Dica Duca – Ela

Se temos 2 filmes favoritos ao Oscar por sua consistência (12 anos de Escravidão e O Lobo de Wall Street), como aponta o estudo que traça o perfil dos favoritos da Academia que saiu em matéria da Folha, é certo que temos pelo menos um filme favorito da casa nesta temporada. Um filme que se destaca por fugir de padrões (ou de reimaginá-los): Ela (Her), de Spike Jonze.

Uma história de amor entre homem e máquina? Uma metáfora sobre (falta de) amor próprio? Uma ficção científica apontando o perigo (ou benção?) da inteligência artificial? Um comentário sobre a dificuldade das relações humanas na era das redes sociais? Um veículo para a melhor piada sobre o Bate-papo UOL? Uma bela história de fossa e solidão?

Ela é tudo isso. E mais um pouco.

porque é bom

Spike Jonze comete um filme de extrema sensibilidade —ainda que menos “maluco” sem Charlie Kaufman, seu parceiro habitual nos roteiros (Quero Ser John Malkovich, Adaptação).

Tudo conspira para entregar o estado da arte: um roteiro que preza a sutileza, um design de produção minimalista que emula com classe um futuro próximo, a beleza da fotografia e da trilha sonora “alternativa” (cheia de Arcade Fire, Karen O e que tais) são os destaques óbvios. Acima destes, paira o elenco afiadíssimo.

Joaquin Phoenix, como Theodore (um ghost writer de cartas pessoais –uma grande sacada do roteiro sobre o processo de terceirização exacerbada que vivemos para comprar tempo), apresenta o ápice da expressividade, tornando plausível os elementos fantásticos.

Scarlett Johansson (o sistema operacional Samantha) relembra porque todos nos apaixonamos por sua atuação em Encontros e Desencontros, sem se mostrar uma única vez. Seu trabalho de voz é excelente e, por si só, merecia uma indicação ao Oscar de melhor atriz ou de coadjuvante, ao mesmo tempo em que prova de uma vez por todas que a substituição digital de atores em filmes não será um bicho-papão de empregos. Não enquanto houver o trabalho de dublagem, ao menos.

Amy Adams (Amy) conquista por sua doçura frágil, numa espécie de dobradinha com Scarlett para executar um tema constante na filmografia de Spike Jonze: provar que o que importa é a beleza interior através do “enfeiamento” de musas, no caso da primeira, ou indo além, obliterando seus corpos, como acontece com Johansson.

E ainda há espaço para outras atrizes brilharem intensamente em papéis fugazes: Rooney Mara, a ex-esposa de Theodore, que aparece em inúmeros flashbacks apaixonantes e em cena chave no presente que ressalta o problema do protagonista; Olivia Wilde, num divertido encontro arranjado que escancara nossa ânsia pelo imediatismo; e outra atriz que não aparece em corpo e que rouba a cena apenas com a voz: Kristen Wiig, na já citada cena que melhor exprime o quão hilariante pode ser o Bate-papo UOL.

porque é duca

O melhor de Ela, contudo, é ser estimulante. Propõem uma série de tópicos de discussão, e deixa o cinespectador refletir e tirar suas próprias conclusões.

O enredo singelo —homem recém-separado (Joaquin Phoenix) e deprimido compra um sistema operacional de última geração (voz de Scarlett Johansson), com o qual acaba por construir um relacionamento amoroso— não dá conta de explicar todas as nuances e as múltiplas camadas de Ela. O filme tem mais facetas que o Dr. Lao.

  1. Ela é ou não é uma releitura século XXI de filmes de John Hughes como Alguém Muito Especial ou Mulher Nota 1000?
  2. O amor como ligação intelectual acima de tudo versus a química entre corpos. Um dos lados é vencedor? Ainda há espaço para o meio termo?
  3. O papel do consumismo em nossa sociedade, onde dinheiro pode (ou não) comprar felicidade.
  4. Levanta teses contra e a favor ao nosso relacionamento com smartphones e redes sociais versus interações em carne e osso, como bem apontou Contardo Calligaris na Folha.
  5. Os perigos da Inteligência Artificial e da singularidade (quando um software se torna autoconsciente): e se, ao invés de exterminadores do futuro, o fim da raça humana venha através de OSs que partem corações? Ou de OSs tão irresistíveis que acabem com qualquer possibilidade de reprodução entre humanos?
  6. Além de um belo exercício de futurismo, até que ponto Ela indica para onde estamos indo? Tanto em termos de tecnologia (sistemas sencientes, games realmente interativos) quanto em relação ao comportamento (seremos cada vez mais diretos? Tomaremos atalhos para criar emoções?).
  7. Seria Ela um longo comentário sobre masturbação ou à falta ou excesso de amor próprio? Uma crítica ao egocentrismo? Samantha parece se comportar como a mulher ideal por que na verdade é um espelho de Theodore ou por que desenvolveu personalidade própria?
  8. Em última instância, Ela pode muito bem ser apenas uma resposta à Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola. Que por sua vez, poderia ser um dedo acusatório apontado para o ego de Spike Jonze, seu ex. [Dizem as más línguas que Charlotte, personagem de Johansson em Lost in Translation, seria o alter-ego de Sofia. John (Giovanni Ribisi), uma versão de Jonze. A personagem de Anna Faris seria Cameron Diaz —com quem Jonze trabalhou em Quero Ser John Malkovich. E Bob Harris (Bill Murray), a personificação de Quentin Tarantino, de quem Sofia se aproximou no Japão após se separar de Jonze.] E, se for este o caso, que sacana esse Jonze em escalar Scarlett para ser a substituta cibernética de Mara/Coppola.

Pode ser que você não goste do filme, que tem dividido opiniões. Parece ser mais um caso de ame-ou-odeie (assim como Encontros e Desencontros foi/é). Mas é certo que qualquer obra que estimule discussões e reflexões já sai em vantagem no mundo da cultura pop.

 

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