L.O.A.S – O Lobo de Wall Street: uma versão estendida de Porky’s

Belfort! Belfort? Belfort. Belfort, Belfort, Belfort.

Nos primeiros 15 minutos de O Lobo de Wall Street, nos quais você vê o suficiente para antecipar o quão longe o filme está disposto a ir, dá para pausar, pensar por cinco minutos e prever tudo que vai acontecer pelas próximas novecentas horas de filme. O melhor argumento contra o novo filme de Martin Scorsese é o próprio Martin Scorsese: Cassino e Os Bons Companheiros fazem O Lobo parecer a orgia regada a drogas mais previsível de todos os tempos, uma que tem escrito bem no convite: “Venha. Teremos drogas e orgias. P.S.: não espere nenhuma surpresa”. A previsibilidade dando forma ao mais barulhento e entediante filme que Scorsese já fez (considerando até Kundun).

O Lobo de Wall Street

O maior problema e fonte de toda previsibilidade é que Scorsese trata o personagem principal, Jordan Belfort, do mesmo jeito que o próprio Belfort abordaria sua autobiografia: com um bocado de esbórnia, um senso de sátira óbvio e estúpido e nenhum apego emocional. Fazendo essas escolhas, Belfort deixaria de fora qualquer menção remota de inteligência, culpa ou remorso (três coisas que ele aparentemente não tem as manhas de ter/sentir), se apegando só ao lado divertido da história. Belfort faria exatamente o mesmo filme que Scorsese acabou fazendo.

Então, para gostar de O Lobo, é preciso crer no conceito de “diversão” de Belfort: viva a vida como uma versão exagerada e yuppie de Porky’s e espere que as pessoas riam com você e de você. Eu até ri, mas só em quatro situações breves:

  1. Matthew McCounaghey;
  2. Spike Jonze;
  3. A primeira aparição de Rob Reiner como o pai de Belfort (com uma breve e hilária ponta de Steve Buscemi);
  4. A sequência da turbulência no avião em slow motion (eu até gosto de Porky’s).

Os defensores de Lobo se apegam às piadas do filme para justificar suas qualidades. Depois dos 15 minutos iniciais, o filme não varia as piadas de pó, putas e infidelidades (de amigos ou mulheres) contadas no início. Dá para rir bem mais com O Sétimo Selo (esqueça a fama de morte e xadrez do filme, é a melhor comédia de Ingmar Bergman). Se a comédia que deveria estar no filme não é engraçada, sobra a sátira do capitalismo, etc., etc.

Em Bling Ring, Sofia Coppola fez uma crítica bem óbvia aos excessos e à ideia de causas/consequências que os jovens de hoje cultivam de um jeito torto. A diretora removeu qualquer sutileza do filme porque só assim o públivo alvo captaria a mensagem. O Lobo deixa essa abordagem da Coppola mais próxima de um Flaubert, enquanto Scorsese parece ter se reduzido à uma versão masculina de Carrie Bradshaw, bebericando vinho e digitando conselhos usando o poder de metáforas toscas (num de seus discursos, Belfort chega a gritar sobre o seu local de trabalho: “Isso é a América!“).

Tudo em O Lobo de Wall Street é bobo e inútil (ninguém precisa de um filme para se conscientizar dos perigos da ganância) porque é o tipo de filme que Belfort faria sobre si mesmo. Para ilustrar bem porque é tão entediante: lembram daquela clássica sequência de Quero Ser John Malkovich, onde John Malkovich entra no buraco que o leva para dentro de sua própria mente e descobre um mundo de Malkovichs? A cena é hilária e engenhosa e durou por breves segundos. O Lobo de Wall Street é um filme de três horas que mostra apenas o que Belfort veria caso estivesse preso em sua própria cabeça, vendo várias versões de si mesmo falando “Belfort” o tempo inteiro. Para piorar, ele não é nenhum Malkovich.

P.S.

Gostei de algumas cenas, precisamente aquelas onde Belfort perde qualquer controle sobre tudo ao seu redor. Especialmente as que ele é antagonizado pelo agente do FBI Patrick Denham (Kyle Chandler).

E o filme tem um único momento de sutileza esperta: Scorsese não julga as ações de Belfort por um segundo sequer, mas é rápido em apontar o dedo para aqueles que se agarram em TED Talks e outras conversas da carochinha do tipo como se fossem os únicos caminhos de evitar o “morrer tentando” e ir direto para a parte do “enricar do nada”. É uma pena que seja a última cena, como o lead mais enterrado de todos os tempos.

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