L.O.A.S. – Trapaça

Ao contrário do que parte da crítica vem alardeando, Trapaça (American Hustle) não é um mero sub-Scorsese. O que também não quer dizer que seja a quintescência da originalidade.

Trapaça

A comparação com o estilo do diretor de O Lobo de Wall Street, se cabível, resume-se à estética. E é bom lembrar que não é proibido fazer filmes sobre bandidagem nos anos 70, com trilha pop de bom gosto.

Trapaça me parece mais a exploração de temas caros à David O. Russell: a inadequação do ser humano, o existencialismo e a busca por um lugar ao sol.

Com base em sua filmografia, O. Russell parece interessado em destilar seu senso de humor auto-depreciativo para cometer, de formas diferentes, o mesmo comentário social: “Afinal, não somos todos uns patetas?”

Seus personagens são tortos, cheios de arestas, e os caminhos que trilham são sempre tortuosos.

Trapaça

David O. Russell é um entendedor da alma humana. Como consequência, sabe como extrair o melhor de seus atores. Para ilustrar a tese, basta lembrar que conseguiu a dobradinha de amealhar indicações para ator e atriz, principal e coadjuvante, em duas cerimônias do Oscar seguidas (a última vez que um quarteto de um mesmo filme fora indicado já se vão 33 anos).

Em Trapaça, não é diferente. Todo o elenco se esmera, trazendo diversão (mais do que credibilidade) a duelos verbais cheios de galhofa. Do quarteto principal, aliás, a única que destoa é a queridinha Jennifer Lawrence, um nível abaixo dos demais. É praticamente engolida quando contracena com Christian Bale e, principalmente, Amy Adams (deslumbrante). E Bradley Cooper se desdobra na imagem da insegurança e da ganância pelo poder. Vale mencionar a grande atuação que acontece na periferia, em papéis menores: Jeremy Renner, Louis C.K. (principalmente) e Robert De Niro ajudam a valorizar o preço do ingresso, cada qual a sua maneira.

Trapaça

Uma boa notícia, já que histórias de golpistas pululam aos montes em Hollywood, e não necessariamente atraem ou satisfazem o público. Mais uma vez, o que importa é a execução. E Trapaça consegue entregar o que promete: é um filme delicioso, que trata a tunga de forma classuda. Diversão adulta descompromissada, uma pantomina exagerada que não deveria ter a pretensão de entrar para os anais da sétima arte (culpe a Academia por essa). E, ainda assim, Diversão com D maiúsculo.

Trapaça tem apenas a cara de grandioso. Não passa de outro filme pequeno (mas não menor, que fique claro) ilustrando a visão de seu diretor sobre as pessoas. Nesse sentido, não é muito diferente do road movie Procurando Encrenca, um dos primeiros trabalhos do diretor.

O que espanta é essa recente predileção da academia por David O. Russell. Seus filmes parecem ficar muito mais a vontade em Sundance.

 

2 comentários

  1. Também gostei do “tunga”. Me fez lembrar momentos de anos não tão distantes. kkkkk

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