Top 3 – filmes de exorcistas

Há algo de fascinante em histórias de possessão demoníaca, e nem sempre é apenas o horror do sobrenatural ou de coisas além da compreensão. É a metáfora de ser controlado e perder o livre arbítrio. A dicotomia entre fato e ficção, ciência e fé. A dúvida entre o que é real e o que é mera sugestão. E claro, o embate imortal ente bem e mal e a imagética do diabo.

3.O Exorcismo de Emily Rose

O Exorcismo de Emily Rose traz uma boa história baseada em fatos reais, mas que peca pelo exagero na execução e por não confiar na capacidade de julgamento do cinespectador.

O fio condutor é um drama de tribunal, onde um padre (Tom Wilkinson) é acusado de homicídio culposo ao agir com negligência no tratamento da jovem Emily Rose (Jennifer Carpenter), possível portadora de epilepsia e psicose (a tese da promotoria) ou um caso de possessão demoníaca (a tese da defesa). O ritual de exorcismo é mostrado em flashbacks ao longo do julgamento.

Além do próprio julgamento, que por si só já é interessante ao fazer um júri considerar o sobrenatural para dar um veredicto, ainda há pormenores em segundo plano que agregam valor à história, como a relutância da arquidiocese em apoiar o padre num caso midiático, a ânsia pela fama e sucesso da advogada de defesa agnóstica (Laura Linney, competente e linda como sempre) que põe em cheque a glória advocatícia versus a vontade do cliente, ou mesmo a preocupação política que cerca um embate oficial entre Igreja e Estado.

O que tira o brilho de O Exorcismo de Emily Rose é justamente sua porção de liberdade poética, que insiste a todo momento em reforçar o plano espiritual e o clima de medo, seja com a trilha incidental, seja trazendo elementos demoníacos para fora do caso em julgamento. Se tivesse uma abordagem mais sóbria e deixasse mais dúvidas no ar, certeza que estaria melhor colocado nesse Top 3.

 

2.O Último Exorcismo

Sem dúvida, O Último Exorcismo é o filme de pegada mais pop dessa lista. Pelo menos, esteticamente. Produzido por Eli Roth, e apenas o segundo filme dirigido por Daniel Stamm, aposta no clima de falso documentário/filmagens encontradas que nasceu com A Bruxa de Blair e floresceu com a cinessérie Atividade Paranormal.

Acompanhamos o pastor Cotton Marcus (Patrick Fabian), em missão autoimposta de desmascarar a farsa dos rituais de exorcismo. O personagem entrou para a Igreja ainda menino, alcançou fama e glória como um dos mais jovens pastores carismáticos de quem se tem notícia, atuou em diversos “exorcismos”, mas perdeu a fé ao se deparar com um caso no jornal em que um garoto autista “possuído” acabou morrendo num ritual (ecos de Emily Rose?).

Para expurgar seus pecados como charlatão, Cotton se junta a uma equipe de documentaristas para fazer uma encenação-denúncia de um exorcismo, com uma “vítima” aleatória.

É claro que a garota Nell Sweetzer (Ashley Bell) —filha de um fazendeiro barnabé crente— está realmente possuída pelo demônio, e é claro que o pastor vai ter de recuperar sua fé (assim como é claro que haverá uma reviravolta no final). Como disse uma amiga, O Último Exorcismo “é muito derivativo de tudo e completamente previsível”. Ainda assim, a proposta é muito bem executada, a ponto de realmente dar medo, além de citar O Bebê de Rosemary.

 

1.O Exorcista

Como não poderia deixar de ser, o filme que, na prática, deu origem ao gênero encabeça este Top 3. Mais do que um filme de horror, O Exorcista é uma aula de cinema, pelas mãos do professor William Friedkin.

Com roteiro oscarizado de William Peter Blatty, adaptado de seu próprio livro (tão bom quanto o filme, diga-se), O Exorcista estabelece todas as regras do gênero. Um trabalho tão original que virou clichê nas mãos da indústria.

Pra quem acha que é feito apenas de sopa de ervilhas jorrando como vômito, vale uma revisão. Afinal, a batalha cheia de efeitos contra o demônio Pazuzu acontece apenas no clímax (e dura meros 9 minutos). Antes, há uma construção meticulosa de clima, que inclui críticas sociais e à própria Hollywood, pontuada por uma direção de atores que leva o talentoso elenco ao extremo, como é característico de Friedkin. Palmas para Linda Blair e Mercedes McCambridge (a voz do demônio), mas sem esquecer das brilhantes atuações de Ellen Burstyn, Max Von Sydow e Jason Miller.

Mesmo as soluções técnicas continuam assombrosas, 41 anos depois de seu lançamento. Fotografia, iluminação e prostéticos são classe A. O Exorcista tem um tema marcante (Tubular Bells), executado em parcos momentos-chave, mas praticamente não usa trilha sonora, trazendo gravidade para as cenas e deixando as imagens falarem por si, junto com o fantástico trabalho de engenharia de som, também laureado com o Oscar (é impossível não ficar tenso com a cena da tomografia e os ruídos e estalos daquela máquina do inferno). Essa característica é essencial para criar uma atmosfera de medo duradoura, já que o cinespectador não consegue antecipar eventuais sustos. Aliás, sustos não são o cerne da questão, ao contrário dos filmes de terror modernos: o que marca é o pavor constante.

Agarre seu crucifixo e assista essa obra-prima da 7ª arte, preferencialmente na “versão que você nunca viu”, lançada em 2000.

 

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