lobo de Wall Street romantiza fatos reais.

E assim como Cassino, que tinha a dupla de protagonistas na narração, O Lobo de Wall Street é narrado por seu personagem principal, Jordan Belfort —figura real (que faz uma ponta na última cena do filme, apresentando sua persona da ficção para uma plateia ansiosa), corretor de valores que ganhou milhões em 5 anos, enganando seus clientes e cuspindo na moral e nos bons costumes.

Ambos os filmes explicam os truques de seus escroques para a plateia.

“Num cassino, a regra principal é fazer com que joguem e voltem. Quanto mais jogam, mais perdem. No fim, pegamos tudo.” Rothstein, Sam –Cassino.

“O nome do jogo é mover o dinheiro dos bolsos do cliente para os seus bolsos. […] Ok, primeira regra de Wall Street: ninguém —e não importa se você é Warren Buffet ou Jimmy Buffet— ninguém sabe se uma ação vai subir, descer, andar de lado ou dar piruetas, muito menos nós, os corretores. Mas você tem que fingir que nós sabemos. […] É tudo… fugazi… balela, mito, farsa, um pó de fada: não existe. Esse dinheiro não é real, filho-da-puta. […] Então basta que você faça o cliente reinvestir seus lucros infinitamente. Eles vão ficar ricos… no papel, enquanto você ganhará comissão a cada transação e ficará… milionário” Hanna, Mark –O Lobo de Wall Street.

Mas, a despeito das quase 3 horas de duração em ambos, as semelhanças param por aqui e começam a se destacar as diferenças. Como se o Scorsese mais recente fosse uma versão Planeta Bizarro do filme de 1995, onde Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) é Sam 'Ace' Rothstein (Robert De Niro), Donnie Azoff (Jonah Hill) é Nicky Santoro (Joe Pesci) e Naomi Lapaglia (Margot Robbie) é Ginger Mackenna (Sharon Stone).

Cassino tem um tom lúgubre, enquanto O Lobo de Wall Street é freneticamente bem-humorado.

E há uma causa clara: no primeiro, o pesar existe por ser o último suspiro de uma era. Seus personagens-narradores têm consciência de que sua vez acabou, que a máfia tradicional deixou Las Vegas e que quem assumiu foram as grandes corporações.

“Deveria ter sido perfeito […] mas no fim, nós fodemos com tudo.[…] foi a última vez que bandidos de rua, como nós, receberam algo tão valioso.” Santoro, Nicky –Cassino.

No segundo, seu narrador sabe que foi pego pelo FBI e que perdeu parte de sua fortuna e sua firma em Wall Street, mas também sabe que não foi derrotado. Continua admirado pela sua capacidade de vendedor, ganhando rios de dinheiro com palestras (e livro, cujos direitos agora são vendidos para virar filme).

Não é só no Brasil que A Lei de Gérson tem seus fãs, e enquanto eles existirem, Belfort sabe que estará numa boa. Sua falta de escrúpulos surpreende bem menos do que a vontade que muitos têm de ser um Lobo bem sucedido.

As técnicas apresentadas pelo Belfort de DiCaprio para conquistar clientes não diferem muito do método Friedman e os 7 passos da venda ou da cultura que impera nos grandes varejistas do mundo real (mostrada de forma mais inocente ou mais hipócrita, talvez, mas exigida com o mesmo afinco —metas, metas, metas!).

Ademais, se o crime financeiro não é menos grave que o crime organizado, certamente é menos violento, pelo menos em sua superfície, o que contribui para a leveza de O Lobo de Wall Street em comparação com Cassino. O que faz alguns classificarem erroneamente como comédia o mais recente.

Sem dúvida, o filme faz rir. Mas o riso é nervoso. O cinespectador fica excitado como uma hiena. O riso é fácil, talvez, por que quem assiste tem a sorte de não ser uma das vítimas de Wall Street (ou por não saber que é vítima de outros mercados). Se prestar atenção, com um olhar frio, não há nada de especialmente engraçado em todas as cenas cômicas (e são muitas!). É pura tragédia. Seria a essência do humor rir da desgraça alheia?

Independente da resposta, este é apenas um dentre muitos truques que Martin Scorsese utiliza para tornar O Lobo de Wall Street memorável, um dos melhores de sua carreira.

A tônica é o excesso. 2 horas e 45 minutos de filme, muita ostentação, muitas drogas, muito sexo, muita canalhisse, muito dinheiro e muito prejuízo, tudo sob a ótica distorcida e entorpecida de Jordan Belfort. E essa é a chave para entender O Lobo de Wall Street.

Há uma série de dicas visuais para explicitar esse conceito de que o que vemos pode não ser a mais fidedigna representação da verdade (ou da realidade nua e crua). Vão das interferências narrativas de Jordan —a mudança da cor de sua Ferrari, o vai e vem temporal e os ajustes de percepção— ao uso gritante de cenários projetados na tela verde, passando por erros grosseiros (e propositais) de continuidade e glitches –tremidas e ajuste momentâneo de foco. É um Scorsese mais pirado do que no ótimo A Ilha do Medo.

Martin Scorsese

Para dar conta da duração excessiva, o roteiro de Terence Winter (em cima do livro de Jordan Belfort) trabalha em ondas: quando ameaça cansar, vem outro vagalhão de informações frescas e direções novas, aumentando a dose de adrenalina.

Sustentando toda essa balbúrdia, um elenco fenomenal puxado por um convincente Leonardo DiCaprio (embora perigue escorregar aqui e ali numa interpretação “full retard”, e você nunca deve ir até o “full retard”, como aprendemos em Trovão Tropical), um Jonah Hill inacreditável de ótimo e a atuação segura e precisa, cheia de nuances, da estonteante australiana Margot Robbie —que já havia chamado a atenção no piloto de Pan Am.

E mesmo com esse trio fera, mais meia dúzia de coadjuvantes toscos (no bom sentido) e mais um tanto de pontas interessantes (como o diretor Rob Reiner vivendo uma versão incrível do pai de George Costanza ou o artista Jean Dujardin como um banqueiro suíço escrachado), não é exagero dizer que um ator que aparece por cerca de apenas 15 minutos e desfere um quase monólogo rouba a cena: Matthew McConaughey fazendo Mark Hanna vale, sozinho, o ingresso.

O Lobo de Wall Street

E ainda tem a cereja do sundae, a trilha ótima e esquizofrênica que mistura Devo, Cypress Hill, a mulher-gato Eartha Kitt, John Lee Hooker, Billy Joel, Bo Diddley, o picareta Malcolm McLaren, Sir Mix a Lot, Foo Fighters, Charles Mingus, The Lemonheads e fecha, nos créditos, com o cântico xamânico de Matthew McConaughey.

O Lobo de Wall Street é surtado porque a história é contada através dos olhos de um surtado. Não se trata apenas da glorificação do criminoso em detrimento do sofrimento que causou às vítimas de sua lábia implacável.

Não é preciso mostrar os assalariados que quebraram por causa dos investimentos impingidos por Belfort & cia. para entender que grande parte do que ele fez foi ilegal e nojento. Não. Basta ter um pouco de senso de ética e moral para entender isso. O próprio Belfort/DiCaprio admite frente às câmeras, mais de uma vez (embora a informação possa se perder, soterrada na avalanche de putaria e entorpecentes).

“É obsceno para qualquer um na vida real. Mas quem quer viver na vida real?” Belfort, Jordan –O Lobo de Wall Street.

 

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