Top 3 – Paul Verhoeven

Paul Verhoeven voltou à moda, por assim dizer, mesmo que por linhas tortas. Hollywood anda revisitando a obra de um dos grandes diretores das décadas de 80 e 90, com remakes de Total Recall e Robocop.

É claro que os resultados ficam aquém dos originais. E o motivo é óbvio: o holandês Verhoeven tem a veia de autor. Seus filmes são criativos —tanto na forma, quanto no conteúdo— e, sobretudo, provocativos. O diretor parece gostar de questionar o status quo: sua obra joga luz em tópicos espinhosos, faz refletir e traz, invariavelmente, uma crítica mordaz disfarçada de entretenimento.

Paul Verhoeven

Este top 3 é um apelo: estúdios, parem de contratar homens de aluguel para extrair novos centavos de velhos filmes e devolvam a cadeira dobrável e o megafone para o homem que não cria franquias, não trabalha com sequências, mas renova e areja a mídia com obras originais.

3.Robocop

É a opção pop da lista. Robocop entra no ranking representando todo um subgênero da filmografia de Paul Verhoeven: a crítica ácida através da ficção científica, também presente n'O Vingador do Futuro e Tropas Estelares.

Robocop

E por que o policial do futuro ganha a honra, ao invés daqueles? Porque é o que apresenta melhor execução de sua proposta. Total Recall ficou marcado pelas cenas de efeitos especiais e como um filme do Schwarzenegger. Starship Troopers foi e é mal compreendido como sátira. Robocop, não. Marcou época pelo seu estilo, por usar as próprias armas daqueles que quis ridicularizar (violência, tecnologia, capitalismo selvagem, Hollywood), e, acima de tudo, por tornar cool um conceito de ficção B —tire todo o conteúdo e a carga emocional que acompanham a obra e o que sobra é um conceito dos mais bobos (“um tira com partes de robô: vamos chamá-lo de Robô-tira”).

2.Instinto Selvagem

É o injustiçado da lista. Basic Instinct é lembrado mais pela polêmica em torno do sexo e da nudez de Sharon Stone do que pelo baita thriller de assassinato/investigação policial que é.

[Vale lembrar que, até 1992, Sharon era apenas a loira coadjuvante, com papéis esquecíveis em As Minas do Rei Salomão, no próprio Vingador do Futuro, em Loucademia de Polícia 4 e Nico – Acima da Lei, além de participações em seriados como Carro Comando e Magnum]

Na época em que o filme estreou nos cinemas, lembro de páginas e páginas em revistas e jornais dedicadas à cruzada de pernas no interrogatório, à impossibilidade de chegar ao orgasmo na posição de pica-gelo e ao vício em sexo de Michael Douglas. Pouco ou nada se falava da trama intrincada, do suspense gerado pela dúvida, das grandes atuações de Michael Douglas e Jeanne Tripplehorn na derrocada de seus personagens, da frieza da personagem de Sharon Stone e, porque não, de como a cena de sexo entre Douglas e Tripplehorn era carregada de crueza e violência.

Instinto Selvagem

Deixando as polêmicas de lado, o que sobra é uma história de crime consistente, sem soluções fáceis ou claras (mesmo após a subida dos créditos), dirigida com a mão firme de Paul Verhoeven.

1.A Espiã

É o melhor e menos visto da lista. Inspirado por fatos reais, A Espiã traça a história de Rachel Stein, garota judia holandesa que sofre o diabo com a ocupação nazista dos Países Baixos durante a Segunda Guerra Mundial.

Aborda desde as dificuldades em se esconder das SS até a luta da resistência e a retomada do país, com uma reconstituição de época perfeita. Infelizmente, nem a vitória dos aliados é suficiente para terminar a via crucis de Rachel.

A Espiã desperta curiosidade por sair do lugar comum dos filmes de 2ª Guerra, com a ambientação na Holanda. E mostra que o nazismo não é o único e exclusivo demônio da humanidade: o preconceito e o jogo de interesses transitam com facilidade até entre os mocinhos. Há algo de Nietzsche ao provar que quando se olha para o abismo, o abismo olha de volta e etc.

A Espiã

O trabalho dos atores (a maioria holandeses ou alemães) é belíssimo e Verhoeven não se furta a usar suas técnicas já conhecidas para escancarar a podridão da sociedade: violência, nudez e sarcasmo.

Por fim, a grave história de Rachel é um interessante contraponto à Shoshana do satírico Bastardos Inglórios.

 

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